Dani Parejo não é cria da base do Valencia e passou por outros clubes antes de chegar ao Mestalla, mas a camisa dos Ches parecia ter se tornado sua segunda pele faz tempo. O meio-campista virou a grande referência técnica e também uma liderança expressa diante de diferentes momentos atravessados pela equipe ao longo da última década. O espanhol se transferiu ao clube em 2011, aos 22 anos, e nenhum outro jogador representou tão bem os valencianos no período. A impressão era de que Parejo se aposentaria por lá, como uma digna bandeira da agremiação. Mas não quando há uma diretoria como a de Peter Lim, que procura inimigos invisíveis e tenta queimar até mesmo os protagonistas da equipe. De qualquer forma, não será essa birra que diminuirá a idolatria por Parejo, agora em novos rumos. Aos 31 anos, o meia buscará um recomeço no Villarreal, oficializado nesta quarta-feira.

A saída de Parejo vinha sendo especulada pela imprensa espanhola ao longo das últimas semanas. Se o intempestivo Peter Lim não teve pudores em dispensar Marcelino García Toral após a conquista da Copa do Rei, estava claro que ninguém seria imune aos desmandos do dono do Valencia. Pois o capitão entrou para a lista de dispensa, independentemente de sua qualidade técnica e da importância que sustentava na equipe. Antes da partida contra o Leganés, por La Liga, ele recebeu um comunicado da diretoria: ao lado de Francis Coquelin e Geoffrey Kondogbia, o veterano deixaria o clube diante de uma oferta satisfatória. Parejo ainda tentou conversar e afirmou que gostaria de cumprir os dois anos de seu contrato, mas os dirigentes não estavam abertos ao diálogo.

A questão primordial na transferência de Parejo era justamente o tempo de contrato. O meio-campista não estava disposto a abrir mão de seu salário, enquanto o Valencia dificilmente ganharia algo com a venda de um atleta de 31 anos e com ganhos elevados. Assim, as duas partes entraram em acordo que o capitão seguiria livre e não cobraria os salários, aceitando a proposta que mais lhe agradasse. A partir de então, não demoraram a aparecer os interessados. O Villarreal pagará o mesmo valor anual a Parejo, mas não dará nada ao Valencia. O jogador ainda garantiu um novo vínculo de três anos, que pode ser estendido por mais um, e seguirá morando na mesma casa. De quebra, o Submarino Amarelo aproveitou o pacotão e acertou a contratação de Coquelin, que sairá por €6,5 milhões, um valor baixo pela pressa dos Ches.

Nesta quarta-feira, o Valencia escreveu um mísero parágrafo sobre a saída de Parejo. O veterano ao menos pôde dar sua última entrevista como jogador do clube, por videoconferência. E saiu com classe: o capitão preferiu não fazer críticas diretas à diretoria, embora tenha deixado expressa a sua insatisfação – inclusive por não permitirem que este último ato acontecesse dentro do próprio Mestalla, sua casa por nove anos. Mais importante, o meio-campista reafirmou o carinho por tudo o que viveu no clube e pelas pessoas que realmente fazem os Ches. Não pôde conter a emoção, logicamente. Horas depois, protestos ocorreriam diante do Mestalla, com dezenas de torcedores presentes.

“Meu objetivo sempre foi o mesmo, me aposentar aqui. Levo nove anos no clube, toda a minha carreira esteve vinculada ao Valencia e gostaria disso. Mas o futebol é assim. Estou agradecido, saio como valencianista. Vou satisfeito, orgulhoso e com a cabeça alta”, afirmou Parejo. “O futebol é mutável. Sou sempre sincero, já disse o que tinha que dizer neste momento. Saio com a consciência tranquila, mas estou triste e doído. Foi apresentado um projeto interessante, no qual acredito plenamente, mas o Valencia e os valencianistas sempre estarão em meu coração. Depois do confinamento, o clube entende que não está na melhor situação. Entraram em contato com meu agente, durante o campeonato. Não quero colocar como desculpa, entendo que pode ser o melhor para o clube, mas não era o momento e nem o lugar para fazer isso”.

“Meus filhos são pequenos. Diego entendeu um pouco. Dani me perguntou: ‘Como vou mudar meu time?’. É triste. As crianças são crianças e terminarão entendendo. Quando me virem com outra equipe, com o Villarreal, apoiarão seu pai da mesma forma. Não quero entrar no mérito se fui traído ou não. Tenho a consciência tranquila, dei tudo. Fico com os melhores momentos, tenho orgulho da minha carreira. Fico com as boas coisas, com o positivo. Agradeço a todos, pelas mensagens de amigos e de muita gente ligada ao futebol, preocupados com minha situação. Muita gente me valorizou e pensa em mim de verdade. Não vivi nada melhor que jogar no Valencia”, complementou.

Parejo não quis individualizar a responsabilidade por sua saída, mas indicou que sua postura durante a demissão de Marcelino pode ter influenciado: “Não sei quem é o encarregado de tomar esse tipo de decisão. Não sabemos o que realmente passa. Eles me informaram que não contavam comigo durante a competição. Sempre busquei alguma forma de continuar e não pôde ser. Quase não tive relação com Peter Lim. Fui a Cingapura quando compraram o clube. Com Anil [Murthy, o presidente] vivemos o dia a dia. Ele viaja conosco. Temos um relacionamento, sem mais. Sempre sou sincero e digo as coisas como penso. Dou a cara pelos companheiros e pelo treinador. Isso pode ter me prejudicado. Vou com a cabeça erguida”.

“Quando você não se classifica às copas europeias, mas quer seguir como um clube forte, precisa ter grandes jogadores. Não sei o motivo. Não me disseram se foi por salário, por comportamento ou por dizer as coisas como você pensa. Falei ao meu empresário que eu queria me aposentar aqui, que minha vida está aqui. Ele falou com o clube e não chegaram a um acordo. No Valencia, serei bem lembrado pelas pessoas, sinto assim pelas mensagens, incluindo de pessoas que nada têm a ver com o futebol e de todos os torcedores. Para mim, o Valencia é o máximo e nunca estive em outro clube igual. No futuro veremos, mas estou muito orgulhoso. Foram dias difíceis, mas também emocionantes. Estou orgulhoso de meus companheiros, agora preciso me despedir deles e de todos que trabalham no clube, os cozinheiros, os roupeiros”, salientou.

Por fim, Parejo também se mostrou animado com o Villarreal, apesar das feridas: “Busquei a melhor solução para mim e o Villarreal é uma oportunidade nova, bonita, em um clube estável, familiar. Todos falam bem. Eu me vejo diferente no Villarreal, são nove anos, agora ponho outra camisa. Mas tenho muita esperança e estou contente, é um grande projeto e um grande clube. Passei dois ou três dias péssimos, vou do clube da minha vida, mas me empolgo porque sigo a um time com projeto, com um grande treinador e sei que vão fazer as coisas realmente bem. É claro que vejo o futuro do Valencia com a mesma incerteza que vocês. Mas só posso desejar o melhor, aproveitei muito aqui. Só sinto agradecimento ao Valencia e à torcida”.

O Villarreal apresenta planos realmente promissores à próxima temporada, após fazer um bom final de campanha em La Liga e se classificar à Liga Europa. A chegada de Unai Emery, que trabalhou com Parejo no Valencia, é um ponto bastante positivo. Além disso, o Submarino Amarelo investe em reforços. Paco Alcácer havia chegado em janeiro, enquanto Takefusa Kubo é um excelente acréscimo, emprestado pelo Real Madrid. A adição de Parejo, de qualquer forma, possui uma representatividade maior. O ex-capitão do Valencia poderá ocupar uma posição de liderança, especialmente com a saída de Santi Cazorla ao Al Sadd e a aposentadoria de Bruno Soriano. Chega para ser grande no Estádio de la Cerámica.

Formado pelas categorias de base do Real Madrid, Parejo disputou as divisões de acesso com o Castilla. Saiu por empréstimo ao Queens Park Rangers e, quando voltou, ganhou poucas chances na equipe principal dos merengues. O meio-campista realmente estouraria a partir de 2009, negociado com o Getafe. Foram duas boas temporadas com os Azulones e o título do Europeu Sub-21 com a seleção espanhola, até ser vendido ao Valencia em 2011, por €6 milhões. O valor do que simbolizaria o capitão, todavia, é incalculável. Foram 383 partidas, 63 gols e 62 assistências com os Ches – entre os dez jogadores que mais vezes entraram em campo.

Parejo enfrentou períodos de incerteza econômica no Valencia, com a venda de jogadores importantes e as dívidas que não permitiram ao clube concluir seu estádio. Também não viveu um casamento pleno, chegando a ser criticado pela torcida e até mesmo ensaiando sua saída antes da vinda de Marcelino. Em contrapartida, representou a maestria em campo e boas participações nas competições europeias. O meia disputou cinco edições da Champions e quatro da Liga Europa. Chegou à seleção graças ao clube, até com certo atraso, e parecia um nome possível para a Euro 2020. E quando o investimento de Peter Lim representava dias melhores, especialmente pelo troféu da Copa do Rei que o capitão ergueu em 2019, a postura desconexa da diretoria põe tudo a perder.

Uma frase que vale para todos os clubes é: as diretorias passam, os ídolos ficam – por mais que alguns deles precisem partir por conta da incompetência de quem manda. Parejo pode até ser questionado por ter um estilo de jogo mais lento ou pelo alto salário que recebe. Mas nada disso é suficiente para justificar sua saída, ainda mais da maneira como aconteceu. Prevalecerá a trajetória do maestro e do capitão, injustiçado por dirigentes que prejudicam os Ches de tantas formas. Parejo vai escrever um capítulo novo no Villarreal. E o jeito como deixa o Valencia, numa tentativa de manchar sua história, na verdade o deixa maior por sua postura e pelas inúmeras demonstrações de afeto que recebeu.