A falta de futebol de Napoli e Juventus terá um preço a ser pago nos jogos de volta da Champions

Napoli e Juventus tiveram adversários acessíveis, por motivos diferentes, mas não jogaram o que poderiam e terão uma missão mais difícil no jogo de volta

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Depois do ótimo resultado da Atalanta no jogo de ida das oitavas de final da Champions League, ficou a expectativa para ver como Napoli e Juventus lidariam com seus jogos. Os dois italianos mais fortes tiveram adversários acessíveis, por motivos diferentes, e tinham a chance de conseguir um resultado importante. Só que nenhum dos dois conseguiu. Os resultados não foram bons, mas pior do que isso é a falta de desempenho. O futebol que os dois times apresentaram parece insuficiente para quem quer chegar às quartas de final e será preciso mudar isso para os jogos de volta.

A Juventus foi até a França e acabou derrotado pelo Lyon, em um jogo que teve desempenho muito ruim e foi engolido pela marcação do time francês. Já o Napoli pegou um Barcelona que jogou mal, mal chutou no gol. Mesmo assim, os Partenopei não conseguiram ir além de um empate em casa e terão que ir ao Camp Nou para, no mínimo, buscar muito gols e provavelmente para vencer o jogo se quiser estar na próxima fase. Os dois times perderam chances que terão seu preço no segundo jogo. E, por isso mesmo, é bom que estejam prontos a pagar para avançar.

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Napoli e a oportunidade perdida

Gennaro Gattuso, do Napoli (Uefa.com)

No San Paolo, o Napoli adotou uma postura bastante defensiva, o que deixou o Barcelona desconfortável. Mesmo fora de casa, os catalães tinham a bola, mas não conseguiam fazer nada com ela. Em parte pelos próprios problemas de construção que temos visto no time na própria La Liga, mas também porque o Napoli conseguiu se posicionar de forma a travar o jogo de forma bastante precisa na maior parte do tempo.

Como qualquer postura, aquela escolhida por Gennaro Gattuso no Napoli tinha riscos. E o risco de uma postura defensiva, que fez Lorenzo Insigne e José Callejón se posicionarem bem mais atrás e marcarem muito mais do que estão acostumados, é que é preciso ser perfeito, ou então tudo vai por água abaixo. Defensivamente, o Napoli foi muito bem em quase todo o jogo. O Barcelona só conseguiu dar um chute no gol, o que é um indicativo do sucesso da estratégia de Gattuso nesse sentido.

O problema é que bastou um momento de vacilo, um bom passe de Sergio Busquets no meio da defesa, o cruzamento de Nelson Semedo e o gol de Antoine Griezmann, justamente nesse único chute certo do Barcelona no jogo. E com esse gol, o empate por 1 a 1 fez com que o trabalho duro do Napoli, com uma postura defensiva bastante eficiente na maior parte do tempo, valesse pouco no resultado final. Porque essa postura exige uma perfeição e o time cometeu um erro, ao longo de todo o jogo. Um erro que custou a vitória.

Depois de tomar o gol, o Napoli até tentou jogar mais e foi até mais perigoso que o Barcelona. Não conseguiu o gol e agora terá uma missão ingrata daqui a três semanas, quando os times voltarem a se enfrentar, desta vez no Camp Nou. Precisará jogar mais. Precisará atacar mais. A mesma postura defensiva não parece uma boa estratégia para avançar as quartas de final. O Napoli ficou devendo futebol e essa dívida precisará ser paga fora de casa contra um time que não vive um grande momento, mas é o Barcelona e tem Lionel Messi. Talvez não haja outra chance de uma má atuação dos blaugranas como foi em Nápoles.

Se é para atacar mais, não seria melhor fazer isso no San Paolo e aproveitar que o Barcelona vive um momento ruim? Agora, precisará fazer muito mais na Catalunha, diante de quase 100 mil pessoas. O Napoli fez algo assim nesta temporada ao complicar a vida do Liverpool nos dois jogos contra os Reds, mas o técnico era outro, Carlo Ancelotti, e muito mudou desde aquele momento. A característica é diferente, mais defensiva, porque Gattuso tratou esse como um problema prioritário de ser resolvido. Será preciso mostrar o que o time já fez em outros jogos grandes do Campeonato Italiano, mas em um nível provavelmente superior, dada a qualidade do adversário – e do craque adversário.

Não faz muito tempo que o Napoli era um dos times que melhor jogava na Europa. Era um time envolvente, perigoso em qualquer campo que jogasse pela Europa. Esse time não existe mais. O time de Gattuso é outro. Muito competitivo, não falta dedicação, entrega e mostra uma capacidade defensiva que pouco se via antes. Quase conseguiu uma vitória que seria enorme. Mas o quase não vale muito. Ainda mais quando a estratégia acaba sendo uma que é tudo ou nada. Será possível que o time de Gattuso repita o de Ancelotti e assuste um time como o Barcelona no Camp Nou? É possível. Terá que jogar muito mais bola, porém. E isso é mais difícil de ver.

Onde está o futebol da Juventus?

Entre todos os adversários possíveis de enfrentar nas oitavas de final, a Juventus foi sorteada com um que está longe de ser um bicho papão. Aliás, à parte da Atalanta, que a Juve não poderia enfrentar por ser do mesmo país, talvez o Lyon fosse o time mais desejado por todos os primeiros colocados. Só que a Juventus não conseguiu fazer com que essa superioridade técnica e de campanha se mostrasse em campo.

O Lyon vem uma campanha ruim na Ligue 1, onde é apenas o sétimo colocado, longe inclusive das vagas europeias. Na França, os dois primeiros vão para a fase de grupos da Champions League e o terceiro joga as preliminares. O quarto vai para a Liga Europa. A Juventus, por sua vez, lidera o Campeonato Italiano com um ponto à frente da Lazio. Com todos os problemas, o time ainda é líder. Na Champions, a Juventus se classificou com muita folga, ganhou 16 dos 18 pontos possíveis.

Só que os números não dizem tudo. O futebol da Juventus não é convincente. Maurizio Sarri chegou para esta temporada com a expectativa de mudar o estilo de jogo do time, mas estamos em fevereiro, mais perto do fim do que do começo da temporada, e a Juventus está longe de jogar ao estilo do técnico. No Chelsea, o seu estilo apareceu na temporada. Isso, inclusive, foi motivo de críticas durante o meio do caminho, quando o time perdeu rendimento. Na Juventus, vemos pouco do “sarrismo”.

No Chelsea parece ter havido uma certa desconfiança e resistência com o seu jeito de armar os times. Ainda assim, em campo, víamos um estilo de jogo que lembrava o seu Napoli. Na Juventus, não. O time, acostumado a ser muito forte na defesa e ter passes muito mais verticais e diretos do que o que Sarri normalmente faz nos seus times, parece que o processo é mais complexo. Ou, ao menos, que o técnico parece não estar fazendo questão de aplicar.

No jogo contra o Lyon, o primeiro chute certo no gol da Juventus só veio aos 80 minutos de partida. Muito pouco para um time que pretende ser mais ofensivo, dominar mais os jogos. É verdade que seus jogadores de frente perderam as chances que tiveram, com Gonzalo Higuaín, Paulo Dybala e até Cristiano Ronaldo, que errou uma cabeçada.

O Lyon armou uma defesa com cinco jogadores e muito fechada. Tirou os espaços e deixou o jogo desconfortável para a Juventus. Na coletiva de imprensa depois do jogo, Sarri mostrou que sabe qual é o problema. “Eu não sei por que, eu não consigo fazer os jogadores entenderem a importância de mover a bola rapidamente. Isso é fundamental, nós iremos continuar trabalhando nisso e cedo ou tarde o conceito irá entrar nas suas mentes”, disse o treinador da Juventus.

“Quando a bola é lenta, você perde posições, você permite que o adversário se aproxime, que seja agressivo e que roube a bola. Eu nem acho que a pressão do Lyon foi forte. Nós apenas movimentamos a bola muito devagar, nunca variamos o ritmo, e quando você faz isso, francamente, é improvável que você crie alguma coisa. Eu não consigo entender por que a bola estava se movimento duas vezes mais rápido o treinamento comparado ao jogo”.

O choque de estilos parece grande. Uma das armas que a Juventus de Allegri usava era a bola longa vindo dos zagueiros para os lados do campo. Até mesmo para o comando de ataque. Mas o técnico não quer que isso seja feito. “Nós deveríamos fazer as coisas claramente de forma diferente do que estamos fazendo. Eu não gosto de usar uma bola longa de 60 metros, é inútil quando todo mundo está afundado, é melhor carregar a bola e tentar uma enfiada em profundidade”.

Será preciso fazer o treino ficar mais próximo do jogo logo. Em três semanas, quando a Juventus receber o Lyon no Allianz Stadium, em Turim, será preciso vencer. E o Lyon, visto pelo jogo de ida, irá se entrincheirar atrás para tentar um jogo mais direto e pegar a Juventus desprevenida. O técnico Rudi Garcia disse, inclusive, que o objetivo será marcar um gol fora de casa para fazer com que a missão da Juve seja ainda mais difícil.

Deveria ser simples para um time como a Juventus reverter o placar de 1 a 0 diante do Lyon, ainda mais em casa. Só que o desempenho do time, especialmente pela falta de consistência, não nos permite acreditar que isso irá acontecer. Será preciso jogar, colocar as ideias em prática e, claro, fazer os gols que faltaram no jogo de ida.

O medo do Coronavírus

A Itália já tem 650 casos confirmados do Coronavírus, sendo 284 pessoas em isolamento domiciliar, 248 hospitalizados e 46 deles na UTI. Até agora, são 17 mortes no país. Se falarmos apenas da Lombardia, no norte do país, são 403 infectados, dos quais 40 já se recuperaram e 14 morreram. Por tudo isso, o cenário ainda é incerto para o jogo do fim de semana entre Juventus e Internazionale.

Isso porque o governador da região da Lombardia ainda quer reverter a decisão de jogar com portões fechados, como foi decidido que este e outros cinco jogos da rodada seriam feitos no fim de semana. Tivemos também o primeiro jogador profissional infectado pelo vírus, na Serie C, que foi confirmado nesta quinta-feira.

É preciso que as autoridades ajam de maneira responsável. Que as medidas tomadas levem em conta primeiro a saúde pública, e não questões políticas para agradar os torcedores. Neste momento, parece um risco grande colocar um jogo desta magnitude, o maior clássico do país, com torcida, na região mais afetada por casos do Coronavírus.