A torcida do Hamburgo deu um voto de confiança ao clube. O rebaixamento inédito à segunda divisão da Bundesliga aconteceu, após ser postergado várias vezes. Mas não seria por isso que a massa viraria as costas ao time do coração. O apoio à redenção começou antes mesmo do início da temporada, com a venda de mais de 25 mil carnês de temporada até o início de julho. Nesta sexta-feira, as arquibancadas do Volksparkstadion estiveram abarrotadas, com os 57 mil lugares preenchidos. Tudo isso para uma estreia traumática na segundona. Recebendo o modesto Holstein Kiel, rival de outros tempos, os Dinossauros tomaram uma piaba. Derrota por 3 a 0, que tira um pouco as esperanças de um retorno fácil.

Como era de se esperar, vários jogadores preferiram abandonar o barco do Hamburgo rumo à segunda divisão. O Hannover 96 foi quem se deu melhor, levando Walace e emprestando Bobby Wood. Também saíram atletas como Alen Halilovic, Nicolai Müller, Luca Waldschmidt, André Hahn e Christian Mathenia. A barca de reforços foi relativamente modesta, com apenas cinco novos nomes, dos quais o único que custou algo foi o ponta Khaled Narey – embora Jairo Samperio e Christoph Moritz sejam bons acréscimos gratuitos. Mantido no cargo, o técnico Christian Titz confiava principalmente em lideranças que decidiram ficar, como Lewis Holtby e Aaron Hunt. No mais, muitos jogadores da base ganhando espaço, com menção principal ao centroavante Jann-Fiete Arp, que fez algumas aparições na Bundesliga passada e era especulado por outros clubes da primeira divisão.

O Hamburgo entrou em campo com um time bastante jovem, com média de idade de 23,5 anos, embora também com atletas rodados. Durante o primeiro tempo, o placar zerado prevaleceu, até que o Holstein Kiel desse seu banho de bola nos 45 minutos finais. Jonas Meffert acertou um chutaço de fora da área para abrir o placar, em contra-ataque originado por um lateral rápido. Depois, uma saída errada do goleiro Julian Pollersbeck deu a bola de graça aos adversários no campo de ataque e Lee Jae-song cruzou para David Kinsombi fuzilar. Por fim, o caixão se fechou nos acréscimos, em novo contragolpe, desta vez concluído por Mathias Honsak.

A derrota para o Holstein Kiel é emblemática. Por mais que o clube tenha chegado aos playoffs de acesso na temporada passada, disputou a terceirona há dois anos e, se subisse, precisaria de uma licença especial ao estádio de 10 mil lugares – pequeno, mas suficiente à cidade de 240 mil habitantes no extremo norte do país, próxima à fronteira com a Dinamarca. Além disso, seu elenco é um dos mais modestos da competição, com um valor de mercado quatro vezes menor que o do HSV.

Os dois clubes, aliás, possuem uma rivalidade adormecida. Hamburgo e Holstein Kiel costumavam brigar por títulos no antigo Campeonato Regional do Norte da Alemanha, que dava lugares à fase final do Campeonato Alemão. Em dez edições da competição, entre as décadas de 1920 e 1950, a dupla se alternou nas duas primeiras colocações da liga regional, com oito títulos dos Dinossauros e outros dois do Kiel. Os embates deixaram de acontecer a partir de 1963, quando a Bundesliga unificou o campeonato nacional. Desde então, além de amistosos, haviam se encontrado só uma vez – em 2007/08 pela Copa da Alemanha, com goleada do HSV por 5 a 0. Os pequeninos deram o seu troco em grande estilo.

Uma cena especial aconteceu ainda antes que a bola rolasse no Volksparkstadion. Os torcedores do Hamburgo receberam a equipe com um bandeirão que tomava um setor inteiro nas arquibancadas. Nele, era possível ver o desenho de um filme fotográfico, com várias imagens ruins do passado recente do clube, que os torcedores gostariam de deixar para trás. A derrota desta sexta, no fim das contas, adiciona mais uma foto infeliz. E por mais que o Hamburgo seja favorito ao acesso, ao lado do Colônia (este, sim, candidatíssimo), o equilíbrio na segunda divisão da Bundesliga costuma manter uma concorrência grande pelas primeiras posições. O Holstein Kiel deu seu aviso.