A insatisfação com o trabalho de Roger Machado no Bahia vinha desde a metade final do último Campeonato Brasileiro. O embalo inicial se perdeu e os tricolores não mostravam opções de jogo. O treinador seguiu no cargo, mas os problemas se seguiram em 2020 e aumentaram a impaciência da torcida. E se alguém aguardava a deixa para a demissão, dificilmente ela seria mais oportuna que a desta quarta-feira: completamente impotentes, os baianos perderam em Pituaçu para o Flamengo por 5 a 3, num placar até enganoso pela superioridade dos rubro-negros. Nem uma hora depois do apito final, estava anunciada a saída do técnico. Mas o questionamento se estende ainda mais à postura da diretoria do Bahia.

O clima ruim em torno de Roger Machado aumentou paulatinamente neste Brasileirão. A conquista do Campeonato Baiano não serviu para atenuar as críticas, com a eliminação precoce na Copa do Brasil e também a queda no Nordestão. O início ruim dentro da Série A gerava mais pedidos por mudança. O presidente Guilherme Bellintani, então, publicou uma série de mensagens no Twitter na segunda-feira para explicar a situação. Dizia “entender as frustrações” e contou que a troca foi pensada antes do início do Brasileirão, mas reiterava que não tomaria a “decisão mais fácil”. Ainda apontava uma avaliação constante do trabalho, indicando que poderia segurar Roger por um pouco mais de tempo.

“Ser omisso para nós seria trocar o treinador sempre que tivéssemos um momento ruim da equipe. Segurar a pressão quando acreditamos ainda haver potencial pra evolução é uma escolha que requer firmeza. Não é teimosia, é decisão com base na avaliação de todo o cenário”, escreveu Bellintani. No fim das contas, não seguraria a pressão mais do que dois dias, com a demissão cantada nesta quarta-feira.

“Além da meta de pontuação, passamos a valorizar ainda mais questões como liderança do treinador, respeito do grupo, envolvimento dos atletas com o projeto e competitividade nos jogos (deixar o máximo em campo). Isso também é importante e é uma análise que fazemos dia a dia. No momento em que percebermos que algum desses elementos está ameaçado, faremos mudanças”, complementaria ainda a dirigente, indicando o que pode ter pesado ao final da noite, durante uma demissão que não precisou de tanto tempo após a derrota para ser firmada.

Indo além do que Bellintani falou, a saída de Roger tinha elementos compreensíveis mesmo se o dirigente não resolvesse dar explicações. O trabalho dava sinais de desgaste não vinha de hoje e a maneira como o Bahia se apresentava era previsível, especialmente diante de adversários que conheciam as virtudes tricolores. O time se mostrava dependente de certos jogadores e não tinha variações, muitas vezes apegado a alguns conceitos do treinador. Além do mais, a postura apática era constante nos tropeços. Esses problemas ficaram ainda mais expostos diante do Flamengo.

Na noite em Pituaçu, os três gols do Bahia até diminuíram a impressão de uma atuação ruim. O time teve seus lampejos ofensivos e também se aproveitou de erros dos adversários. Entretanto, a quem viu a partida, foi muito mais gritante a ineficiência dos baianos e a sua fragilidade defensiva. O Flamengo amassou os tricolores desde o campo ofensivo e os anfitriões mal conseguiram sair jogando. Houve uma pane geral, em que os cinco gols saíram baratos pelo volume de jogo dos rubro-negros e pela facilidade com a qual acabaram criando oportunidades. Mesmo com mudanças, o Bahia pareceu piorar no início do segundo tempo.

É preciso se pesar o rendimento baixo de alguns jogadores e mesmo os desfalques. As oscilações são até naturais em uma maratona de jogos como a do Brasileirão, considerando o calendário apertado gerado pela pandemia. O trabalho de Roger Machado, de qualquer forma, não era mais salvo por esses poréns. Entre o que poderia se mudar no Tricolor, a saída do técnico era o que estava mais ao alcance – o mais simplista. E não havia mesmo sinais de novas ideias ou alternativas de jogo, mesmo depois de uma referida conversa com a diretoria nas últimas semanas.

“Após o título estadual, analisamos uma série de fatores e, diante do cenário levantado, com todas as informações e contextos avaliados, decidimos continuar com Roger. Conversamos muito, debatemos os problemas, reconhecemos os erros, defeitos e também os pontos positivos”, escreveu ainda Bellintani. “Estamos trabalhando para sermos competitivos sempre (mesmo que nem sempre com o futebol mais vistoso), mantermos a meta de pontuação traçada no início do campeonato e termos um grupo de atletas envolvidos. Se isso não acontecer, estaremos preparados para mudanças”. E estaria em pouquíssimo tempo, talvez para um treinador com mentalidade distinta, como os parênteses permitem presumir.

No Bahia desde abril de 2019, Roger Machado deixou uma ótima impressão de início, mas o saldo final ressalta como o treinador carece de trabalhos mais consistentes. O bom relacionamento com a imprensa e com parte do público não sustentou a falta de resultados e, sobretudo, de um futebol convincente ante as previsibilidades. E a saída reforça como, mesmo com palavras bonitas de dirigentes ou com uma postura franca do clube nas redes sociais, não é isso que evita a constante dança das cadeiras entre treinadores do Brasil.