Longe dos salários milionários, da badalação e do estrelato, a Série D começou, no último fim de semana, com uma história que representa bem as dificuldades pelas quais os clubes menores do país passam na tentativa de subir os degraus do futebol brasileiro. O Atlético Pernambucano precisou pedir um ônibus escolar emprestado à prefeitura da cidade de Carpina, da Zona da Mata Norte do estado, para conseguir chegar à partida válida pela primeira rodada, contra o Campinense, depois que o seu próprio ônibus quebrou no trajeto para buscar os atletas no centro de treinamentos. Os jogadores chegaram ao estádio 30 minutos atrasados e entraram imediatamente em campo, ainda frios. O primeiro tempo terminou 3 a 1 para os paraibanos, mas o Atlético-PE conseguiu buscar a virada e acabou vencendo, por 4 a 3, com um gol aos 48 minutos do segundo tempo.

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O Atlético Pernambucano foi fundado em 2006, com a proposta de trabalhar as categorias de base e formar jogadores. Acomoda aspirantes da sua região e tem a filosofia de fazer poucas contratações, a não ser que identifique atletas com o perfil do clube, jovens que podem ser desenvolvidos para o futuro. O goleiro Juca é de Limoeiro. O atacante Wellington, de São Lourenço da Mata. Em 2015, fez uma ótima campanha no Pernambucano sub-20: na primeira fase, venceu o Náutico, por 2 a 1, e liderou o seu grupo; na segunda, bateu o Santa Cruz, também por 2 a 1, e se classificou à semifinal, na qual encarou o Sport. Depois de empatar por 1 a 1, em casa, acabou derrotado por 4 a 0 na Ilha do Retiro. Anos antes, em 2010, disputou sua única Copa São Paulo de Juniores e foi lanterna do grupo que tinha Inter de Limeira, Mogi Mirim e Internacional, com duas derrotas e um empate.

A equipe subiu em 2014 para a primeira divisão do Campeonato Pernambucano como vice-campeão do Vera Cruz e fez duas sólidas campanhas. Ano passado, inclusive, terminou o Hexagonal da Permanência na liderança, garantindo o título simbólico de Campeão do Interior. Tanto destaque prejudicou as chances para a atual edição. Alguns jogadores receberam propostas de torneios com mais visibilidade, e o clube aceitou emprestá-los. Acontece que as equipes menores da elite de Pernambuco disputam um primeiro turno no qual apenas dois times classificam-se para o Hexagonal do Título, momento em que os grandes entram na competição. O restante disputa o Hexagonal da Permanência, ainda às escuras e sem grande repercussão. O meia Tarcísio, capitão da equipe, foi emprestado ao Botafogo da Paraíba, por exemplo.

“Fomos campeões do interior com uma equipe só da casa, todos os jogadores formados no Atlético”, afirma o presidente Lucas Lisboa à Trivela. “Este ano, emprestamos os principais jogadores porque havia equipes interessadas em nossos atletas em estaduais com mais visibilidade. Nossa proposta é pensar primeiramente nos atletas. Disputamos o Pernambucano com uma equipe praticamente sub-20, dois ou três tinham mais de 20 anos”. Resultado: 16 jogos pelo Pernambucano e nenhuma vitória. O Atlético-PE foi lanterna do seu grupo, na primeira fase, com três empates e três derrotas, e perdeu todas as dez rodadas do Hexagonal da Pernanência. A permanência, portanto, não foi possível, e o clube voltou para a segunda divisão. “Claro que toda equipe quer resultados, nós também, mas o principal é que possamos ver que os atletas estão amadurecendo e criando condições de se tornarem profissionais. De certa forma, foi importante para eles disputarem uma competição profissional e amadurecerem”, acrescenta Lisboa.

A Série D não estava no horizonte. A vaga era do Serra Talhada, que foi terceiro colocado da primeira fase do ano passado. Mas o clube, rebaixado na atual edição do Pernambucano junto com o Atlético-PE, alegou não ter condições financeiras para disputar a quarta divisão e abriu mão do seu direito. Logo, o classificado foi o Tatu-Bola – mascote do clube -, quarto colocado dessa mesma fase. Não foi uma decisão imediata. A direção precisou discutir entre si e com os jogadores se disputaria um torneio majoritariamente deficitário. “Explicamos para os atletas que a situação era difícil. Precisaríamos ter uma folha (salarial) muito enxuta mesmo. E todos os atletas aceitaram, e colocamos a equipe na competição”, conta Lisboa. Alguns jogadores acataram até mesmo uma redução salarial para jogar a Série D, em troca de um contrato por produtividade. “Mantivemos alguns (salários) e outros tivemos que dar uma diminuída e pensar em uma forma de incentivar o atleta. Como temos um orçamento muito curto, tivemos que distribuir da melhor forma. Combinamos um valor base e recebimentos por produtividade, de acordo com as partidas que jogarem, uma coisa extra”, explica.

Muitos jogadores já haviam entrado de férias, depois da disputa do Pernambucano, e voltariam para treinar com a equipe sub-20 ou para serem emprestados. Diante do novo desafio, o clube fez algumas contratações para reforçar o elenco. “Disputamos o Pernambucano com uma equipe muito, muito jovem, que ainda não estava pronta para uma competição como a Série D. Tivemos que contratar alguns jogadores para posições bem pontuais.”, afirma o presidente. “É um time muito bom, muito jovem, muito rápido”. Às vésperas da estreia, outro problema: o estádio Paulo Petribu, onde o Tatu-Bola manda suas partidas, não recebeu os laudos da Polícia Militar a tempo da primeira rodada contra o Campinense, que foi disputada com portões fechados. Lisboa acredita que a situação será resolvida em breve. “Eles (a PM) foram lá fazer a vistoria (nesta segunda-feira). Já tinham feito, mas fizeram algumas exigências, resolvemos essas exigências e eles voltaram lá para vistoriar de novo”, diz.

Em condições normais, o Atlético Pernambucano já seria azarão contra o Campinense – os outros times do grupo são o baiano Fluminense de Feira e o sergipano Itabaiana -, que vem de dois títulos estaduais em três anos, foi campeão da Copa do Nordeste de 2013, finalista do ano passado e quase eliminou o Sport na atual edição, sendo derrotado apenas na disputa de pênaltis das quartas de final. Imagina chegando em cima da hora, sem uma preparação adequada? Antes das partidas, os jogadores reúnem-se no Centro de Treinamentos que fica no bairro de Gameleira, na área rural de Carpina, a 20 minutos do estádio Paulo Petribu. O trajeto é geralmente realizado com um ônibus do clube. Exceto quando esse ônibus quebra. “Os atletas ficam lá porque tem alojamento. O ônibus fica em uma garagem de Carpina mesmo”, conta Lisboa. “Eu estava no estádio, cheguei duas horas antes para resolver as coisas e começou a atrasar. O capitão da equipe ligou para mim e disse que o ônibus nem tinha chegado ao CT. Conseguimos o contato do motorista, e ele disse que não estava conseguindo consertar. Era domingo, não dava para conseguir outro ônibus em cima da hora”.

O Atlético Pernambucano precisou contar com a ajuda da prefeitura de Carpina. Conversaram com o secretário de Transportes da cidade e conseguiram um ônibus escolar para levar os jogadores ao estádio. “Sorte que era domingo. Se fosse dia de semana, provavelmente não daria”, diz Lisboa. Enquanto isso, no estádio, o Campinense entrava em campo, e o hino nacional era tocado integralmente, sem o Atlético em campo. “Como já tinha dado o horário da partida, eles tiveram que chegar ao estádio já prontos para jogar. Fizeram o alongamento no ônibus”, acrescenta. “Tivemos esse medo (de WO) porque, se não conseguíssemos outro ônibus, não sabíamos o que fazer. Teríamos que mandar muitos carros. Tem um tempo para a equipe chegar, mesmo que seja por motivos de força maior. Fiquei com receio que a equipe não chegasse a tempo”. Segundo o Regulamento Geral de Competições da CBF, o árbitro pode esperar até 30 minutos antes de decretar o WO. O Atlético chegou ao estádio com 30 minutos de atraso.

O técnico da equipe é Gabriel Lisboa. O sobrenome não é coincidência: trata-se do irmão do presidente Lucas. Gabriel treinou a equipe na ótima campanha do Pernambucano do ano passado e havia assumido as funções de coordenador técnico este ano, até ser convocado novamente para o trabalho de campo na disputa da quarta divisão. “Ele está na iminência de aparecer no cenário nacional. Foi estudar no Japão, na Espanha, já acompanhou o Celso Roth no Internacional”, elogia o fraternal dirigente do Tatu-Bola. “Ele colocou a equipe bem fechadinha para poder aquecer no começo da partida. A equipe entrou travada em campo, e o Campinense sufocou no início, teve muito mais posse de bola e volume de jogo”.

Mesmo assim, foi o Atlético quem abriu o placar, aos 31 minutos do primeiro tempo, com o atacante Cajá, aparecendo muito bem na segunda trave. O Campinense empatou com, Augusto, de cabeça, e Reinaldo Alagoano, completando cruzamento da esquerda e comemorando ao estilo de Cristiano Ronaldo. Antes do intervalo, Maranhão disparou em contra-ataque e, da intermediária, encobriu o goleiro Juca com muita categoria. Sem a menor inclinação para desistir, Cesinha diminuiu, no começo da etapa final, e o placar seguiu 3 a 2 para o Campinense, até os 38 minutos, quando Wellington aproveitou uma saída em falso do goleiro Glédson para empatar. O pontinho já seria precioso no primeiro jogo da primeira competição nacional da história do Atlético Pernambucano, mas o camisa 9 do Tatu-Bola voltou às redes, aos 48 minutos: recebeu de Cajá, na entrada da área, cortou para a perna direita e bateu com força.

Depois do jogo, o herói atleticano foi, talvez, um pouco sincero demais. “A gente era um forte candidato a saco de pancadas do grupo, mas, com muito trabalho e fé, conseguimos a vitória”, disse, segundo o Jornal do Commercio. “Ele quis dizer que os comentários eram que o Atlético seria saco de pancada. Escutamos muito. Falaram que, desse grupo, só três brigariam para se classificar”, explica Lisboa. “Pelo nosso planejamento, essa era a equipe mais forte. Todo ano brigam pelo acesso. Sabíamos que seria um resultado importante se conseguíssemos essa vitória. Ela nos dá muita motivação para brigar pela classificação. Somos a equipe com mais dificuldade para se classificar, mas acho que podemos surpreender”. O próximo desafio do Atlético Pernambucano será o Fluminense de Feira, fora de casa, nesta quarta-feira. O resultado incrível contra o Campinense permite que o pequeno clube do interior de Pernambuco sonhe com a classificação, depois de uma estreia muito melhor e muito mais movimentada do que qualquer um poderia imaginar.