De sexta-feira até aqui, muita coisa mudou em Trigoria, centro de treinamentos da Roma. Depois de 23 anos como profissional, o ídolo Francesco Totti ensaia uma despedida do único clube que defendeu na carreira. E a forma como isso se dá é um tanto quanto desanimadora para o espírito que a Roma tem mostrado nos últimos anos.

Cada vez mais a imagem de Totti foi se apagando. A idade chegou, as lesões vieram no mesmo pacote. O capitão foi saindo de cena até finalmente chegar a um momento de ruptura. Recuperado da contusão que impediu que ele atuasse na primeira metade desta temporada, Francesco ganhou chances contra o Frosinone e passou pela bizarra situação de atuar apenas três minutos frente o Real Madrid, jogo que a Roma perdia por 2×0 em casa, pela Liga dos Campeões, na última semana.

VEJA TAMBÉM: A aceitação de Totti como reserva é um triste sinal para a Roma

Algo estava errado. Por que o grande jogador do clube na história estava tão esquecido? É claro que a sua forma física pesou para que ele ficasse de fora e isso é algo que até mesmo Totti reconhece. Entretanto, por mais que os 39 anos expliquem a perda de espaço no elenco, ela jamais explicará o desleixo da comissão técnica e da diretoria em relação ao craque.

Algo estava estranho. Luciano Spalletti voltou à Roma após sete anos, em posição diferente da sua primeira passagem. Totti não é mais indiscutível e até a torcida mais radical pensa assim. De Rossi vive uma fase delicada, com problemas pessoais e queda de rendimento. Com o apoio do presidente James Pallotta, o treinador voltou e fez questão de mostrar quem manda, para desagrado de Totti.

O fim de semana chegou, e a Roma recebe o Palermo no Olimpico, pelo Italiano, neste domingo. Spalletti tentou apaziguar os ânimos dizendo em entrevista coletiva que Totti seria o seu titular na partida. Mas isso não ajudou muito a diminuir a frustração do capitão.

“Esta semana Totti treinou bem. Faz algum tempo que treina continuamente, com exceção de algumas contusões que teve. Por mim está pronto para jogar. Eu não faço o corneteiro, no entanto, até eu, às vezes, contribuí para fazê-lo se sentir fora do grupo, na gestão anterior, e isso não fez bem a ele e ao time. Ele consegue dar qualidade à equipe, e tudo deve coincidir. Ele ultimamente tem estado comprometido e, portanto, posso chegar no contexto em que Totti será titular amanhã e isso não exclui Dzeko. Digo isto porque senão se coloca os jogadores em disputa por posição, algo que não existe”, comentou Luciano.

Quando esperava-se paz, Totti tumultuou o ambiente e abriu o bico, expondo que a sua relação com Spalletti está estremecida, piorando muito as coisas. “Eu ainda me sinto um jogador e quero jogar, as lesões ficaram para trás: estou bem, e, se eu estou fora, é apenas por opção técnica. Eu quero mais respeito pelo que dei a esse clube. O meu contrato termina em junho, eu aguardo notícias de Pallotta e vou avaliar minha situação. Espero a justiça de pessoas me dizendo a realidade da situação e como as coisas realmente são”, disse, no sábado, à emissora italiana RAI.

A declaração pode até ser inflamada pela chateação do atleta, mas aparece em um momento complicado e expõe uma questão mal resolvida. Naturalmente, a torcida precisou escolher entre a razão e a defesa do seu capitão. Spalletti, por sua vez, nem precisou. A queda de braço foi vencida em silêncio. Primeiro, se recusando a colocar Totti em campo, depois fazendo com que ele se enforcasse com a própria corda.

Conhecemos Totti pelo seu perfil temperamental, que caía muito bem como alma do time nas duas décadas em que ele foi titular e estrela do elenco. Mas para um veterano de 39 anos às vésperas da aposentadoria, esperava-se pelo menos a frieza de reagir com inteligência a uma situação hostil como essa. Spalletti errou ao queimar o camisa 10, e Totti, ao tentar vencer a disputa por poder, mostrando que não se bica com o chefe. O problema para ele, só ele, é que Spalletti tem apoio do presidente Pallotta. Não há santo nessa história.

Na manhã de domingo, Spalletti anunciou que Totti foi cortado da delegação para o jogo contra o Palermo, dando o golpe final na guerra fria travada nos bastidores. Quando Francesco levou para o público a sua desavença com Luciano, ficou exatamente na posição que os seus rivais queriam. Político, Pallotta anunciou que voltará dos Estados Unidos para ter uma reunião particular com Totti e, desde as primeiras palavras, negou que houvesse desrespeito de Spalletti com o jogador, pelo corte da delegação.

Sabe-se que o capitão queria ficar mais uma temporada na Roma. E que mudar de clube não está entre as opções que ele considera: ou fica, ou se aposenta. Problemas de relacionamento como esse se resolvem em conversas, não com fogueiras na imprensa. O erro crasso de Totti pode ter sido o último, o sinal de que ele não é mais unanimidade e sequer pode bater na mesa como o dono da casa. Mas a raiva declarada é totalmente justificável pela situação em que ele foi colocado depois que voltou de lesão. Isso não se faz com alguém tão importante para a entidade quanto ele.

Um dia, quando a Roma era um tanto menos profissional, Totti dava a última palavra, pois o clube não era nada sem ele, e o jogador sabia disso. Hoje, com as novas contratações e a Era Pallotta, dita profissional e com altas expectativas para o futuro, o panorama mudou, e o camisa 10 é só mais um, mesmo com tanta história para contar. A Roma precisa se acostumar com a ideia de não ter mais o seu grande ídolo. Para uma parte maciça da torcida, esse ponto de ruptura antecipa a despedida que seria feita ao fim da próxima temporada.

É cedo para dizer o que a rusga com Spalletti vai causar nos vestiários. Mas não seria exagero pensar que Totti encerrará sua carreira de uma forma amarga. É difícil imaginar que ele resolva por sair para outro time, emprestando o fim de seu futebol para uma camisa diferente. Francesco não teve a despedida que merecia, independentemente do que aconteça daqui em diante. O próximo na linha de sucessão é De Rossi, que deve estar aprendendo uma lição importante de hierarquia.

Felipe Portes é editor do site Todo Futebol.