Felipão não é mais o treinador do Palmeiras. A relação, que estava desgastada o suficiente para que Alexandre Mattos viesse a público “garantir a permanência do técnico” após a eliminação na Copa Libertadores, teve a sua anunciada gota d’água menos de uma semana depois. A derrota para o Flamengo no Maracanã evidenciou um pouco mais a estagnação do time neste momento. Até poderia se pensar que os palestrinos aguardariam o fim do campeonato para a troca, mas a diretoria preferiu desviar o foco sobre si e atenuar o descontentamento da torcida. Confiará no “fato novo” para seguir brigando pelo título do Campeonato Brasileiro durante o segundo turno. O ponto é: quão profunda é a mudança que o Palmeiras deseja?

Não dá para classificar a nova passagem de Felipão pelo Allianz Parque como um fracasso. Longe disso, a história sebastianista do scolarismo se renovou com a conquista do Brasileirão em 2018 – um feito atingido mesmo sem usar os principais jogadores em boa parte das rodadas. Mas se a memória tende a preservar, dentro de algum tempo, a imagem de Luiz Felipe com a faixa no peito, os olhos não permitem ver o copo meio cheio. Surgiram também diferentes limitações que persistiram e que acabaram por derrubá-lo.

O técnico sofreu nas competições eliminatórias que encarou neste novo ciclo. Aturou duas quedas na Libertadores em que o filme se repetiu, com a impotência de uma equipe com enormes dificuldades para se impor quando precisa jogar no ataque. Na Copa do Brasil, o mesmo se veria. E que a série invicta na Série A tenha ganhado um novo parâmetro histórico, bastou seu fim para que a cabeça do comandante ficasse a prêmio. A atuação impotente diante do Flamengo, agora cinco pontos à frente no topo da tabela, era mais do que um sinal. Scolari não transmitia capacidade para promover mudanças, a ver pela própria maneira como manejava o elenco. Faltavam ideias.

Apesar de tudo, Felipão merecia mais consideração do que o indicado pelo texto de despedida publicado pelo Palmeiras em seu site. “O clube reafirma seu respeito e admiração por toda a história do técnico Felipão no Palmeiras. Em relação a esta recente passagem, o Alviverde agradece por todo o trabalho e dedicação, que resultaram na conquista do Campeonato Brasileiro de 2018”, escreveu a agremiação. Pouco a quem serviu de escudo a erros que não foram apenas dele durante os últimos tempos.

Já que Inês é morta, os alviverdes precisam olhar para frente. E precisam também tirar algumas lições importantes do que se viveu nos últimos 13 meses.

O Palmeiras deveria usar a demissão de Felipão como um ponto de reflexão sobre o seu futuro – e de inflexão, de mudança de rumos. O trabalho do treinador deixou expresso que, quando o resultadismo proposto dentro de campo não funciona, o desgaste é grande demais para bancar tal forma de jogo. Diante do investimento que existe e da própria história de quem teve brilhantes Academias, é pouquíssimo se contentar com a formação de equipes tão pobres. Como versa o hino, o tal alviverde imponente precisa surgir no campo de jogo, com a bola nos pés.

É natural se questionar a queda de rendimento de alguns jogadores, bem como as ideias que regeram a montagem do elenco. Ainda assim, um Palmeiras reativo não condiz com o nível de investimento que se fez ou mesmo com a qualidade individual de vários dos atletas disponíveis. O Palmeiras deveria ter mais atitude para agredir o Grêmio em uma noite decisiva dentro do Pacaembu ou para não ser mero espectador do toque de bola do Flamengo no Maracanã. Neste sentido, entende-se plenamente a saída de Felipão. No entanto, a quebra só pode ser verdadeira também com uma mudança de filosofia.

Há abertura para se repensar o que acontece no departamento de futebol, já que o Brasileirão não representa mais uma conquista longínqua, não significa mais uma obsessão. Pensar o plantio de 2020 pode ser melhor do que tentar salvar a lavoura de 2019. Além do mais, ousar na escolha do substituto não significa abrir mão da Série A.

Depois das “aventuras” com Roger Machado e Eduardo Baptista, o Palmeiras se vê encurralado entre confiar nas fórmulas conhecidas ou projetar novo. Neste momento, o apego do clube é tentar o título do Brasileirão e não terminar o ano de mãos abanando. Mas será que vale abraçar outra vez o resultadismo, quando se pode pensar em uma reconstrução mais sólida? Teimar na fórmula desgastada e pronta a ficar por um fio a cada deslize não parece o mais inteligente. Com ou sem a taça da Série A, o calo irá apertar mais à frente, quando a Libertadores voltar à tona.

O assento de Felipão mal esfriou e já surgem notícias de que o Palmeiras negocia com Mano Menezes. Há um namoro antigo entre as duas partes e a oportunidade parece a ideal para que o relacionamento se concretize. O que só soara em mais do mesmo. O scolarismo voltará repaginado e pronto a receber críticas pelo futebol defensivo. Mano pode ser um “especialista em mata-matas”, o que se perdeu em Felipão durante os últimos tempos, mas igualmente é alguém que não vai entregar o que se espera deste elenco caro se não ganhar tudo o que vier pela frente. E a Libertadores, afinal, foi sua grande pedra no sapato com o Cruzeiro.

Escolher um nome diferente ao de Mano, dentro de um mercado com parcas opções, ganha conotações de uma aposta de risco. Mas o Palmeiras tem condições e está em uma posição para abandonar este conservadorismo limitado. O Flamengo com Jorge Jesus ou o Santos com Jorge Sampaoli indicam uma direção, que não precisa ser necessariamente a tomada pelos palestrinos. De qualquer maneira, este é um momento oportuno para que os alviverdes arrisquem. Se os resultados são inerentes para sustentar o trabalho de qualquer técnico, o apelo ao resultadismo tenderá a fraquejar mais ante as primeiras falhas. A chance de voltar a essa mesma discussão dentro de alguns meses é considerável.

Obviamente, em um clube com grandes parâmetros e de torcida exigente, o limite da paciência costuma ser menor. Arriscar agora não oferece garantias contra a necessidade de arriscar novamente em breve ou de preferir se abraçar outra vez ao resultadismo, num ciclo de alternâncias que se mantém desde Cuca. O Palmeiras, entretanto, tem as condições e as possibilidades de ir além nesta forma de se pensar o futebol. De investir em ideias. A torcida alviverde merece mais que o scolarismo 2.0.