Trent Alexander-Arnold cresceu em West Derby, subúrbio de Liverpool onde fica o centro de treinamentos de Melwood. Quando era mais jovem, aproveitava um buraco nos muros para observar os treinos do seu ídolo Steven Gerrard, sonhando como todo bom scouse, apelido de quem nasceu na região, em ser herói de um dos grandes clubes da cidade. Ainda tem muita água para rolar na carreira do lateral direito de 20 anos, mas nunca alguém esquecerá sua cobrança de escanteio na vitória por 4 a 0 sobre o Barcelona, nesta terça-feira, que colocou os Reds na final da Champions League.

Muito do apelo de Steven Gerrard com a torcida dos Reds era a sua identificação não apenas com o clube quanto com a cidade. Nasceu em Liverpool, cresceu em Liverpool. Havia compartilhado da dor da perda de 96 conterrâneos no desastre de Hillsborough com a morte do seu primo em Sheffield. Era inspiração para jovens apaixonados por futebol e pelo clube. Mostrava que chegar ao ápice do futebol era possível para pessoas com as mesmas raízes que ele.

Entre essas pessoas, Alexander-Arnold que, como Gerrard queria ser John Barnes, queria ser Gerrard e espera que no futuro jovens liverpuldianos queiram ser ele. “Eu tenho sorte de jogar pelo meu clube de coração e por conseguir ver esse sonho se tornar verdade”, disse, em entrevista ao Liverpool Echo, ano passado. “Espero que os os jovens na cidade vejam isso também. Eu vi Gerrard e Carragher chegarem lá quando era jovem. Eu sempre quis ser eles. O objetivo é que mais jovens scousers subam das categorias de base e façam o mesmo”.

Essa história é antiga no Liverpool. Nomes importantes da história do clube nasceram nos arredores da cidade e realizaram o sonho de defender a camisa vermelha. Mais de uma vez: Chris Lawler fez 549 jogos; Tommy Smith, 638; Ian Callaghan, nada menos do que 857. Quando Gerrard saiu para o Los Angeles Galaxy, ficou um vácuo no elenco de jogadores nascidos na cidade.

Alexander-Arnold chegou ao clube aos seis anos, foi gandula de um jogo da Copa da Liga em 2009 e começou a preenchê-lo quando estreou, em 2016, um ano depois da saída de Gerrard. Apareceu mais vezes na temporada seguinte, e, na atual, firmou-se como uma das peças mais importantes do time. Sua ausência foi sentida no jogo de ida contra o Barcelona, poupado, segundo Klopp, pela maratona de jogos, porque tem participação decisiva no setor ofensivo. São 11 assistências na Premier League e, agora, quatro na Champions League, depois de criar a jogada de dois gols da classificação miraculosa do Liverpool.

Mais importantes do que números, é a cena marcante que entrará para a história sempre associada ao seu nome. O Liverpool havia empatado o confronto em 3 a 3, com direito a uma assistência de Arnold para o segundo gol, depois de roubar a bola de Alba no campo de ataque, quando teve um escanteio pela direita. Arnold colocou a bola no lugar certo e começou a se afastar. Quem estava cobrando bolas paradas era Shaqiri. De repente, ele mudou de ideia e bateu rasteiro, direto para Origi, na entrada da pequena área. O belga completou e fez o gol da classificação do Liverpool.

Um lance de genialidade. De pensamento rápido. De alguém especial. “Foi instinto. Um daqueles momentos em que você vê a oportunidade. A bola saiu forte, mas o Origi é um grande jogador. Foi um daqueles dias que todos se lembrarão”, afirmou, ainda no gramado de Anfield. Ele foi, aliás, o último jogador do Liverpool a sair de campo, segundo relato do Liverpool Echo. Quis compartilhar um pouco mais aquele momento com a sua gente.

No vídeo da comemoração dos vestiários publicado pelo clube, aparece mais emocionado do que feliz. Depois de dar uma risada, abaixa a cabeça, encosta-a na mão e respira fundo, quase aliviado. Fica um tempo olhando para o chão, com cara de incredulidade. As lágrimas parecem prontas a sair, por mais que ele tente segurá-las. Leva o escudo à boca e o beija.

A emoção não apenas de quem foi o herói de uma classificação épica à final da Champions League, mas de quem começou a perceber que o sonho de ser um ídolo do seu clube de coração começou a ser realizado. Sabe que, para sempre, quando for à padaria, ou a um restaurante, ou ao barbeiro, ouvirá de seus conterrâneos onde estavam quando ele bateu aquele escanteio. O que fizeram, como comemoraram. E se há alguma coisa que uma criança apaixonada por futebol sonha é com isso.

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