A demissão de Odair Hellmann se prenunciava no Beira-Rio e o Internacional parecia aguardar um resultado irrefutável para entregar o bilhete azul ao treinador. A eliminação na Libertadores e a derrota na final da Copa do Brasil, em atuações insatisfatórias dos colorados, desgastaram a situação. E a sequência ruim no Campeonato Brasileiro se tornou a gota d’água. Os gaúchos não vencem há quatro rodadas e, por mais que o resultado seja compreensível diante da ascensão do CSA, o tropeço na visita a Alagoas se tornou indigesto. Nesta quinta, a diretoria do Inter confirmou a saída do comandante.

“O Sport Club Internacional comunica que Odair Hellmann deixa o comando técnico do time. Sai também o auxiliar técnico Maurício Dulac. Ex-atleta do clube, Odair assumiu como interino em novembro de 2017 e foi efetivado como treinador após o acesso para a Série A. Foram 23 meses e 116 jogos no cargo, sendo o mais longevo desde os anos 70. O clube agradece a todos pelos serviços prestados e deseja sorte na sequência de suas carreiras. Ricardo Colbachini, técnico do Inter B, vai comandar o treino de sexta-feira”, anunciou o Inter, em nota oficial. Odair não conquistou títulos à frente dos colorados, mas manteve um aproveitamento considerável. Conquistou 60,4% dos pontos conquistados, com 61 vitórias em 116 partidas.

Nestes quase dois anos de trabalho, Odair cumpriu sua tarefa inicial, ao assegurar o acesso na reta final da Série B, e até superou as expectativas ao liderar a campanha no Brasileirão de 2018, que valeu o retorno à Copa Libertadores logo após a promoção. Porém, embora o clube se mantivesse competitivo, não deu o salto aguardado nos momentos decisivos. E em uma época na qual o sucesso do Grêmio também aumenta a pressão sobre o que acontece no Beira-Rio, o treinador não conseguiu se sustentar.

Até pelo estágio da reconstrução do Internacional, Odair teve um desempenho interessante. Os colorados apresentaram um bom rendimento na Libertadores e na Copa do Brasil, se valendo de sua força dentro de casa. Além disso, também se mantiveram na parte de cima da tabela ao longo das duas últimas edições do Brasileirão. O problema se concentrava basicamente àquilo que não se notava mais no jogo do Inter. Durante a má fase recente, algumas virtudes deixaram de funcionar e não surgiram alternativas. Além do mais, os gaúchos demonstraram claras dificuldades para superar Flamengo e Athletico Paranaense, muito por conta de seu estilo de jogo. A apatia do time nos grandes duelos pesou bastante contra o treinador.

Há questões de limitação do elenco. O Internacional possui boas peças, mas algumas delas pareciam condicionar a forma de jogar da equipe. De qualquer maneira, Odair não demonstrava grande inventividade para mudar algumas características, sobretudo quando o estilo mais físico do meio-campo não funcionava. Some-se a isso um pacote errado de alterações / escolhas e outros momentos em que a mentalidade defensiva travou a necessidade dos colorados de sair ao ataque. O desgaste pareceu natural, considerando as atuações ruins da equipe nestas últimas semanas. A dupla de zaga excepcional “descoberta” por Odair ou o sistema de pressão sem a bola não foram suficientes quando as coisas já não aconteciam lá na frente.

Os jogadores até defenderam a permanência de Odair. Segundo informações do Globo Esporte, o elenco pediu a permanência do treinador. A diretoria, por outro lado, indicava sua incerteza desde o término do jogo contra o CSA e tomou sua decisão durante reunião nesta quinta-feira. O encontro apenas serviu para confirmar o que se sugeria claro desde antes. A insatisfação da torcida e os protestos contra o comandante pesaram bem mais.

“Não é pela confiança no profissional. A gente confia. Uma das coisas que eu disse é que o Odair vai voltar para o Inter. É questão de desempenho. Inter teve postura apática ontem. Teve postura que deixou escapar resultado, teve uma derrota impactante. A gente entende que o momento requer uma mudança para chegar aos objetivos até o final do ano”, justificou o presidente Marcelo Medeiros, em coletiva.

Independentemente de seus problemas, Odair merecia um pouco mais consideração durante a demissão. Faltou respeito por parte da diretoria ao avisá-lo da decisão por telefone. Que o clima não fosse bom, não foi uma postura digna àquilo que o treinador representa ao clube, por seu trabalho desde as categorias de base.

Já a maior indagação ao Internacional no momento é sobre o caminho a ser tomado no futuro. O tal ‘fato novo’ tentará manter as chances de classificação à Copa Libertadores. Ao mesmo tempo, os colorados também poderiam iniciar seu planejamento rumo a 2020. Ainda não há definição sobre o que será feito na escolha do próximo comandante. “Até a conversa que terminou faz pouco mais de meia hora, nós não falamos com nenhum treinador. Nós só vamos procurar e aproximar um futuro profissional quando terminar essa coletiva. Não tem perfil, não tem nome, não tem tempo. Não sei se é tampão, se ficará até o final do ano que vem. Vamos trabalhar em cima desse vácuo que se criou”, revelou o presidente.

Neste cenário de pouquíssimas opções no mercado brasileiro de treinadores, seria natural se o Internacional procurasse “outro Odair Hellmann” que assumisse interinamente o time até o final do Brasileirão e buscasse uma alternativa mais tarimbada ao próximo ano. Parece até inescapável olhar um pouco mais para outros países da América do Sul. Mas também é necessário perceber que apenas a troca no comando não deve bastar. Há carências no elenco e jogadores que precisam de alternativas mais confiáveis. Não dá para permanecer tão dependente dos medalhões ou limitado pela falta de nomes ao setor ofensivo. Ao se abrir mão de Odair, admite-se também um novo passo no processo de reformulação.

Na sexta colocação do Brasileiro, o Internacional tem totais condições de se classificar à próxima edição da Libertadores, mas não será uma missão simples. A capacidade de brigar pelo G-6 permanece, mas os jogadores precisarão apresentar outra atitude e a gordura acumulada anteriormente já se perdeu. A demissão de Odair pode até representar uma quebra ao momento, mas não traz qualquer garantia aos colorados. E a definição sobre como será feito o planejamento precisa ser rápida, para não permitir que a crise se amplie.