A Escócia volta à Eurocopa depois de 25 anos: como foram as participações em 1992 e 1996

A vitória nos pênaltis sobre a Sérvia na repescagem permitiu à seleção da Escócia voltar a escrever sua história na fase final de uma Eurocopa após 25 anos. Antes de confirmar sua classificação à edição que será disputada no próximo ano, o Tartan Army havia marcado presença nas duas realizadas nos anos 1990: na Suécia, em 1992, e na Inglaterra, em 1996. Não passou da fase de grupos em nenhuma delas – embora tivesse chegado incrivelmente perto de avançar às quartas de final na segunda participação. Mas obteve vitórias em ambas, além de endurecer os jogos contra algumas das seleções do primeiro escalão europeu da época.

Sua primeira participação, em gramados suecos, veio na esteira de uma longa sequência de presenças em Copas do Mundo, das quais os escoceses vinham de disputar as últimas cinco edições, entre 1974 e 1990. Já a segunda – quatro anos depois e em território bastante familiar, na vizinha e rival histórica Inglaterra – viria a anteceder a última presença em Mundiais, na França em 1998. Por ironia, a Escócia ficaria de fora da Copa de 1994, nos Estados Unidos, justamente a realizada entre suas duas únicas campanhas europeias anteriores.

A Escócia disputava as Eliminatórias da Euro desde a terceira edição, em 1968. E aquela foi também a ocasião em que esteve mais perto de se classificar. Num grupo em que os jogos valiam ainda por duas edições do extinto Campeonato Britânico, o Tartan Army obteve vitória marcante em Wembley sobre a Inglaterra recém-coroada campeã do mundo por 3 a 2 na terceira rodada. Mas chegou à última partida precisando repetir o feito, agora no Hampden Park, para avançar às quartas de final em ida e volta. E o empate em 1 a 1 classificou os ingleses.

Daí em diante, muitas foram as participações discretas, ou mesmo decepcionantes. Como foi o caso do torneio classificatório para a edição de 1984, quando, apesar de contar com a experiência de Jock Stein no comando e com vários jogadores de primeira linha do vencedor futebol inglês de então (como a dupla Graeme Souness e Kenny Dalglish, do Liverpool), a Escócia amargou a lanterna num grupo com Bélgica, Suíça e Alemanha Oriental, vencendo apenas a primeira partida, diante dos alemães-orientais em Glasgow, e perdendo as três fora de casa.

Euro 92

A Escócia de 1992 (Foto: Imago / One Football)

A participação opaca na Copa do Mundo da Itália, em 1990 – talvez aquela em que os escoceses tenham mostrado menos dentre as cinco seguidas que disputaram – não indicava que as coisas seriam diferentes para o Tartan Army nas Eliminatórias para a Euro 92. Até porque, mais uma vez, o grupo era muito nivelado: havia a Romênia, que fizera bom papel no Mundial, e as ascendentes equipes da Suíça e da Bulgária, além da estreante seleção de San Marino, que se conformaria com o papel de saco de pancadas e fiel da balança da chave.

Um bom início, porém, mudou a perspectiva: logo de saída, a Escócia venceu Romênia e Suíça no Hampden Park, em Glasgow, ambas por 2 a 1. Contra os romenos, a vitória veio de virada: Rodion Camataru abriu o placar, mas o estreante John Robertson empatou e Ally McCoist fez o segundo na etapa final. Já frente aos suíços, Robertson voltou a balançar as redes inaugurando a contagem num pênalti, com Gary McAllister ampliando no segundo tempo antes de Adrian Knup descontar para os visitantes em outra penalidade nos minutos finais.

Em seguida, a equipe fez seus dois confrontos contra a Bulgária, empatando ambos por 1 a 1. No primeiro deles, em Sófia, no dia 14 de novembro de 1990, Ally McCoist aproveitou-se de uma pixotada do goleiro Borislav Mikhailov após um cruzamento para abrir o placar aos nove minutos de jogo. Mas a pressão dos búlgaros na etapa final levaria ao empate no gol de Nikolay Todorov aos 30 minutos, em bola que desviou na defesa. O segundo seria disputado já em 1991, no dia 27 de março, e novamente os escoceses sairiam na frente e sofreriam o empate.

O placar seguiu em branco até os 39 minutos do segundo tempo, até que o meia John Collins, que havia acabado de entrar em campo, completou de cabeça um cruzamento da direita e deixou os donos da casa em vantagem. Mas no último minuto, Emil Kostadinov empatou num lance controverso e frustrou o público no Hampden Park. Ainda assim, uma vitória protocolar por 2 a 0 na visita a San Marino, com gols de Gordon Strachan (cobrando pênalti) e Gordon Durie manteve os escoceses na liderança da chave com oito pontos em cinco jogos.

Só que os suíços também emendaram dois ótimos resultados ao baterem a Bulgária em Sófia – numa virada épica por 3 a 2, após estarem perdendo até a cinco minutos do fim – e surrarem San Marino por 7 a 0. E saltaram para a ponta da tabela, embora com uma partida a mais. Em seguida viria o outro confronto direto com os escoceses, agora em Berna, no dia 11 de setembro. E os helvéticos largaram com tudo: Alain Sutter acertou uma bomba no travessão, Stéphane Chapuisat abriu o placar e o capitão Heinz Hermann ampliou de cabeça.

Gordon Durie contra San Marino (Foto: imago/Colorsport)

Tudo isso em um primeiro tempo no qual os escoceses escaparam de uma goleada. Mas na volta do intervalo, a sorte do jogo mudaria de lado. Logo aos dois minutos, Gordon Durie testou com força um cruzamento da direita e recolocou os britânicos no jogo. E a sete minutos do fim, com a Escócia partindo para o tudo ou nada, o goleiro suíço Stefan Huber não conseguiu conter um chute e, no rebote, Ally McCoist não perdoou, calando a torcida local. Se não recolocava a Escócia na liderança, o empate ao menos evitava que a Suíça se distanciasse na ponta.

No jogo seguinte, porém, diante da Romênia em Bucareste, viria a primeira (e única) derrota da campanha: 1 a 0, gol de Gheorghe Hagi de pênalti após toque de mão de Gordon Durie na área, resultado que não só impedia a retomada da liderança pelos escoceses como deixava o grupo totalmente em aberto, com os próprios romenos – na quarta posição, mas com um jogo a menos em relação a todos os adversários – vendo suas chances renascerem com vistas à última rodada dupla da disputa, no dia 13 de novembro, quando receberiam a Suíça.

A Escócia receberia San Marino no mesmo dia, de olho no confronto de Bucareste. Muito atrás dos suíços no saldo de gols, os britânicos torciam mesmo pela vitória da Romênia, mas sabendo que isso levaria a depender de um novo resultado, agora um tropeço dos Tricolorii na sua visita à já praticamente eliminada Bulgária em Sófia num jogo isolado dali a uma semana. Os 4 a 0 sobre a fraca seleção samarinesa vieram com facilidade. Já no outro duelo, um gol de Dorin Mateut aos 28 minutos da etapa final dava a vitória à Romênia e eliminava a Suíça.

Faltava então o jogo de Sófia, o qual a Romênia precisava vencer marcando pelo menos dois gols para superar a Escócia na liderança. O que poderia ter alcançado se Hagi não tivesse chutado um pênalti nas mãos de Mikhailov ainda no primeiro tempo, minutos antes de Adrian Popescu enfim abrir o placar. Mas na etapa final, logo aos dez minutos, Nasko Sirakov tabelou com Hristo Stoichkov e apareceu no meio da área para empatar, cravando uma estaca no peito dos romenos e entregando de bandeja a classificação inédita aos escoceses.

O técnico que levaria a Escócia à sua primeira participação na Eurocopa era Andy Roxburgh, um ex-atacante de clubes pequenos e médios do país nas décadas de 1960 e 1970 que se tornou um respeitado diretor técnico da Federação Escocesa. Conduziu um programa de desenvolvimento de jogadores e treinadores (chegou a ser professor de José Mourinho) e dirigiu com sucesso as seleções de base do país. Era, entretanto, um azarão entre os indicados para assumir o cargo no lugar de Alex Ferguson após a Copa do Mundo de 1986. Mas acabou escolhido.

Se durante as Eliminatórias da Euro 92 Roxburgh ainda se fiou em alguns nomes experientes, um processo de renovação foi iniciado após garantir a vaga: veteranos como os defensores Alex McLeish, Steve Nicol e Gary Gillespie; os meias Gordon Strachan, Murdo MacLeod e Roy Aitken; e o centroavante Maurice “Mo” Johnston foram afastados temporária ou definitivamente da seleção, abrindo espaço para novatos que ganharam chances nos amistosos preparatórios, como o lateral Alan McLaren, o zagueiro Derek Whyte e o atacante Duncan Ferguson.

Na Suécia, entretanto, a equipe-base não mudou muito em relação a aquela utilizada com mais frequência nas Eliminatórias, quase sempre estruturada em um 4-4-2 simples. No gol, o reserva das duas últimas Copas, Andy Goram (Rangers), aproveitava-se da má fase do antigo titular Jim Leighton – que sequer foi chamado – para ganhar a posição. À sua frente, atuava a linha de quatro defensores, com os laterais Stewart McKimmie (Aberdeen) e Maurice Malpas (Dundee United) e os zagueiros Richard Gough (Rangers) e Dave McPherson (Hearts).

Era um quarteto que esbanjava experiência internacional: todos haviam jogado na Copa de 1990, sendo que Gough (capitão da seleção e ex-jogador do Tottenham na segunda metade dos anos 1980) e Malpas (que defendeu somente os Tangerines na longa carreira iniciada em 1979 e encerrada só em 2000) também estiveram no Mundial de 1986 e somavam, cada um, mais de 50 partidas pela seleção. O meio-campo, por sua vez, se não chegava a ser tão experiente, primava por outra qualidade: a versatilidade, com atletas de características complementares.

Dois deles haviam sido titulares na Copa da Itália: o talentoso armador Paul McStay (Celtic) e o incansável Stuart McCall (Everton), verdadeiro pulmão do time. Os outros dois que completavam o setor eram Gary McAllister, meia de muita liderança e ponto de sustentação do time do Leeds que reconquistara o título inglês semanas antes do início daquela Eurocopa, e Brian McClair, meia-atacante inteligente que marcou época no Manchester United da virada dos anos 1980 para os 1990 e que enfim tinha a chance de disputar um grande torneio pela Escócia.

Na frente, a dupla titular era formada pelo centroavante Ally McCoist (Rangers) e Gordon Durie (Tottenham), jogador de mais movimentação na frente. Nas Eliminatórias, os dois haviam sido os autores de metade dos 14 gols marcados pela seleção. McCoist, em particular, vivia um momento espetacular: eleito o jogador do ano no país tanto pela Associação de Cronistas Esportivos quanto pela de Jogadores Profissionais, sagrara-se ainda o primeiro escocês a conquistar a Chuteira de Ouro europeia, após marcar 34 gols em 38 partidas pelos Gers na liga.

Entretanto, se os escoceses alimentavam alguma esperança de avançar na fase de grupos, ela se foi com o sorteio das chaves, que determinou como adversários nada menos que a Alemanha atual campeã mundial, a Holanda detentora da Eurocopa e ainda a boa equipe da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), herdeira da maior parte do espólio da antiga União Soviética (vice-campeã europeia em 1988) após a dissolução desta no ano anterior. Legítimo azarão, o estreante Tartan Army já sabia que qualquer ponto ganho já seria muito comemorado.

Ally McCoist encara a marcação de Van Tiggelen (Foto: Imago / One Football)

Mas ainda assim, a equipe deu trabalho aos favoritos. A estreia foi contra os holandeses no dia 12 de junho no Nya Ullevi de Gotemburgo. Levando a campo sua espinha dorsal de astros que incluía Ronald Koeman, Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco van Basten, reforçada pelo novato e promissor Dennis Bergkamp, a Laranja de Rinus Michels atacou desde o início, enquanto a Escócia se defendia com resiliência e se arriscava em contra-ataques. Richard Gough, particularmente, fazia uma exibição de excelência na zaga, anulando completamente Van Basten.

No segundo tempo, os britânicos se soltaram e tiveram algumas boas chances. Mas a resistência defensiva só durou até os 31 minutos, quando Gullit centrou da direita para a área e, após duas escoradas de cabeça, a bola chegou até Bergkamp, que empurrou às redes sem chance para Andy Goram. O técnico Andy Roxburgh ainda mexeu no ataque, colocando Kevin Gallacher (Coventry) e Duncan Ferguson (Dundee United) nos lugares de McCoist e McClair, mas depois de sofrerem o gol já na reta final da partida os escoceses não conseguiram criar mais nada.

Stuart McCall é perseguido por Stefan Effenberg (Foto: Shaun Botterill/Allsport/Getty Images/One Football)

Na segunda rodada seria a vez de enfrentar a Alemanha, que vinha de arrancar um dramático empate em 1 a 1 com a CEI graças a um gol de falta de Thomas Hässler no último minuto. Mesmo desfalcada de Lothar Matthäus desde antes do torneio e também de Rudi Völler, que fraturou o braço na estreia, o Nationalelf ainda tinha qualidade em abundância. Mas, de novo, a Escócia não se intimidou e começou muito bem na partida disputada no Idrottsparken de Norrköping, três dias depois da partida inaugural contra os holandeses.

O jogo começou franco, aberto, com chances de parte a parte. O goleiro Bodo Illgner foi obrigado a fazer três grandes defesas nos primeiros dez minutos. E mais tarde foi a vez do zagueiro escocês Dave McPherson desperdiçar uma oportunidade ao errar a pontaria na pequena área. Do outro lado, Andy Goram salvou com os pés uma finalização de Jürgen Klinsmann. Mas não pôde fazer nada aos 29 minutos quando Klinsmann protegeu a bola na frente de Gough e passou para Karl-Heinz Riedle chutar rasteiro. Encoberto, sem visão do lance, Goram ficou sem ação.

Para piorar, a falta de sorte voltou a cruzar o caminho dos escoceses no início do segundo tempo, logo aos dois minutos, quando um cruzamento à meia-altura de Effenberg da direita resvalou na perna de Malpas e subiu, encobrindo Andy Goram e tomando o rumo das redes. Andy Roxburgh voltou a mexer no ataque, trocando Gordon Durie pelo talentoso ponteiro Pat Nevin (Everton), e o time voltou a incomodar a defesa alemã. Mas o placar não foi mais alterado até o fim da partida, e a segunda derrota representava a eliminação precoce da Escócia no torneio.

Andrei Kanchelskis encara a marcação escocesa (Foto: Imago / One Football)

Restava, porém, o último jogo, diante da CEI novamente em Norrköping, três dias depois do confronto com os alemães. Vinda de empates com os alemães (1 a 1) e os holandeses (0 a 0), a equipe comunitária precisava vencer a Escócia para garantir a classificação às semifinais, ficando de olho ainda no confronto entre os outros dois adversários em Gotemburgo. Já os escoceses jogavam apenas por uma despedida honrosa e entrariam com duas alterações: Tom Boyd (Celtic) na lateral esquerda no lugar de Malpas e Kevin Gallacher no ataque no posto de Durie.

O que conseguiriam com sobras, surpreendendo logo de saída um oponente armado para contra-atacar. A contagem foi inaugurada logo aos seis minutos com um chutaço de fora da área de Paul McStay que acertou a trave, as costas do goleiro Dmitri Kharine e tomou o rumo das redes. O segundo gol, aos 17 minutos, seria semelhante ao primeiro, em outro bonito chute de longe de Brian McClair que entrou no cantinho. Atarantada, a equipe da CEI não conseguia reagir, deixando a Escócia na confortável situação de controle do jogo e do tempo.

Com duas alterações feitas no intervalo pelo técnico Anatoliy Bishovets, a equipe comunitária voltou melhor no segundo tempo e ameaçou seguidamente com Sergei Yuran, Dimitri Aleinikov e, mais tarde, com Igor Dobrovolski e Igor Korneev desperdiçando duas chances num mesmo lance. Mas o dia seria mesmo da Escócia, que fecharia o placar a seis minutos do fim, depois de Pat Nevin armar um salseiro na área adversária e ser derrubado. Na cobrança do pênalti, Gary McAllister deslocou Kharine com tranquilidade e marcou o 3 a 0.

Euro 96

A Escócia de 1996 – Foto: Mary Evans / Allstar Richard Sellers / Imago / One Football

O mau desempenho nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994, quando a Escócia terminou apenas na quarta colocação do grupo em que Suíça e Itália se classificaram e Portugal ficou em terceiro, levou ao fim da era Andy Roxburgh no comando da seleção. Enquanto o ex-treinador assumia o cargo de diretor técnico da Uefa, seu antigo auxiliar Craig Brown era apontado como o novo comandante do Tartan Army. Sua missão inicial seria renovar o elenco e tentar a segunda classificação consecutiva para a Eurocopa, a ser disputada na Inglaterra.

A vaga na Euro 96 veio de maneira bem mais tranquila que a de quatro anos antes. Depois de ter enfrentado quase sempre grupos equilibrados em suas campanhas anteriores nas Eliminatórias, desta vez a Escócia foi sorteada no grupo considerado o mais fraco da fase de classificação, o 8, ao lado de Rússia, Grécia, Finlândia, Ilhas Faroe e San Marino. E agora, com a ampliação da Eurocopa para 16 seleções em vez de oito, não apenas os campeões de grupos garantiam vaga na competição como também praticamente todos os segundos colocados.

Os russos (enfim competindo como nação independente) e os gregos haviam participado da Copa do Mundo dos Estados Unidos, mas ambos ficaram pela fase de grupos com campanhas fracas – em especial os gregos, que fizeram um papelão ao terminarem na lanterna do torneio, com três derrotas, dez gols sofridos e nenhum marcado. A Finlândia de Jari Litmanen despontava como a quarta força, podendo tirar pontos dos favoritos ou mesmo brigar pela segunda vaga. Mas Ilhas Faroe e San Marino não fariam mais do que figuração.

A Escócia largou com uma boa vitória sobre a Finlândia em Helsinque (2 a 0), antes de golear as Ilhas Faroe no Hampden Park (5 a 1). Mas em seguida empatou em casa com a Rússia (1 a 1), foi batida na visita à Grécia (1 a 0) e voltou a ficar na igualdade com os russos, agora em Moscou (0 a 0). Este perde e ganha inicial embolou o grupo, que teve sucessivas mudanças na ponta. Após vencer San Marino e Ilhas Faroe fora de casa, ambos por 2 a 0, os escoceses dividiam a segunda posição com a Rússia, um ponto atrás dos finlandeses e dois à frente dos gregos.

A decepção de Gary McAllister e Colin Hendry na Euro 1996 – Foto: Imago / One Football

Porém, os jogos da reta final, no segundo semestre de 1995, desatariam o nó daquela chave. Em 16 de agosto, enquanto a Rússia atropelava a Finlândia em Helsinque por impressionantes 6 a 0, um gol de Ally McCoist fazia a Escócia dar o troco nos gregos no Hampden Park, com vitória por 1 a 0. Na rodada seguinte, em 6 de setembro, novamente em Glasgow, os escoceses bateram os finlandeses também por 1 a 0, enquanto os russos aplicavam 5 a 2 na visita às Ilhas Faroe. Eram resultados que deixavam a classificação das duas seleções bem encaminhadas.

Quando a Rússia derrotou a Grécia por 2 a 1 em Moscou no dia 11 de outubro, em jogo isolado, carimbou não só o próprio passaporte como também o dos escoceses, que fecharam a campanha com um tranquilo 5 a 0 sobre San Marino em Glasgow no dia 15 de novembro. Com uma parte da missão cumprida, Craig Brown seguia trabalhando na outra, a renovação da equipe, fazendo a torcida escocesa se acostumar com os novos nomes que despontaram na seleção após a Euro 92 e também após a malfadada campanha de classificação à Copa de 1994.

A Escócia chegou à Euro 96 mantendo apenas nove jogadores que estiveram na Suécia quatro anos antes. Ainda que o goleiro Jim Leighton e o meia John Collins – que já tinham defendido a seleção antes de 1992 – retornassem à lista, metade dos 22 convocados havia estreado no time nacional durante o ciclo de quatro anos entre os torneios europeus. Entre eles, alguns nomes que teriam longa carreira no Tartan Army, como a nova dupla de zaga formada por Colin Calderwood (Tottenham) e Colin Hendry (Blackburn) e o ala Craig Burley (Chelsea).

No geral, era uma equipe ligeiramente menos talentosa que a de 1992, mas mais aplicada e versátil, em especial os jogadores de lado, fazendo que o esquema tático pudesse flutuar sem sustos de um 4-4-2 ou 4-3-3 para um 3-5-2. Mesmo com o retorno de Leighton, Andy Goram seguia como titular do gol, assim como Stewart McKimmie na lateral-direita. E pelo lado esquerdo da dupla de zaga viril formada pelos já citados Colin Calderwood e Colin Hendry, estava desta vez Tom Boyd (agora no Celtic), reserva de 1992 que substituía o aposentado Malpas.

No meio-campo inicial, a tenacidade de Stuart McCall (agora no Rangers) e a liderança de Gary McAllister novo capitão da equipe – eram outros dois pontos preservados em relação ao time que fora à Suécia. Mas o toque de classe na armação agora era responsabilidade de John Collins (Monaco), que atuava pela esquerda. Na estreia, o time jogou com um terceiro atacante, Kevin Gallacher (agora no Blackburn), mas já no segundo jogo o ala-esquerda Tosh McKinlay (Celtic) entrou no time, com McCall passando à direita e Collins ao centro.

Entre os novatos, havia boas opções para o setor como os armadores Eoin Jess (Coventry) e Scot Gemmill (Nottingham Forest). Já no ataque, o único titular fixo em todo o torneio seria Gordon Durie (agora no Rangers), outro remanescente de 1992. De saída, seu companheiro na frente seria Scott Booth (Aberdeen), artilheiro do time nas Eliminatórias ao lado de John Collins com quatro gols. Mas nos jogos seguintes, entrariam primeiro John Spencer (Chelsea) e mais tarde seu parceiro de ataque nos Gers e na seleção de 1992, Ally McCoist.

O grande ausente era o talentoso e temperamental atacante Duncan Ferguson (Everton), que havia sido suspenso da seleção por 12 partidas pela federação escocesa após acertar uma cabeçada em um jogador do Raith Rovers enquanto ainda defendia o Rangers, em abril de 1994. Somada a outras duas condenações anteriores, fora dos gramados, a agressão rendeu ainda a prisão do atacante por três meses no fim de 1995. Considerado titular pelo técnico Craig Brown, Ferguson seria desfalque muito sentido pelo Tartan Army.

Na fase final, a Escócia foi sorteada no Grupo A, que evocaria rivalidades e confrontos recentes. Para começo de conversa, era o mesmo grupo da anfitriã e arquirrival Inglaterra, trazendo pela primeira vez para um grande torneio internacional o duelo mais antigo do mundo entre seleções. Mas havia ainda a Suíça, com quem os escoceses haviam feito confrontos acirrados valendo pelas Eliminatórias da Euro 92 e também da Copa de 1994. Por fim, havia a Holanda, adversária da estreia na Suécia e novamente o primeiro obstáculo do Tartan Army no torneio.

Stewart McKimmie dá o carrinho sobre Jordi Cruyff (Foto: Shaun Botterill/Allsport UK/One Football)

Naquele 10 de junho em Birmingham, os holandeses começaram o jogo no Villa Park sufocando os escoceses. Andy Goram salvou uma grande chance de Clarence Seedorf, e os jogadores da Laranja ainda reclamaram de um lance em que John Collins salvou com o braço uma chance quase sobre a linha. Mas, se pouco incomodou Edwin van der Sar a não ser por duas boas ocasiões com Gary McAllister (uma delas numa bela cobrança de falta espalmada pelo goleiro), a Escócia conseguiu conter muito bem o ímpeto do adversário e saiu com o empate.

Com o também surpreendente empate em 1 a 1 entre Inglaterra e Suíça em Wembley na abertura do torneio, dois dias antes, o grupo fechava a primeira rodada com as quatro seleções somando um ponto. No dia 13, a Holanda obteve a primeira vitória ao bater os helvéticos novamente em Birmingham por 2 a 0, gols de Jordi Cruyff e Dennis Bergkamp, enquanto no dia 15 aconteceria na capital, com estádio lotado e recorde de audiência na televisão, o aguardado clássico britânico, para o qual a Escócia iria com algumas alterações táticas importantes.

Gary McAllister disputa pelo alto com Paul Ince (Foto: Getty Images / One Football)

Como, ao contrário da Holanda, a Inglaterra atuava com uma dupla de ataque centralizada, o técnico Craig Brown desmontou o 4-3-3 da estreia em favor de um esquema com três zagueiros, puxando o lateral Boyd para o centro, junto de Calderwood e Hendry. McKimmie atuaria mais solto, como ala pela direita, entrando Tosh McKinlay pelo outro lado. O trio de meias pelo centro teria McCall mais à direita, McAllister como uma espécie de pivô e Collins pela esquerda. Na frente, Durie tinha um novo companheiro: Spencer jogaria no lugar de Booth.

Num primeiro tempo equilibrado e de poucas chances, é possível dizer que os escoceses foram ligeiramente melhores. Mas no intervalo, o técnico inglês Terry Venables armou seu próprio 3-5-2 sacando o lateral Stuart Pearce para a entrada do talentoso armador Jamie Redknapp, fazendo os donos da casa crescerem no jogo na etapa final. E abririam o placar logo aos sete minutos, num cruzamento de Gary Neville que Alan Shearer escorou da segunda trave. A Escócia, porém, logo se ajustou de novo em campo e respondeu criando algumas chances.

Foram pelo menos duas ótimas chances de marcar em lances de bola parada: a primeira num tiro livre indireto dentro da área, quase na linha de fundo, depois que o goleiro David Seaman pegou com as mãos uma bola recuada por Gary Neville. No cruzamento, Hendry cabeceou para fora. E poucos minutos depois, Tony Adams derrubou Gordon Durie na área, e o árbitro apitou pênalti. Gary McAllister bateu bem, mas Seaman pulou no canto certo e defendeu com o cotovelo. Para piorar, depois de perder sua melhor chance, a Escócia seria castigada com um golaço.

Foi logo no lance seguinte: Seaman repôs a bola com um chutão e em dois passes ela chegou até Gascoigne, que deu um lindo lençol em Hendry e bateu de primeira, sem deixar cair, estufando as redes de Andy Goram. Com pouco mais de 10 minutos restando para o fim da partida, o time escocês não tinha mais forças físicas nem anímicas para reagir. De todo modo, não era o fim do mundo para o Tartan Army: o grupo ainda estava em aberto com todas as quatro seleções tendo chance de classificação. Para isso, vencer a Suíça era fundamental.

Colin Calderwood encara Stéphane Chapuisat – Foto: Getty Images / One Football

O problema, no entanto, estava no ataque, que ainda não havia balançado as redes naquela Euro e vinha demonstrando um desempenho bastante tímido desde os amistosos de preparação. Até ali naquele ano de 1996 a seleção havia marcado apenas dois gols em seis jogos. Um de McCoist e um de Durie. E seria justamente essa a dupla – que jogava junta no Rangers – a qual Craig Brown recorreria contra os suíços para tentar acabar com o jejum e buscar a vaga nas quartas pelo saldo de gols, caso a Inglaterra vencesse a Holanda no outro jogo.

A outra alteração para dar mais ofensividade à equipe era a entrada de Craig Burley na ala direita no lugar de McKimmie, que também tinha problemas físicos. E de fato a Escócia se mostrou muito perigosa pelos lados do campo. Deles saíram as duas primeiras grandes chances do jogo, ambas com McCoist, salvas em pequenos milagres de Marco Pascolo. A primeira numa cabeçada após escanteio da direita e a segunda num chute à queima-roupa, na pequena área, bloqueado pelo goleiro com a perna. Mas o atacante não demoraria muito até levar a melhor.

Aos 37 minutos, o centroavante receberia um passe de Gary McAllister e bateria forte de fora da área, no canto de Pascolo, abrindo o placar para os escoceses – que enfim balançavam as redes naquela Eurocopa. No intervalo, o resultado somado à vitória parcial dos ingleses pelo mesmo placar ainda não era o suficiente para a classificação, mas mantinha o sonho vivo. E ele ficaria ainda mais vivo na etapa final, quando a Inglaterra disparou uma goleada para cima da Holanda, marcando mais três vezes num espaço de pouco mais de dez minutos.

Aos 17 minutos do segundo tempo, quando Teddy Sheringham marcou o 4 a 0 para Inglaterra, a vaga era escocesa, que tinha déficit de um gol contra dois dos holandeses. A alegria durou 15 minutos: aos 32, Patrick Kluivert se infiltrou na área inglesa ao receber um belo passe de Dennis Bergkamp e tocou cruzado, rasteiro para diminuir a goleada. E embora o time de Craig Brown massacrasse a Suíça no segundo tempo, não conseguiu ampliar o placar. A Escócia ficou a um gol de eliminar a Holanda, lamentando muito as inúmeras chances desperdiçadas.

Após as duas classificações nos anos 1990, a Escócia bateu na trave três vezes seguidas para voltar à Euro. Nas Eliminatórias para as edições de 2000 e 2004, chegou à repescagem, mas caiu diante de duas velhas conhecidas: Inglaterra e Holanda. Na primeira, depois de ficar em segundo num grupo em que a República Tcheca se classificou com 100% de aproveitamento, a seleção perdeu em casa o jogo de ida do mata-mata para a arquirrival por 2 a 0. Até chegou a vencer a volta em Wembley por 1 a 0, gol de Don Hutchinson, mas não foi o bastante.

Na segunda foi o inverso: segunda colocada no Grupo 5 das Eliminatórias atrás da Alemanha, a Escócia derrotou a Laranja por 1 a 0 com gol de James McFadden no Hampden Park. Mas acabou trucidada com um 6 a 0 quatro dias depois na Amsterdam Arena. Já em 2008, o Tartan Army chegou perto de um grande feito: o grupo classificava os dois primeiros diretamente. Só que as vagas, aparentemente, tinham donas certas: Itália e França. Sem falar na Ucrânia, que despontava como terceira força e aparecia como mais cotada a surpreender. Mas não foi bem assim.

Dirigida por Walter Smith e tendo o Rangers como base, a Escócia fez campanha consistente e chegou a derrotar duas vezes a França, vice-campeã mundial: Gary Caldwell marcou o único gol no Hampden Park em outubro de 2006 e McFadden balançou a rede no Parque dos Príncipes em setembro do ano seguinte. E logo em seguida, a equipe venceu a Ucrânia de Andriy Shevchenko por 3 a 1 em Glasgow. Mas uma derrota em casa para a Itália por 2 a 1 no último jogo, com gol de Christian Panucci nos acréscimos pôs fim amargo ao sonho.

Nas duas tentativas seguintes, em 2012 e 2016, mais desilusão: na primeira, num grupo em que a Espanha fez campanha perfeita, a Escócia perdeu a vaga nos playoffs para a República Tcheca na última rodada. E na segunda, ficou um pouco mais longe, apenas na quarta colocação, atrás de Alemanha, Polônia e Irlanda. A classificação para a próxima edição, ainda que vinda por obra do intrincado regulamento das Eliminatórias no contexto da Liga das Nações, compensa todas as frustrações amargadas nos cinco ciclos anteriores.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.