Uma vitória do Eintracht Frankfurt sobre o Bayern de Munique marcou o ápice de Niko Kovac em sua carreira como técnico. Mesmo acertado com os bávaros, o croata conquistou a Copa da Alemanha em 2018 sobre o seu futuro clube. Uma vitória do Frankfurt sobre o Bayern, porém, também serviu de gota d’água ao comandante na Allianz Arena. O trabalho do treinador se sustentava a duras penas e a derrota por 5 a 1 na visita à Commerzbank Arena, no sábado, terminou por derrubá-lo neste domingo. Encerrou um casamento que nunca engrenou.

Kovac teve os seus momentos no Bayern. Na temporada passada, conquistou a Bundesliga e a Copa da Alemanha, aproveitando mais os deslizes de seus concorrentes do que apresentando os seus próprios méritos. Já nas atuais campanhas, a goleada por 7 a 2 sobre o Tottenham parecia um ponto de virada aos bávaros – o que não se confirmou. Desde então, os tropeços da equipe são frequentes e a falta de consistência pesou contra. Ficou claro que o resultado espetacular em Londres se ocasionou mais pela má fase dos Spurs e pelo brilhantismo individual do que exatamente por um encaixe do time de Kovac.

Este é o principal problema: a irregularidade do Bayern desde a chegada de Niko Kovac. Foram meses alternando bons e maus momentos – com os maus até mais frequentes do que se pensa a uma potência dominante em seu país. Quando deu bons sinais, a equipe mostrou que eles não se sustentavam. E, neste início de temporada, não bastou a ótima fase de alguns jogadores. Serge Gnabry definitivamente se colocou entre os protagonistas, assim como Robert Lewandowski empilha gols. Nada suficiente para segurar o treinador, que vinha sofrendo sobretudo pelos péssimos registros de sua defesa, entre os desfalques sentidos e as novas peças que demoram a se entrosar. Nenhum outro time sofreu mais gols entre os dez primeiros colocados da Bundesliga, 16 em dez rodadas.

Desde o último ano, quando assumira o Bayern de Munique, Niko Kovac tinha lidado com outros rumores de sua demissão. Conseguiu fugir da degola e não via sua personalidade intempestiva minar seu espaço. Porém, a combinação entre uma temporada extremamente competitiva na Bundesliga e o ritmo cambaleante dos bávaros, com o ápice na goleada por 5 a 1, custou o seu emprego. E o cenário indica que este é realmente um processo de renovação dentro da Allianz Arena. Escolher o novo técnico não promete ser simples.

O Bayern, afinal, perdeu suas duas grandes lideranças dentro de campo. Arjen Robben e Franck Ribéry não estão mais lá. Podem não fazer falta pela queda de rendimento e pelas sequências de lesões dos últimos anos, mas eram caras que ajudavam a conduzir a equipe, que indicavam um norte a ela. Não se nota mais isso dentro de campo. O novo treinador precisará assumir também esse posto como referência ao acerto – uma missão que parecia pesada demais a Kovac, não apenas por seu parco currículo, mas também pela própria falta de um rendimento expressivo na Baviera.

Além do mais, durante os últimos tempos, os jogadores vinham indicando sua insatisfação com uma falta de identidade do Bayern. De fato, Kovac nunca aplicou um estilo de jogo muito bem definido e se baseava no talento individual. Por mais que alguns jogadores ofensivos dessem conta do recado, já não é mais um time fortíssimo em todos os setores, também por um meio-campo sem uma cara definida. O entrave começou a se ampliar com o passar dos meses, desagradando medalhões. Thomas Müller foi quem mais manifestou seu incômodo, ao indicar sua saída do clube. A estruturação da maneira de jogar será o maior desafio do próximo técnico.

De momento, o comando interino fica a Hansi Flick. Meio-campista do Bayern no final da década de 1980, ele permaneceu como assistente de Joachim Löw nos ciclos das Copas do Mundo de 2010 e 2014. No início da atual temporada, virou assistente de Kovac e suplanta o superior após a demissão, mas não possui tanta tarimba para o posto principal. Já terá uma prova de fogo dentro de poucos dias, com o clássico ante o Borussia Dortmund marcado para o próximo final de semana.

O dilema ao Bayern estará entre apostar nos nomes disponíveis no mercado ou seguir o restante da temporada (ou, ao menos, até o fim do semestre) com um treinador que não preencha totalmente os seus anseios. Neste momento, os bávaros precisam de respostas quanto ao futuro do clube. E a escolha de um técnico que traga um projeto consistente é a melhor resposta possível. Tentar salvar a temporada em busca do título da Bundesliga, ao que parece, não é o mais interessante. O próprio Kovac demonstra como isso não basta.

Por enquanto, não há nada além de especulações sobre o próximo passo do Bayern de Munique. Flick possui a confiança do elenco e uma mentalidade mais ofensiva quanto ao estilo do time. Precisará converter esse voto favorável em resultados, diante de Olympiacos e de Borussia Dortmund nos próximos dias. Então, poderá garantir um cenário mais tranquilo para que a diretoria bávara tome a sua decisão. O que o clube precisa é de estabilidade para não cometer outro erro. E mesmo com tempo para escolha, a aposta em Kovac confirmou a impressão que surgiu desde o início: de que não daria certo.