Por Gabriela Chabatura, em Montevidéu

Caminhar pelas ruas de Montevidéu é como respirar a rivalidade acirrada entre Nacional e Peñarol. As duas das maiores forças do futebol do país hoje vivem realidades distintas com a modernização e construção, respectivamente, de seus estádios. De um lado o histórico Gran Parque Central, palco de jogos da Copa do Mundo de 1930, e do outro o Campeón del Siglo, nova arena que cumpre todas as exigências da Fifa. É impossível afirmar qual é melhor, porque – sem dúvidas – a experiência que se pode ter em cada um deles é muito singular.

VEJA TAMBÉM: 14 canchas estrangeiras que intimidam na Libertadores 2017

Inaugurado em 1900, o Gran Parque Central é uma espécie de coleção de memórias, sendo considerado um dos estádios mais antigos do mundo. Foi um dos primeiros a receber uma partida de um Mundial, a vitória dos Estados Unidos por 3 a 0 sobre a Bélgica, e está erguido no mesmo local onde o general e herói uruguaio José Artigas foi renomeado “Jefe de todos los Orientales”. Embora a construção seja arcaica para os dias atuais, tem muito brilho.

Um das melhores vantagens do Parque Central é a sua localização. Situado no bairro de La Blanqueada, o estádio está a poucos minutos do Terminal Rodoviário de Três Cruces e próximo à Avenida 8 de Octubre, por onde passam diversas linhas de ônibus urbano, táxis, Uber e outros serviços. Por estar numa região residencial, o trânsito fica um pouco mais complicado em dias de jogos por conta do bloqueio de algumas ruas. Mas nada que atrapalhe ou atrase a chegada ao estádio.

parque central

O acesso para os torcedores é bem organizado e montado pela polícia uruguaia. A revista acontece ainda nas ruas no entorno, e barreiras impedem a entrada dos donos da casa ao portão de visitantes. Curiosamente, tudo mais cuidadoso do que a segurança no Campeón del Siglo.

VEJA TAMBÉM: O amor à camisa fez um ídolo tirar a própria vida dentro do Parque Central

Nas instalações internas, há uma imersão à parte. É como entrar em uma máquina no tempo e voltar a alguns anos, quando o futebol ainda não era encarado como um negócio. O Gran Parque Central não tem placar (nem eletrônico, nem manual), por isso, o sistema de som é acionado com frequência a um volume alto para não ser abafado pela torcida. Nas arquibancadas de concreto, ambulantes vendem churros (70 pesos), café (50 pesos), empanadas (40 pesos) e torta (40 pesos).

Também não há nenhum luxo nas acomodações. A imprensa local e estrangeira ocupam as pequenas cabines de transmissão e cadeiras junto aos torcedores do Nacional. Não há muito espaço para se mover, colocar o computador ou equipamento de rádio. Mas é assim que funciona há anos.

Para a “hinchada”, as arquibancadas atrás dos dois gols não possuem cadeiras, possibilitando assim que todos por ali assistam os jogos de pé com bandeiras, trapos, batuques e até guarda chuva. No fim de jogo, os lugares se esvaziam rapidamente e há lotação em todas as saídas do estádio e transportes coletivos.

Simultaneamente, o Gran Parque Central passa por reformas de modernização para a ampliação das arquibancadas e camarotes, além de melhorias em diversos setores – como vestiários e cabines para a imprensa. Quando finalizadas as obras, o estádio terá capacidade para 40.019 torcedores. O custo previsto é de US$ 26 milhões, cerca de R$ 81 milhões na atual cotação, e está sendo bancada pela venda dos camarotes (clube já tinha 13 milhões de dólares nos cofres) e crédito bancário (4 milhões de dólares).

campeon

A 45 minutos do centro de Montevidéu, na Rota 102, o Peñarol ergueu o seu estádio: o Campeón del Siglo. Sem extravagâncias, mas atendendo às exigências da Fifa, a nova casa do Peñarol está localizada na zonamérica, região que ainda está recebe investimento público para o seu desenvolvimento. À noite, a área é pouco iluminada e as opções de transporte são limitadas.

VEJA TAMBÉM: Inauguração dos sonhos: Forlán marcou primeiro gol e Peñarol goleou River Plate em seu novo estádio

Apesar disso, a construção da nova arena já é considerada por especialistas um case de “como fazer um bom uso do dinheiro”. Com capacidade para mais de 40 mil pessoas, o estadio custou 40 milhões de dólares (aproximadamente R$ 125 milhões) e chamou a atenção de engenheiros e diretores de negócio da Wtorre, construtora responsável pela construção do Allianz Parque.

Após anos jogando no Centenário, o Peñarol conseguiu preservar a identidade de sua torcida. Sem assentos em praticamente 90% da arquibancada (há apenas próximo ao café e à loja do clube), todos os torcedores assistem aos jogos de pé e fazem festa com bexigas, sinalizadores, fumaças, faixas e bandeiras. A Barra Amsterdam (em referência a um dos setores do Centenário onde ficava), principal organizada do clube, é fixada atrás de um dos gols.

Na entrada principal do estádio, há uma passarela da fama que enaltece os principais ídolos da história do clube. Com fotos em um painel luminoso de cada um, diversos torcedores param por ali para registrar o nome. O novo estádio é uma arena, mas não é nada “gourmetizada”.

Agora, Montevidéu se prepara também para ganhar a Antel Arena. Com inauguração prevista para janeiro de 2018, o complexo poliesportivo promete funcionar 24 horas por dias e receber partidas de diferentes modalidades, como vôlei, basquete e espetáculos, visando o Mundial de Basquete de 2023. O orçamento dela é de 58 milhões de dólares, aproximadamente R$ 193 milhões na atual cotação.