José Mourinho não vai comer o peru de Natal como técnico do Manchester United. Nesta terça-feira, 18, o clube anunciou a saída do treinador português, que chegou em 2016 aos Red Devils com altas expectativas. O técnico, de 55 anos, foi dispensado depois de vencer 84 das suas 144 partidas no comando do clube. Foram também 32 empates e 28 derrotas, a última delas no domingo diante do rival Liverpool, em um jogo que foi muito inferior. Segundo o jornal Daily Mail, o clube terá que pagar uma multa de 22,5 milhões de libras para o treinador por romper o contrato, que ia até 2020.

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A Sky Sports informa que Michael Carrick, um dos auxiliares técnicos, assumirá os treinos, mas um novo treinador interino irá ser escolhido para dirigir o time até o fim da temporada dentro das próximas 48 horas. “Um novo treinador interino será escolhido até o fim da temporada enquanto o clube conduz um processo de recrutamento por um novo técnico”, afirma o Manchester United em comunicado. “O clube gostaria de agradecer a José por seu trabalho durante seu tempo no Manchester United e deseja a ele sucesso no futuro”, diz ainda o comunicado do United.

Simon Stone, da BBC, apurou que tanto jogadores quanto funcionários não estavam felizes com Mourinho. A decisão, segundo o repórter, foi tomada pela direção do clube pensando no longo prazo. Os últimos meses foram decepcionantes e estavam insatisfeitos que não havia progresso nem no estilo, nem nos resultados. Assim, a decisão foi que a mudança precisava ser feita. Martyn Ziegler, do Times, apurou que Mourinho foi informado que seu contrato seria rompido em uma conversa cara a cara com Ed Woodward, no centro de treinamento do clube, em Carrington.

Futebol ruim

O desempenho ruim não é exatamente uma novidade, mas incrivelmente, as coisas pioraram muito. Do primeiro ano, em 2016/17, o treinador conquistou três títulos, segundo ele mesmo: a Community Shield, que é a Supercopa da Inglaterra; a Copa da Liga Inglesa; e o mais importante deles, a Liga Europa. Se o desempenho não era encantador – e o time sequer ficou entre os quatro primeiros, terminando em quinto, ao menos foi para a Champions League.

Na temporada seguinte, 2017/18, o time foi o vice-campeão, é verdade, mas jamais foi adversário para o líder e campeão com muita antecedência, Manchester City. Mais do que isso, teve eliminações doídas, como para o Sevilla nas oitavas de final da Champions League, o que surpreendeu e certamente foi a pior de todas. Perdeu a final da Copa da Inglaterra para o Chelsea, de Antonio Conte. E caiu diante do Bristol City na Copa da Liga.

O pior início de temporada do clube em 28 anos, em termos de resultados na Premier League, pesou, mas foi só mais um motivo dado pelo técnico para a sua própria demissão. Em sexto lugar na Premier League, 19 pontos atrás do líder, Liverpool, o time tem uma campanha horrorosa para o padrão vencedor dos Red Devils. São 26 pontos em 17 jogos, um desempenho tão ruim que não acontecia desde 1990/91. O time está a 11 pontos do quarto colocado, grupo dos que se classificam para a Champions League.

Fraturas com diretoria e jogadores

Mourinho teve o seu contrato renovado até 2020 em janeiro deste ano, de forma até surpreendente, considerando o desempenho que o time já tinha. Curiosamente, foi com a diretoria do clube um dos primeiros atritos. O executivo-chefe do clube, Ed Woodward, não teria o apoiado em termos de contratações. Ele pediu jogadores de defesa, especialmente, mais especificamente ainda zagueiros centrais. Foram cotados muitos nomes, mas nenhum chegou.

As reclamações sobre a falta de contratações foram constantes, mas além disso, havia uma fratura também no vestiário. O relacionamento com a contratação mais cara da história do clube, Paul Pogba, era turbulento. Contratado por € 105 milhões junto à Juventus logo que chegou ao clube, em agosto de 2016, o jogador passou a criticar o meia já na Copa do Mundo, quando foi comentarista.

As críticas ao meia foram constantes e no final de semana, contra o Liverpool, Pogba sequer foi a campo. Ficou no banco e não foi escolhido para tentar ajudar o time, que perdia o jogo. Havia questionamentos sobre o comprometimento dos jogadores em relação ao técnico, embora o próprio Mourinho sistematicamente tenha negado isso, incluindo no último jogo.

Desempenho indefensável

As reclamações de Mourinho sobre a falta de apoio da diretoria não são infundadas, mas o trabalho do técnico se tornou indefensável. Por mais que não tenha todas as contratações que quis, ainda contratou 11 jogadores e gastou quase 400 milhões de libras, incluindo zagueiros que não funcionaram e foram indicados por ele, como Eric Bailly e Victor Lindelof, dois jogadores jovens que não conseguiram estar à altura do que se esperava de ambos.

O desempenho do time sempre ficou abaixo do que se esperava para um time do tamanho do Manchester United, mas os resultados, especialmente na primeira temporada, o seguraram. Na segunda, havia alguma desconfiança, mas o fato de ter terminado em segundo dava razões a ele, porque os resultados não eram ruins como o futebol. Nesta temporada, porém, nada funciona.

O trabalho de Mourinho é terrível com os jogadores. Alexis Sánchez é um dos exemplos. Ao ir para o Manchester United, o atacante parece ter perdido todas as suas melhores qualidades. Paul Pogba é outro que parece não render mais com o técnico, apesar de ter sido fundamental ao título mundial pela França, na Copa do Mundo da Rússia. O United se tornou um cemitério de bons jogadores e isso tem tudo a ver com o seu técnico. Há treinadores que melhoram os jogadores. Outros, como Mourinho tem sido, parecem não saber tirar futebol nem de craques consagrados como Pogba e Alexis.

O United é um time frágil defensivamente, o que é surpreendente pensando na carreira de Mourinho. É a quinta pior defesa da Premier League. O Huddersfield, 19º colocado, sofreu 28 gols. O United sofreu 29. Tem um saldo de zero, porque também marcou 29 gols. Ofensivamente, o time não consegue criar jogadas, sofre com a bola.

Em uma boa definição de Phil McNulty, editor da BBC, o Manchester United sofreu uma falência criativa diante do Liverpool, o que tem sido constante. McNulty ainda deu outra definição excelente para Mourinho no United: ele parece um capitão descontente de um navio muito infeliz. Com medo de afundar, tiraram o capitão. Resta saber de quem entrará poderá impedir que o navio fique à deriva.

A escolha do novo treinador definitivo será apenas para a próxima temporada. Até lá, a diretoria do Manchester United pretende contratar um diretor de futebol para se reportar diretamente a Ed Woodward – uma estrutura que Mourinho era contra. Com essa definição de estrutura de trabalho, será preciso pensar no estilo de jogo que o clube quer. Porque Mourinho parecia não se encaixar com os jogadores que o time tem. Um nome como Antonio Conte parece se encaixar pouco com o que se espera do Manchester United, de um time mais ofensivo. Nesse sentido, Zinedine Zidane parece se encaixar melhor: administra bem as estrelas e tem um estilo de jogo um pouco mais ofensivo. Duas características criticadas em Mourinho.