A estreia dos sonhos: Bolívia não apresentou dificuldades, e Brasil goleou sem precisar forçar

Fazia quase um ano que o Brasil não entrava em campo e não estava exatamente em grande fase. A vitória sobre a Coreia do Sul, no último mês de novembro, havia encerrado uma sequência de cinco jogos sem ganhar, contra seleções sul-americanas ou médias como Nigéria e Senegal. Houve até uma derrota para a Argentina. O intervalo prolongado pela pandemia serviu para que a Seleção entrasse em campo, nesta sexta-feira, para a primeira rodada das Eliminatórias Sul-Americanas, com um ar de recomeço e dificilmente haveria adversário mais favorável do que uma desfalcada Bolívia: 5 a 0, sem precisar forçar.

Mesmo quando tudo está em ordem, a seleção boliviana não é uma das potências do continente. Imagina quando está em crise. A renúncia de Evo Morales, ano passado, atrapalhou planos de sediar o Sul-Americano sub-15 e fechou a torneira de investimentos em infraestrutura para a seleção. Em julho, o presidente da Federação Boliviana, César Salinas, morreu de Covid-19, o que abriu um racha político entre dois vice-presidentes que também se estendeu aos clubes.

O Oriente Petrolero orientou seus jogadores a não aceitarem a convocação do treinador César Farias, que acabou também não convocando para enfrentar o Brasil representantes do Bolívar e do Jorge Wilstermann. Sem alguns dos seus principais jogadores, Farias colocou em campo uma equipe bastante jovem. Entre os titulares, cinco estiveram no Pré-Olímpico Sul-Americano disputado em janeiro. E para completar, a liga nacional ainda não foi retomada, após a paralisação de março por causa da pandemia de coronavírus.

E aí, quando um dos jogadores mais velhos em campo, que deveria ser um esteio de tranquilidade e experiência, falha antes do primeiro minuto, a Bolívia pode ter certeza que está diante de uma longa noite. Renan Lodi cruzou da esquerda, o goleiro Carlos Lampe, 33 anos, do San José, saiu mal do gol, e Everton Cebolinha não abriu o placar apenas porque provavelmente se assustou com uma oportunidade tão clara tão cedo. Bateu para fora.

Mas em nenhum momento pareceu que o Brasil teria qualquer dificuldade na Arena Neo Química. Aos quatro minutos, Marquinhos subiu livre para cabecear o cruzamento de Cebolinha. Depois, Diego Wayar teve a moral de ser desarmado por Neymar dentro da própria grande área e, por sorte, acabou cedendo apenas um escanteio. Aos 12 minutos, os visitantes haviam completado apenas dois passes. Você não leu errado: dois passes.

Era apenas uma questão de encaixar uma jogada, o que aconteceu aos 16 minutos, quando Danilo cruzou da direita e Marquinhos, novamente bem distanciado dos seus marcadores, cabeceou com precisão para abrir o placar. Lampe se redimiu do erro anterior com uma boa defesa em chute desviado de Coutinho da entrada da área, mas, na marca da meia hora, Lodi mais uma vez foi acionado pela esquerda e cruzou rasteiro. Firmino, na boca do gol, completou para ampliar.

O que estava fácil continuou fácil depois do intervalo. O Brasil não tinha nenhuma dificuldade para encontrar espaços pelos lados, com triangulações ou passes curtos em profundidade. A formação com dois volantes, Douglas Luiz ao lado de Casemiro, funcionou bem, deu liberdade para Coutinho se movimentar e criar, mas também não é que teve grandes desafios. A dobradinha Renan Lodi e Neymar foi a que melhor funcionou. Aos quatro minutos, o lateral esquerdo acionou o atacante, que cruzou rasteiro para Firmino desviar. Como desgraça pouca é bobagem, desviou exatamente entre as pernas de Lampe para fazer o terceiro.

Atenção: a Bolívia atacou. Foi aos seis minutos. Bruno Miranda trouxe da esquerda para o meio e chutou forte. Weverton estava um pouco adiantado, mas conseguiu se recuperar e espalmar para escanteio.

O clima era tão leve que Neymar tentou acrescentar mais uma pintura à sua coleção. Da entrada da área, deu um rolinho em carrasco e tentou superar a resistência seguinte com o giro do Zidane, mas a bola bateu na sua canela e fugiu do seu controle. Pena. Mas o quarto gol não demoraria a sair. Coutinho fez ótima jogada pela direita, invadiu e cruzou à meia-altura. Rodrygo, que havia entrado no lugar de Everton Cebolinha, desviou com o cocoruto. Acertou Carrasco, que marcou contra. Porque, reforçando, desgraça pouca é bobagem.

Tite aproveitou para colocar a galera em campo. Aos 26 minutos, colocou Richarlison na vaga de Firmino, que pouco antes havia saído livre na cara do goleiro, após bom passe de Casemiro, mas perdeu o ângulo ao driblar o goleiro. Felipe entrou no lugar de Thiago Silva. Neymar aproveitou a liberdade para mostrar todos os seus truques. Recebeu outra bola pela esquerda e cruzou na medida para Coutinho aparecer entre dois zagueiros e cabecear às redes.

O Brasil seguiu insaciável até os minutos finais. Deu até para Neymar – estranhamente mantido até o fim do jogo, apesar das dores que o tornaram dúvida ao longo da semana – arrumar uma briguinha por uma falta dura que sofreu de Zabala na ponta esquerda. Em outra falta pouco depois, mais central, mandou em direção ao ângulo, mas Lampe conseguiu fazer a defesa.

Foi fácil? Foi. Mas só dá para vencer quem está à sua frente e, depois de terminar o ano passado perdendo do Peru, empatando com Nigéria e Senegal, o Brasil precisava de uma oportunidade para lavar a alma. E ela ficou mesmo bem limpinha.

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