A Nicarágua possui um dos currículos mais vazios entre as seleções da América Central. Até vexatório comparar com os vizinhos. Costa Rica virou figurinha carimbada em Copas do Mundo. Honduras e El Salvador também possuem suas aparições no torneio. Panamá vem crescendo e talvez seja um dos principais candidatos a estrear nas próximas edições do Mundial. Guatemala costuma bater cartão na Copa Ouro. E até Belize, o concorrente para ver quem é o pior time local, possuía uma aparição mais recente na competição continental, em 2013. Por isso mesmo, a classificação para a Copa Ouro de 2017 foi tão comemorada pelos nicaraguenses. Além da virada fantástica contra o Haiti, os Pinoleros sentiram o gosto de aparecer outra vez na elite do futebol da Concacaf.

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Dos sete países da América Central, a Nicarágua é o único que nunca chegou sequer entre os quatro primeiros colocados doa Copa Centroamericana, torneio que serve de qualificatório à Copa Ouro. Na edição deste ano, disputada em janeiro, ao menos os nicaraguenses venceram um de seus cinco jogos, contra Belize. O triunfo já valeu uma vaga na repescagem ao principal torneio de seleções de Concacaf. Mas teriam uma pedreira pela frente, considerando os sucessos recentes do Haiti.

No primeiro jogo, deu a lógica. Os haitianos venceram por 3 a 1 em Porto Príncipe. Os nicaraguenses só conseguiram descontar aos 41 do segundo tempo, com Carlos Chavarría. Tento que acabaria sendo precioso para o reencontro em Manágua. Cerca de 11 mil fanáticos se reuniram nas arquibancadas do Estádio Nacional, ainda acreditando. E o milagre veio a partir dos 37 do segundo tempo. Personificou-se no meia Juan Barrera, capitão e craque do time, que atua no guatemalteco Comunicaciones. O camisa 11 abriu o placar cobrando pênalti. Empolgou ainda mais a torcida aos 41, desviando de cabeça um lançamento longo. Já aos 43, não houve o que impedisse a euforia: depois de outro balão e um erro da zaga haitiana, o meia partiu livre para fuzilar. Anotou os 3 a 0 no placar, suficientes para a ‘remontada’ que parecia impossível.

Desde 2009, Juan Barrera atende por um apelido: El Iluminado. E a alcunha parece ter casado perfeitamente com a predestinação do jogador. Naquela ocasião, aos 19 anos, o meia deu o passe para que Samuel Wilson ratificasse a vitória por 2 a 0 sobre a Guatemala, que valeu a classificação inédita da Nicarágua à Copa Ouro. Antes disso, o país só havia participado do antigo formato da competição, por duas vezes, a última delas em 1967. O jovem surgia como uma promessa de tempos felizes aos Pinoleros. Sensação reafirmada de maneira emocionante nesta terça.

Nos minutos finais, o Haiti pressionou demais em busca do gol que forçaria a prorrogação. Os nicaraguenses se seguraram. E, ao apito final, ninguém pôde conter os torcedores, que invadiram o campo para celebrar os seus heróis. El Iluminado Barrera saiu carregado nos braços do povo, em uma alegria expressa em cada rosto. Cenas que ficarão gravadas na memória coletiva da pequena nação. Os sucessos podem ser raros, mas, quando acontecem, vêm de um jeito retumbante.