Menos de uma semana depois da tragédia no Ninho do Urubu, o Flamengo voltou a campo. O “Flamengo com CNPJ” ainda tem muitas questões a responder sobre a morte daqueles 10 garotos. No entanto, há também um “Flamengo popular” que existe além das pessoas que vêm e vão dentro do clube. É o Flamengo que realmente sente, que chora a perda de seus meninos e que deseja o mais profundo respeito às vítimas, da mesma maneira como espera a justiça sobre o caso. É esse o Flamengo que os familiares e amigos seguiram relembrando, mesmo quando enterravam seus filhos queridos. É esse o Flamengo que significa pertencimento e identidade de gente que não tem a ver com as possíveis negligências, mas que representa uma massa popular e justamente ocupava os sonhos daqueles jogadores da base. É esse o Flamengo que, sobretudo, homenageou e tem o dever de sempre lembrar daqueles que perderam a vida em meio aos tais sonhos. Os tributos prevaleceram nesta quinta-feira de Maracanã, antes da semifinal da Taça Guanabara contra o Fluminense.

Existiram ações do “Flamengo com CNPJ”, que também representam o imaginário do “Flamengo popular”. E acaba sendo natural discutir responsabilidades e pertinências, principalmente em um momento de mais interrogações do que certezas. Mas o Maracanã foi principalmente daqueles que também se colocam no lugar dos garotos e de seus familiares, que desejam força para diminuírem o vazio insuperável, que se solidarizam em meio a tristeza imensa. Um Flamengo espontâneo e que realizou bem mais numerosas homenagens ao longo da noite.

Em cada pedaço do Maracanã, surgiu uma lembrança aos dez meninos. Uma camiseta, um cartaz, uma fita de luto. Sentimentos. Antes que o jogo começasse, um vídeo relembrando a história das promessas foi exibido no telão e aflorou as emoções. Nas arquibancadas, balões brancos ganhavam as mãos dos presentes, enquanto ecoava a versão especial de “Azul da Cor do Mar” composta por Dudu Nobre e Bruno Cardoso para relembrar as vítimas. E o próprio Fluminense tomou sua atitude, entrando em campo com camisas brancas, que traziam o nome dos garotos. O mesmo aconteceu com os jogadores rubro-negros, em seus uniformes de jogo.

Antes que a bola rolasse, os dois times se abraçaram no centro do gramado e respeitaram um minuto de silêncio, também pelo jornalista (e flamenguista) Ricardo Boechat. Ainda assim, o clima do jogo seria tomado pelos tributos. Aos dez minutos, referência clara, os versos da nova canção do Flamengo ecoaram mais forte. “Ah, como eu queria ter vocês aqui / Honrando o manto do Mengão / Com raça e paixão / Mas essa Nação jamais vai esquecer / O Flamengo vai jogar / Pra sempre por vocês / Ô ole olê olê olê olê / São 10 estrelas a brilhar / No céu do meu Mengão”, dizia a letra. No intervalo, ainda houve um agradecimento aos clubes que homenagearam os garotos, com menção especial ao Vasco. Já os camarotes ficaram reservados às pessoas que ajudaram no resgate das vítimas. Em um deles estava Cauan Emanuel, um dos adolescentes que precisou ser hospitalizado e recebeu alta. Não conteve as lágrimas.

Ao final, dentro de campo, o Fluminense saiu vitorioso. Os tricolores conseguiram impor suas ideias de jogo sobre o Flamengo, com o bom toque de bola e a marcação por pressão prevalecendo. Apesar do elenco bem mais estrelado, os rubro-negros se limitaram aos contragolpes e às bolas paradas, desperdiçando algumas boas chances. Melhor aos tricolores, superiores durante boa parte do tempo, embora só tenham comemorado a vitória por 1 a 0 nos acréscimos da etapa final. Após uma bola perdida por De Arrascaeta no campo de defesa, o Flu emendou uma rápida troca de passes e Luciano aproveitou o posicionamento ruim de Diego Alves. O time de Fernando Diniz medirá forças contra o Vasco na final.

E em meio à realidade que não se aplaca, o futebol pode até distrair o pensamento, mas não cura as feridas expostas neste “Flamengo popular”. Há um motivo para sempre jogar, há um motivo para sempre cantar, há um motivo para sempre batalhar. São tempos de luto e de luta. O reerguimento dos familiares das vítimas e dessa identidade rubro-negra dependerá do tratamento justo ao que aconteceu, pagando as devidas indenizações e prestando contas às autoridades. A necessidade de encarar as próprias falhas e honrar o sonho dos meninos é cotidiano. São os flamenguistas que puxam este coro.