Por um lado, o Munique 1860 protagonizou uma das histórias mais melancólicas da temporada. Após o rebaixamento na segunda divisão alemã, os Leões não pagaram a licença para disputar a terceirona e cairão (no mínimo) ao quarto nível da liga nacional, regionalizado e semi-profissional. O imbróglio dos bávaros, entretanto, deixou uma vaga em branco na terceira divisão. Uma chance de recomeço ao Paderborn. O clube da Renânia do Norte-Vestfália vinha em queda livre. Não faz nem três anos, chegou a liderar a Bundesliga. Entretanto, emendou três rebaixamentos consecutivos, algo inédito no país, e seria relegado à Regionalliga. Seria. Por ter ficado na antepenúltima posição da terceirona, a exclusão do 1860 possibilitou a sua readmissão. A permanência foi confirmada na última semana, pela própria federação alemã.

Não é a primeira vez que essa repescagem acontece na terceira divisão do Campeonato Alemão. E o caso mais recente é um tanto quanto emblemático. Em 2012/13, o Kickers Offenbach não foi rebaixado em campo, mas acabou caindo por questões financeiras. Isso salvou o antepenúltimo colocado daquela edição do torneio: o Darmstadt. Conhece o conto de fadas? Depois disso, os alviazuis emendaram dois acessos consecutivos e chegaram à elite da Bundesliga, permanecendo por lá até esta temporada. O Paderborn não espera tanto. A mera permanência no nível profissional já é de grande valia.

Afinal, a derrocada do Paderborn se explica bastante pelos passos maiores do que as pernas, sem uma estrutura que sustentasse verdadeiramente o time de sucesso repentino. Até meados da última década, o clube da cidade de 150 mil habitantes nunca tinha passado da terceira divisão. Começou a frequentar a segundona a partir de 2005, até que conquistasse o acesso inédito à primeira divisão em 2014, visto como um milagre. O começo de campanha dos novatos foi espetacular, com quatro partidas de invencibilidade e a liderança inesperada após uma vitória marcante sobre o Hannover 96 – especialmente pelo gol de Moritz Stoppelkamp, que fechou o placar em 2 a 0 graças a um chute de seu campo de defesa. Apesar do sonho, estava claro que o Paderborn era peixe pequeno. Seus resultados despencaram com o passar das rodadas e, sem se sustentar no segundo turno, terminou a campanha na lanterna.

A partir de então, o clube começou um processo contínuo de reformulação de elenco. O desmanche no retorno à segunda divisão, em 2015/16, foi profundo – tanto para readequar a folha salarial quanto para atender o desejo dos principais jogadores em seguir atuando na elite. Mas os novos contratados não ajudaram e a equipe protagonizou uma fraca campanha, culminando em outro rebaixamento. Hora de readequar o grupo de atletas mais uma vez rumo à terceira divisão. Sobraram apenas três remanescentes em relação à segundona. Para uma nova decepção. O clube nem se saiu tão mal no primeiro turno, mas caiu demais no início do segundo e a reação na reta final não ajudou. Os renanos chegaram ao último jogo fora da zona de rebaixamento, dependendo apenas de si, mas o empate por 0 a 0 com o Osnabrück foi fatal, ultrapassados pelo Werder Bremen II.

A lista de transferências do Paderborn nos últimos três anos dá uma enorme ideia da bagunça que se instaurou no entra-e-sai. Levando em conta compras e empréstimos, 48 novos atletas foram adicionados ao elenco, enquanto 40 foram vendidos, dispensados ou se aposentaram. A adaptação à nova realidade é natural em boa parte dos rebaixamentos, mas não em um ritmo tão intenso. E o encaixe do elenco depende de certa continuidade. Sete técnicos diferentes passaram pelo banco de reservas no período, dificultando ainda mais a situação. Entre estes, esteve até mesmo Stefan Effenberg, símbolo do futebol alemão nos 1990. Não só não ajudou, como proporcionou alguns dos piores momentos da derrocada.

A permanência na terceira divisão permite ao Paderborn evitar novo desmanche – que, na Regionalliga, seria mais profundo do que nunca. De qualquer maneira, os renanos precisam reencontrar os prumos do trabalho que permitiu o sucesso rumo à elite. Difícil, em meio a tantas reviravoltas. Passar um ano sem correr o risco de cair, o pesadelo recorrente, já seria bastante comemorado na moderna Benteler Arena, vendo o número de espectadores minguar cada vez mais. Steffen Baumgart, técnico na reta final da terceirona, responsável por conquistar 11 pontos em 15 possíveis apesar da queda, parece o nome certo para este recomeço. A esperança que surge no caos.