Os últimos dois anos e meio do Arsenal não ofereceram tantos motivos a se comemorar. A conquista da FA Cup significa mais um olhar otimista para o futuro do que necessariamente um reconhecimento ao que se fez recentemente no Estádio Emirates. No entanto, a consagração de Pierre-Emerick Aubameyang vale justamente para exaltar o trabalho do atacante desde que chegou aos Gunners. O gabonês talvez seja a grande notícia dos londrinos desde seu desembarque em janeiro de 2018, embora sozinho não possa carregar o clube como um todo. De qualquer maneira, como homem decisivo à virada diante do Chelsea e também capitão, aumenta as esperanças de ser a grande estrela nos novos tempos com Mikel Arteta.

Aos 31 anos, Aubameyang está numa fase da carreira para ser esta liderança. E o investimento feito pelo clube, de €64 milhões, também o colocava nessas condições. Foi o que aconteceu contra o Chelsea, no ponto alto desta passagem do atacante pela Inglaterra. O gol de empate veio num momento necessário da decisão, para evitar a pressão crescente, ao sofrer o pênalti e convertê-lo. Nada que se compare ao brilhantismo do tento da virada, o do título, em um lance para ser recontado durante muito tempo. O corte seco em Kurt Zouma se complementou com a definição sublime, com um toquinho para tirar Willy Caballero. Daqueles instantes que marcam uma carreira, especialmente pelo tamanho da ocasião em que ocorreu.

O ápice de Aubameyang em Wembley, afinal, enfatiza o tamanho de sua efetividade pelo Arsenal desde sua chegada. O camisa 14 pode não ter sido tão arrebatador em todos os jogos nesses dois anos e meio. Em contrapartida, seus números falam por si e tantas vezes ele garantiu os resultados ao clube, apesar da fase cambaleante. São 70 tentos e 15 assistências em 109 partidas. Não custa lembrar, Auba foi excepcional em seu primeiro semestre e contribuiu com 10 gols e 4 assistências em 13 aparições pela Premier League. Na temporada passada, sua primeira completa, terminou com a artilharia da Premier League e também causou impacto na Liga Europa, com gols decisivos na campanha até a final – incluindo atuações excepcionais na virada sobre o Rennes pelas oitavas e nas semifinais contra o Valencia. Agora, o melhor.

Dentro das limitações do clube, a participação de Aubameyang na atual edição da Premier League foi boa. Começou muito bem o campeonato e depois ganhou a braçadeira de capitão, diante dos problemas de Granit Xhaka. Aproximou-se de novo da artilharia com 22 gols e serviu três assistências. Nenhum outro jogador anotou tantos tentos no futebol inglês desde seu desembarque em Londres e, só nesta campanha, 37,5% dos pontos conquistados pelos Gunners tiveram contribuição direta do gabonês. Inclusive, precisou de menos jogos para assinalar seus primeiros 50 gols pelo clube do que Thierry Henry.

A relação com Arteta, aliás, pesou a favor de Aubameyang. O atacante parece ainda mais valorizado e retribui a confiança que ganha com gols. Desde a chegada do comandante, foram 16 tentos em 22 partidas. O artilheiro não evitou a eliminação contra o Olympiacos na Liga Europa ou os ares de decepção na Premier League, mas se colocou sempre a serviço e desequilibrou muitas vezes. É raro encontrar um ponta que centralize tanto para si o poder de decisão, e domine a artilharia.

A Copa da Inglaterra valoriza este protagonismo sustentado por Aubameyang. Já tinha estrelado a classificação diante do Manchester City, com os dois gols na vitória das semifinais. Agora, cresce ainda mais diante do Chelsea, onde só mereceu críticas por se atrapalhar com o troféu. O atacante não é o jogador perfeito, perde seus gols e por vezes é pouco participativo. Mas não há dúvidas na maneira como ele pode potencializar o setor ofensivo com suas arrancadas e os espaços que cria. Uma bola, por vezes, é suficiente a Auba. E isso pode aparecer mais, com uma equipe melhor estruturada. Há boas perspectivas, tanto pelo trabalho de Arteta quanto pelos garotos que florescem no Emirates.

Aubameyang tem mais um ano de contrato com o Arsenal e a evolução do time deve ser essencial para convencê-lo a renovar, sobretudo quando as tratativas ainda acontecem. O capitão espera mais reforços e Ousmane Dembélé, seu antigo companheiro no Borussia Dortmund, é um possível alvo dos Gunners. Mas, independentemente de quem chega, há uma noção de que a peça principal na engrenagem é o próprio Auba. E quem diz isso é Arteta, que não esconde a admiração pelo atacante.

“Aubameyang sabe o que penso sobre ele. Quero construir o time ao redor dele. Acho que Auba deseja ficar e falta apenas assinar o acordo. Esses momentos o ajudarão a perceber e acreditar que estamos no caminho certo, que ele é uma grande parte disso. Ele é amado por todo mundo no clube. Espero que ele possa continuar conosco”, afirmou o treinador. Depois da decisão da Copa da Inglaterra, certamente a maioria da torcida do Arsenal pensa da mesma maneira. O nome do artilheiro entrou para a história – resta saber o quanto ele deseja ampliar sua consideração como ídolo nos Gunners.