A demissão de Setién era natural, mas não pode diminuir a urgência das demais mudanças no Barça

Em certos momentos, Quique Setién parecia sequer ter forças para terminar o Campeonato Espanhol à frente do Barcelona. Cambaleante, ficou no Camp Nou, apesar do desempenho decepcionante no retorno da competição e do vice-campeonato. A Champions League era a tábua de salvação ao treinador e nada além do troféu parecia suficiente para manter seu emprego. A eliminação, contudo, veio para gravar o nome do comandante em um dos maiores desastres da história blaugrana. A goleada por 8 a 2 do Bayern de Munique veio com a “marca de Setién”, no mais depreciativo sentido, diante de todos os problemas encarados. E se sua demissão era apenas uma questão de se tornar oficial, a confirmação veio nesta segunda – também com a notícia da antecipação das eleições presidenciais para março.

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Quique Setién foi uma aposta arriscada do Barcelona em janeiro. As insatisfações ao redor do trabalho de Ernesto Valverde eram evidentes, com o futebol pouco agressivo e muito dependente de suas estrelas – entenda-se aqui, dependente de Lionel Messi e Marc-André ter Stegen. Apesar dos poréns, o comandante se sustentava graças ao bicampeonato espanhol, mas lidava com as críticas costumeiras da torcida e com as falhas repetidas em mata-matas. Então, a diretoria resolveu aproveitar a eliminação na Supercopa da Espanha para transformá-lo em bode expiratório, criando um espetáculo midiático que, na verdade, botou o técnico no papel de vítima. E, sem tantas alternativas, Setién seria o escolhido.

As primeiras opções do Barcelona seriam antigos ídolos, mas Xavi e Ronald Koeman preferiram não assumir a missão – entre a desconfiança do espanhol e o compromisso do holandês com sua seleção. Num mercado escasso, sobrou Setién – um cruyffista de carteirinha, mas sem trabalhos anteriores para respaldá-lo ao salto rumo ao Camp Nou. Apesar da proposta ofensiva, o prazo de validade de seu Betis não passou de um ano. Entre altos e baixos, além de conflitos internos em sua segunda temporada, o treinador logo deixaria o Benito Villamarín. De qualquer forma, seria uma espécie de bala de prata dos blaugranas.

Setién, em teoria, possuía uma filosofia de jogo que se aproximava mais do tal “DNA barcelonista” do que o estilo aplicado por Valverde. Entretanto, teria que mostrar isso com o bonde andando – em meio a uma temporada morna, com um time repleto de problemas em todos os setores, com antigos ídolos caindo de nível e com reforços que não justificavam o preço pago. Todo o entorno era suficiente para entender por que Setién poderia não dar certo, a começar pela própria diretoria. Contudo, o treinador também não se ajudou. Esteve distante de representar qualquer evolução na montagem da equipe, entrou em atrito com o elenco rapidamente e perdeu a confiança. Nem mesmo a presença de Messi bastaria para carregá-lo. Num time cheio de senadores, manejar a pressão interna era primordial, e as rédeas começaram a se perder logo por aí.

Os meses de Setién à frente do Barcelona só foram tranquilos quando os jogos não aconteceram, durante a paralisação. Dentro de campo, o trabalho do treinador foi insosso. E, fora dele, não demorou a se tornar figura mal vista na Catalunha. Já conhecido pelo temperamento forte, apesar das entrevistas carismáticas, Setién deixou esse lado mais simpático longe do clube. As críticas de seu assistente aos jogadores nas primeiras semanas ganharam repercussão e o técnico acumulou pequenos conflitos, sem cair no gosto dos comandados – parte deles, insatisfeita desde a demissão de Valverde. A quem precisava fazer os jogadores comprarem uma filosofia no meio do nada, durante as competições e com um elenco curto, o fracasso se consumou.

Antes da parada das competições em março, Setién venceu oito das 12 partidas em que dirigiu o Barcelona. Não parece tão ruim, mas os tropeços foram capitais, em especial pela eliminação na Copa do Rei para o Athletic Bilbao e pela queda no clássico diante do Real Madrid no Espanhol. Mesmo contra adversários mais modestos, os placares eram magros e o time aprofundava carências conhecidas desde Valverde. E os três meses de espera até à retomada, que poderiam ajudar na evolução tática, não indicaram tal melhora. Pelo contrário, os empates minaram as chances em La Liga, ao passo que algumas vitórias mais amplas se tornaram apenas paliativas.

Foi assim também na Champions. O Barcelona eliminou o Napoli com mais segurança que se previa. O time abdicou do jogo ofensivo para se organizar um pouco mais atrás, conquistando a vitória graças à eficiência no ataque e também graças a Messi. Diante do Bayern, o Barça preferiu ir à trocação desde cedo, com boa intensidade nos primeiros minutos. Entretanto, passou longe de qualquer consistência na proteção defensiva e terminou surrado. O placar de 8 a 2 reflete, claro, o excelente futebol dos bávaros. Mas também é o retrato de uma equipe que nunca soube o que quis sob as ordens de Setién e acabou engolida em sua falta de ideias.

A estratégia de entregar a bola para Messi não adiantou mais, especialmente com o rendimento físico do craque em queda com o passar dos anos. Esperar que Marc-André ter Stegen salvasse também não era possível, com uma defesa aberta e um bombardeio do Bayern. O meio-campo blaugrana inexistiu nesses últimos tempos, diante das dificuldades em encaixar as peças e mesmo a falta de respaldo ao bom momento de Riqui Puig para a Champions – mas não seria o garoto que resolveria. Taticamente, o Barça não entrega. Tecnicamente, muitos jogadores jogam com o nome de cinco ou dez anos atrás. E, diante disso tudo, mentalmente o que se viu foi uma equipe em frangalhos, que aceitou o triste destino de ser engolida pelos bávaros.

O contrato de Setién permitia manobras ao Barcelona, com os dois anos e meio só garantidos a partir do cumprimento de metas. Assim, ficou mais fácil despedir o treinador diante do desastre ocorrido em Lisboa. Vai sem deixar saudades e dando a impressão de que demorará para ganhar uma nova chance, mesmo em clubes médios da Espanha. É um técnico de idade relativamente avançada e que, quando poderia engrandecer seu nome no Camp Nou, saiu com o maior vexame europeu da história do clube. A eliminação catastrófica é um processo de longos anos, mas Setién acabou por acelerar as coisas.

Não se pode colocar toda a culpa em Setién, claro. Dificilmente o treinador iria recusar a chance de sua vida, no cargo que um dia foi de seu ídolo. Não parecia ter força suficiente para aguentar a carga e isso se confirmou, numa bola de neve que só cresceu. Os entraves do Barcelona, afinal, vão muito além da área técnica. E não dá para achar que a situação mudará com essa demissão ou com a contratação de Koeman, o velho craque que parece cada vez mais próximo de deixar a seleção holandesa e assinar o contrato.

O elenco merece uma limpa, o que levará um tempo a se fazer, e que não precisa significar a saída de Messi. A verdadeira faxina que precisa ocorrer o quanto antes é na alta cúpula, esta que escolheu Setién e Valverde, que manteve um plantel insuficiente e escorado no renome, que gastou milhões sem resultados, que lida com denúncias de fraudes e corrupção. Antecipar as eleições é um caminho, mas não o mais urgente, quando uma eliminação deste peso deveria resultar num pedido de demissão em massa. A atual diretoria fala em “manter a ordem na transição”, mas é ela quem iniciará a reformulação rumo à próxima temporada e já deixa a previsão de mais um ano perdido. Setién, assim como foi Valverde, é uma tentativa de escudo sobre a má gestão dos blaugranas. Esta artimanha, porém, cada vez menos esconde a falta de vergonha que impera nos corredores do clube.