A Juventus nem quis esperar muito para anunciar um rompimento até imaginado por aquilo que se viu na temporada: Maurizio Sarri não continuará como treinador do clube. Apesar do nono título consecutivo na Serie A, a Velha Senhora estava distante de apresentar um futebol convincente. Mais do que isso, pesou bastante a eliminação nas oitavas de final da Champions League, em que os bianconeri encontraram muitas dificuldades para a romper a defesa de um time acertado, mas inferior, como o Lyon. Ao final, o que parecia de início uma aposta interessante para o clube se encerra como uma relação frustrada.

“A Juventus Football Club anuncia que Maurizio Sarri foi dispensado de seu cargo no primeiro time. O clube gostaria de agradecer ao treinador por ter escrito uma nova página na história da Juventus, com a vitória do nono campeonato consecutivo, a culminação de uma jornada pessoal que o levou a escalar todas as divisões do futebol italiano”, escreveu a Juve, em fria nota oficial.

O final antecipado do contrato de Sarri, no fim das contas, se assemelha ao que aconteceu durante a passagem do italiano pelo Chelsea. Desembarcou com enormes expectativas, mas, independentemente das conquistas, teve o seu trabalho avaliado de maneira negativa. O futebol vistoso prometido não se notou e, nas duas oportunidades, acabou prevalecendo uma equipe previsível. As taças levantadas acabaram não sendo suficientes para conter a frustração – até por alguns atritos envolvendo Sarri.

Não dá para colocar a culpa apenas no treinador. Como analisamos já nesta sexta, após a eliminação da Juventus na Champions, há um problema na montagem do elenco e na maneira como a diretoria traçou a estratégia no mercado de transferências. Sarri não conseguiu encaixar seu estilo de jogo com as peças à disposição e, especialmente no final do trabalho, se tornou bastante dependente da qualidade individual de alguns jogadores. Ao contrário do que poderia ocorrer, a Velha Senhora preferiu não garanti-lo por mais um ano, até que o treinador tentasse imprimir melhor a sua marca.

A saída de Sarri acelera as palavras do presidente Andrea Agnelli após o jogo contra o Lyon: “Essa temporada foi evidentemente agridoce. Disse várias vezes nos últimos anos que a Champions era um sonho, agora precisa ser um objetivo. Sair assim decepciona. Levaremos os próximos dias para avaliar e decidir como seguiremos à próxima temporada. Uma análise completa da temporada precisa ser feita por todos no clube. Precisamos avaliar como redescobrir o entusiasmo, que precisamos para começar o ano com fome de jogar e de ganhar todas as partidas. Será uma análise total. Foi um ano difícil, com muitas mudanças no staff, então essas dinâmicas e formas de entender cada um precisam ser criadas”.

Parece bem mais fácil mudar quem está no comando do que reformular o elenco de maneira mais profunda para abraçar o estilo de Sarri. E não era uma certeza de que ele conseguiria fazer tal encaixe, considerando o nível médio da Velha Senhora nesta temporada. O time por muitas vezes pareceu remendado. O meio-campo, chave em qualquer trabalho do treinador, não encontrava uma dupla realmente funcional. A dependência de Paulo Dybala e Cristiano Ronaldo no ataque se tornou maior. A revolução prometida nunca deu as caras.

Além do mais, a própria personalidade de Sarri costuma ser uma questão. O treinador não é uma pessoa tão fácil de lidar, como já tinha ficado evidente em outras passagens de sua carreira. Pela fala de Agnelli, o diálogo seria primordial nesta reformulação. Assim, os juventinos preferiram dispensá-lo de seus serviços e precisarão pagar caro por isso. Os salários restantes do contrato até junho de 2022 têm um custo estimado de €20 milhões, incluindo impostos. É o caminho mais curto para lidar com o baixo rendimento, por mais que não seja a única mudança que se faz necessária.

Segundo a Sky Italia, a limpa poderia ser mais ampla e quem também estaria na mira seria Fabio Paratici, chefe do departamento de futebol. O dirigente é tratado como um dos responsáveis pelo insucesso no projeto do treinador, especialmente ao influenciar a saída de Maximiliano Allegri e também ao não providenciar um elenco adequado à proposta de Sarri. Entretanto, a Juventus já desmentiu a informação através de uma nota oficial.

Por mais que os bolsos estejam cheios, a imagem de Sarri sai bastante chamuscada depois desta passagem pela Juventus. O treinador colocou em xeque a idolatria que tinha no Napoli para assumir o clube mais poderoso do país e, apesar do tão sonhado Scudetto, não dá para dizer que há um grande acréscimos à visão de sua carreira como treinador. Pelo contrário, o futebol pobre dos juventinos e as quedas apáticas nos mata-matas pesam contra. Nesta sexta, após a partida contra o Lyon, Sarri deu uma entrevista no mínimo questionável. Elogiou a postura do time e tratou a eliminação de maneira branda, quando os muitos problemas estiveram expressos.

Difícil imaginar tão cedo Sarri em um clube de proporções como a Juventus e o Chelsea, depois de duas temporadas aquém das expectativas. Ainda é um treinador que merece elogios por suas ideias de jogo e pelo futebol que pode produzir, mas o Napoli cada vez mais se torna um exemplo distante. Na Juventus, ele não conseguiu passar perto do que se pedia. Mais do que um clube poderoso, o comandante precisará buscar agora um lugar que confie em sua capacidade e no qual ele não fique tão exposto. Uma volta ao Napoli seria até natural dentro de algum tempo, mas sua escolha favorável aos bianconeri coloca até mesmo esta opção em dúvida.

Por outro lado, a Juventus vai ao mercado em busca de um técnico. E, assim como qualquer clube de primeira linha neste momento, o nome mais comentado é o de Mauricio Pochettino. Os juventinos têm condições de saírem na frente nesta corrida, tanto pelo contrato que podem oferecer quanto pelas condições de trabalho ao argentino. Será um caminho bem óbvio. Entretanto, também é necessária a consciência de que o elenco possui suas lacunas. O ponto de partida da mudança pode ser Sarri, mas o entrave possivelmente é maior que só um nome.