Sheffield é um dos berços do futebol na Inglaterra. O primeiro clube dedicado exclusivamente à modalidade nasceu na cidade, o Sheffield FC, seis anos antes que as regras do jogo fossem unificadas. Por lá também surgiu o primeiro clássico da história, contra o Hallam FC, outro representante local. E se os dois “dinossauros” permanecem restritos ao amadorismo, o profissionalismo floresceu com duas agremiações históricas: United e Wednesday, antigos vencedores da Copa da Inglaterra e do Campeonato Inglês. A relevância do esporte local não se manteve como era na virada do Século XIX. Ainda assim, a cidade permanece como um polo tradicionalíssimo e apaixonado pela bola. Algo que floresce novamente nesta semana, com o retorno do Sheffield United à Premier League – um time estrelado não apenas por ídolos locais, mas também por dois caras que conhecem profundamente a torcida e a cidade. O técnico Chris Wilder e o artilheiro / camisa 10 / capitão Billy Sharp são as faces principais da epopeia, também torcedores que possibilitaram o acesso.

Em seus primórdios, o Sheffield United ascendeu rapidamente nas estruturas do Campeonato Inglês. Durante oito temporadas na liga, saiu da terceira divisão ao título nacional em 1897. Foram seus anos mais competitivos, emendando também duas vitórias na Copa da Inglaterra pouco depois. As participações na elite se mantiveram constantes até a década de 1930, quando a torcida começou a se acostumar com a gangorra entre a primeira e a segunda divisão. As Blades chegaram ao fundo do poço na quarta divisão em 1982, mas se recuperaram a tempo de fazer parte da edição inaugural da Premier League em 1992/93. Desde então, essa alternância entre os dois primeiros níveis persistia, até que a última década fosse especialmente dura em Bramall Lane.

Após figurar por uma temporada na Premier League, em 2005/06, o Sheffield United passou quatro anos consecutivos na Championship. Flertava com os playoffs, antes de ser atingido em cheio pela crise e a penúltima colocação culminasse no rebaixamento em 2010/11. Pela primeira vez em mais de duas décadas, as Blades retornavam à terceirona. Naturalmente, eram candidatos a subir, mas insistiam em bater na trave. De 2011/12 a 2014/15, foram três aparições nos playoffs, sem alcançar a promoção. As esperanças se diluíram após o 11° lugar em 2015/16. Só então é que história começou a ser reescrita. O United conquistou o acesso na League One 2016/17 com uma campanha memorável. Não apenas ergueu o título, como também atingiu os 100 pontos. Apresentou um ataque arrasador e emendou uma excelente sequência de resultados, que superou o início errático da temporada.

O Sheffield United havia trocado seu técnico justamente para aquela edição da League One. Nascido na cidade, Chris Wilder conhecia muito bem os atalhos de Bramall Lane, cria do clube e presente na ascensão até os primórdios da Premier League. Vinha de trabalhos respeitáveis nas divisões de acesso, ao conquistar a promoção na Conference, com o Oxford United, e depois na League Two, à frente do Northampton Town. Já o retorno às Blades marcava não apenas um reencontro com seu próprio passado, mas a chance de exibir seus predicados. Apesar das dificuldades iniciais, logo emplacou como um dos melhores treinadores da Football League. O futebol intenso e sempre em busca das vitórias ressalta sua mentalidade. Além disso, a paixão contagiante em seus gestos à beira do campo e os discursos motivacionais estreitaram sua relação com os torcedores.

Durante a temporada passada, o Sheffield United mostrou que o sucesso não era ao acaso. As Blades mantiveram seu elenco e trouxeram reforços pontuais. Chris Wilder, em especial, continuou no comando. E, que tenha sofrido uma queda abrupta no segundo turno, chegou a flertar com a promoção durante a primeira metade da Championship. Os tricolores ficaram quatro rodadas na zona de acesso direto e outras 19 nas posições destinadas aos playoffs. A seca de vitórias durante a reta final culminaria no 11° lugar, mas já sinalizando que o time não seria mero figurante na segundona. Assimilando as lições e reforçando o trabalho, dava para sonhar com mais.

A pré-temporada guardou seus problemas. Os dois principais acionistas do clube entraram em uma disputa judicial e Chris Wilder ameaçou deixar Bramall Lane, em meio ao imbróglio. O treinador seria demovido da ideia, mas mesmo assim teve um orçamento bem abaixo de seus concorrentes para o mercado. O Sheffield United fez pouquíssimos gastos, perdeu jogadores pontuais e precisava confiar na base que vencera a League One. A pré-temporada guardou bons resultados. E ainda que o time tenha sofrido duas derrotas nas duas primeiras rodadas da Championship, indo parar na lanterna, não passou de um breve susto antes de se impulsionar. Em setembro, já tinha alcançado a zona dos playoffs, emendando quatro vitórias. Rondaria as primeiras colocações ao longo da campanha. As oscilações dificultavam acompanhar o ritmo de Norwich e Leeds, mas as Blades estavam sempre nos arredores do acesso direto. Até que a situação realmente engrenasse a partir do Boxing Day.

Num movimento contrário ao que ocorrera em 2017/18, o Sheffield United emendou bons resultados a partir de janeiro, quando também recebeu reforços. Sofreu apenas duas derrotas em todo o returno. E, no instante em que o Leeds de Marcelo Bielsa perdeu o seu fôlego, os comandados de Chris Wilder estavam à espreita. A vitória no confronto direto em Elland Road pode ser considerada um divisor de águas. As Blades foram bem mais consistentes nesta reta final, firmando-se na zona do acesso direto a quatro rodadas do fim. Prêmio comemorado neste final de semana, com a confirmação da façanha. Depois da vitória sobre o Ipswich no sábado, os tricolores comemoraram o retorno à Premier League no domingo, diante do tropeço do Leeds contra o Aston Villa. Ainda que seja difícil tirar o título do Norwich, três pontos à frente a um jogo do fim, a missão em Sheffield já está cumprida.

Wilder não abdicou do seu estilo na Championship – definido como por analistas “o caos organizado”, pelo dinamismo nas transições e pelas trocas de posições. O Sheffield United permanece como uma equipe de cunho ofensivo, mas também equilibrada. Dono do quarto melhor ataque, possui a melhor defesa, com média inferior a um gol sofrido por partida. A proposta de jogo, atuando no campo adversário e explorando bastante os flancos, é determinante ao impacto causado pelas Blades. Renderam o segundo acesso em três anos.

Após o feito, Wilder destacou a mudança de mentalidade que empreendeu em Bramall Lane: “Não se trata apenas de encorpar o elenco e contratar mais jogadores. É preciso unir um time, ter organização, espírito coletivo, ética de trabalho e taticamente atuar de uma maneira que garanta os resultados. Sofremos para sair da League One. Tivemos que nos reconectar com os torcedores e encontrar um estilo de jogo. Queríamos levar isso para a Championship. Não mudamos nossa forma. Nós nos demos uma oportunidade de ganhar cada duelo pelo caráter e pela atitude dos jogadores. Cinco ou seis atletas que começaram a jornada na League One estarão na Premier League. Contra cada adversário, vamos para cima e exibimos as suas fraquezas, assim como as nossas forças”.

Dentro de campo, há uma base tarimbada nas divisões de acesso e outros que buscam fazer seu nome. O goleiro Dean Henderson veio emprestado do Manchester United. Na defesa, Jack O’Connell e Chris Basham faziam parte do grupo desde a League One, ganhando o reforço de nomes como John Egan e Enda Stevens. O entrosamento foi muito importante para o funcionamento do setor, geralmente formatado no 3-5-2, com a movimentação constante e as subidas também dos zagueiros no apoio. No meio-campo, Oliver Norwood chegou em alta do Fulham e se provou um especialista na Championship, essencial à criação. Esteve bem acompanhado principalmente por John Fleck e Mark Duffy. Já no ataque, se David McGoldrick precisou de pouco tempo para contribuir com gols, ele ainda foi um coadjuvante a Billy Sharp, cada vez mais na história de Bramall Lane.

Sharp merece um destaque à parte. O camisa 10 surgiu nas categorias de base do Sheffield United, embora não tenha permanecido por tanto tempo entre os profissionais. Voltou de novo no final da década passada, antes de acumular mais experiência em clubes das divisões de acesso. O retorno definitivo aconteceu em 2015. Além da rodagem, também possuía uma história de vida dolorosa, que incluía a perda de um filho recém-nascido. Desde então, o atacante se transformou na liderança, no exemplo e na fome por jogar. Viveu uma temporada espetacular no acesso à Championship, autor de 30 gols em 46 partidas pela League One. E o capitão, nascido na cidade e torcedor do clube desde a infância, empurrou o sonho rumo à Premier League. Foram mais 23 gols nesta segundona, imparável na guinada durante o returno. Reafirma o seu posto como ídolo absoluto dos tricolores, eleito também para a seleção do campeonato.

Os números de Billy Sharp impressionam. Ele soma 227 gols na Football League, 95 apenas com a camisa do Sheffield United, e se tornou o maior artilheiro das divisões de acesso neste século. De qualquer maneira, não recusa a oportunidade de jogar a Premier League. Anteriormente, disputou dois míseros jogos em sua passagem pelo Southampton. Aos 33 anos, terá nova oportunidade, e logo com sua equipe do coração. “Estava desapontado quando deixei o clube na segunda passagem, mas fico feliz por ter voltado e só quero aproveitar a jornada com o resto dos rapazes. Conseguir o primeiro acesso com o meu time de infância foi algo bacana, mas repetir a sensação e alcançar a Premier League é incrível. Vou aproveitar cada instante agora”, afirmou.

Até pelo crescimento abrupto, o Sheffield United sabe que sua permanência na Premier League necessita de cuidados redobrados. Que o sucesso seja inegável durante o ciclo de Chris Wilder, tal estirão também deixa o elenco com vários jogadores que nunca disputaram a Premier League. A principal dificuldade será reforçar o grupo sem perder as características e sem abrir mão de atletas importantes. Além do mais, a disputa judicial entre os acionistas majoritários continua rolando e pode colocar os planos em xeque. Chris Wilder, ao menos, parece motivado a seguir em frente e aponta o trabalho realizado pelo Bournemouth como um exemplo a se observar, após uma sequência parecida de promoções. O treinador já demonstrou o seu talento e o seu conhecimento sobre o que acontece em Bramall Lane é capaz de elevar as expectativas. Não há ninguém melhor para a torcida confiar além do atual comandante. Afinal, sem ele, talvez a amargura na League One persistisse até hoje. O veterano foi o principal responsável por permitir às Blades pensarem grande novamente e se recolocarem na elite do futebol inglês. Com a companhia providencial de Billy Sharp, os dois mudaram o curso da história.