O Paris Saint-Germain conquistou o título da Copa da Liga Francesa, mas nem o gol de Mendy nos acréscimos, nem o alívio ao menos momentâneo da situação do clube dominaram as atenções. Todas as emoções vividas nesta partida simbólica para Lens e PSG, às voltas com o fantasma do rebaixamento, condensaram-se na faixa estendida em um setor das arquibancadas do Stade de France. “Pedófilos, desempregados, consangüíneos: bem-vindo aos Ch’tis”, a frase exibida durante alguns minutos, ofendeu não só os habitantes da região norte da França (os tais Ch’tis), alvo dos insultos. Mais uma vez, a nação leva um tapa na cara diante da intolerância. Há formas para se exterminar este mal? O país até seguiu um caminho mais firme nesse intuito, mas nem isso foi capaz de coibir a ação de marginais.

Nesta temporada, a questão da xenofobia e da discriminação racial tornou-se ainda mais preocupante no futebol francês. Na Ligue 2, o Bastia foi o primeiro a sentir o peso do rigor das novas punições estabelecidas para este tipo de crime. A torcida do clube corso, conhecida por diversos exemplos negativos de perseguição até mesmo a seus próprios jogadores, ofendeu Boubacar Kébé, do Libourne/Saint-Séurin. Gritos de macaco, insultos e outras manifestações odiosas não passaram impunes. O time perdeu um ponto na tabela de classificação, em uma tentativa de reprimir tais acontecimentos com a dor na pele, já que o trabalho para a mudança de mentalidade levaria um tempo muito maior – obviamente, este não deve ser abandonado.

O Metz também sofreu a mesma punição, por um caso semelhante sofrido por Abdeslam Ouaddou, do Valenciennes. Pode-se questionar se a perda de um ponto no torneio nacional não resolve muito as questões, por tratar-se de algo quase insignificante (os Grenás estão praticamente rebaixados para a Ligue 2, enquanto o Bastia ocupa posição intermediária na segunda divisão). Ao menos, comparado às multas irrisórias aplicadas na Espanha, este castigo será lembrado todas as vezes nas quais se analisar a tabela e se perguntar qual o motivo da existência de um asterisco na tabela. Por acaso alguém se lembra quanto o Getafe pagou pelos insultos de sua torcida a Eto’o?

No caso das punições impostas a Metz e Bastia, a abertura desses precedentes lançaria a discussão para se aplicar penas maiores, que realmente colocassem as equipes envolvidas em situações complicadas para evitar um rebaixamento. Um número maior de pontos perdidos, proibição na contratação de reforços por um período determinado ou pesadas multas seriam algumas das alternativas que ‘lembrariam’ aos torcedores que eles também podem prejudicar – e muito – seus clubes.

No caso do Paris Saint-Germain, não se trata de uma atitude nova. A morte de um torcedor do próprio na disputa da Copa Uefa, em 2006, traz à tona outro caso de intolerância. Antes do disparo fatal de um policial, a torcida do clube da capital perseguia um fã do Hapoel Tel-Aviv. Agora, no Stade de France, a tal faixa discriminava pessoas apenas pelo fato de morarem em uma outra região do país. Motivos torpes, imbecis, de quem não consegue ter o mínimo de inteligência suficiente para observar as características de sua própria sociedade, construída e fortalecida exatamente pela grande influência de africanos, árabes e outros estrangeiros.

Em um país no qual a extrema-direita ganhou voz nos últimos tempos, é de se lamentar este tipo de comportamento reprovável. Até o presidente Nicolas Sarkozy se intrometeu na história ao reprimir estes gestos, mas de nada adianta ficar no discurso se nada de efetivo for feito. Pelo histórico, o PSG merece uma punição severa, como a perda de pontos na Ligue 1 (pela reincidência) ou até mesmo a perda da Ligue 1. Parece que só castigos deste nível seriam capazes para ao menos retirar dos estádios estas manifestações odiosas. Para arrancar da alma de quem ofende, infelizmente, uma taça a menos não fará a menor diferença.

Quem cai?

Se o Metz está praticamente condenado a disputar a Ligue 2 na próxima temporada, a briga pela definição dos outros rebaixados segue acirrada. O Paris Saint-Germain acabou de embolar ainda mais a briga com a vitória por 1 a 0 sobre o Strasbourg, um adversário direto nesta disputa. Como o Toulouse também ganhou seu compromisso (2 a 0 em cima do Metz) na 31ª rodada, também manteve suas chances de escapar. Embora o Monaco tenha uma pequena vantagem para seus rivais, seu desempenho nas últimas partidas deixa dúvidas quanto à tranqüilidade na reta final do campeonato.

O PSG esperava aliviar um pouco mais sua situação com o título da Copa da Liga, mas a torcida fez questão de conturbar um pouco mais o ambiente no clube com suas manifestações de intolerância. Do seu lado, o Strasbourg carregava sob seus ombros a responsabilidade de obter um bom resultado para tentar acabar com uma série muito ruim. Em suas seis partidas mais recentes antes do duelo contra o clube da capital, o Racing sofreu cinco derrotas. Nada muito animador para quem deseja se distanciar das últimas colocações.

No Parc des Princes, os dois clubes colocaram suas crises na balança. Com tranqüilidade, o confronto poderia receber o apelido de ‘jogo do medo’, dado o receio de um querer atacar o outro. Enquanto os donos da casa pareciam um pouco mais a fim de jogo, o Strasbourg se limitava a algumas jogadas de Mouloungui e Gameiro. Na segunda etapa, o Racing aproveitou o cansaço aparente dos parisienses para aumentar seu ritmo e pressionar Landreau, criticado nos últimos tempos por suas falhas.

Se Paul Le Guen errou em jogos decisivos por montar esquemas equivocados, desta vez o treinador acertou a mão. Com a queda de rendimento de seu time, ele mudou o jogo ao fazer as alterações certas no momento exato. Diané e Mendy deram sangue novo à equipe, com efeito quase imediato. Chantôme e, principalmente, Luyindula, nada acrescentaram ao PSG no período no qual ficaram em campo. O atacante até recebeu vaias devido à apatia demonstrada – e pelos esforços redobrados de Pauleta para compensar a atuação sem qualquer destaque de seu companheiro ofensivo.

Após o gol marcado por Diané, o Strasbourg sucumbiu ao adversário. Além do ambiente completamente desfavorável no Parc des Princes, a equipe estava sem seus dois homens mais perigosos do primeiro tempo. Mouloungui e Gameiro foram substituídos por Alvaro e Fanchone, que não mantiveram a mesma qualidade dos titulares. Some-se isso ao individualismo de Renteria para explicar mais uma derrota do RCS, agora ao lado do próprio PSG na classificação.

De classificado à Liga dos Campeões no início da temporada a candidato ao rebaixamento, o Toulouse não desperdiçou a chance de bater o Metz e ainda sonhar com a manutenção na elite. Sem Elmander, machucado, o TFC sofreu uma terrível pressão nos 15 primeiros minutos, com direito a bola na trave e um lance salvo em cima da linha. Os Violetas se seguraram como podiam e contaram com a falta de gás dos Grenás no decorrer da partida. Na ausência do atacante sueco, foi Achille Emana o responsável por conduzir o time à vitória.

O camaronês, tido pela própria torcida como um jogador mediano, enfim alcançou um nível regular de atuações. A ausência de Emana no começo do ano, quando esteve com sua seleção na disputa da Copa Africana de Nações, coincidiu com a queda do Toulouse. Coincidência? Há dois meses, ele é o único jogador do clube que balançou as redes. Foi assim contra o Metz: ele foi o autor dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o lanterna. A dependência de Emana, enquanto Elmander ainda se recupera para reencontrar sua melhor forma, no entanto, deixa o TFC em situação delicada. Se apenas ele resolve, uma boa marcação o tirará de combate e deixará a equipe órfã. Um risco perigoso demais para quem busca desesperadamente pela salvação.