As defesas mais exaltadas são aquelas que parecem impossíveis. Espalhafatosas em sua essência, mas não exatamente por vontade, e sim por necessidade. Peguemos como exemplo aquela intervenção de Gordon Banks na Copa de 1970, a mãe de todos os milagres. Não fosse o mergulho no abismo ou o movimento de braços, provavelmente o inglês nunca conseguiria espalmar a cabeçada de Pelé. Uma defesa que parece impossível, no entanto, também pode ser aquela que esbanja técnica. O que Alisson fez no Mineirão, diante da cobrança de falta de Lionel Messi, também entra para a cartilha. É um milagre que, a quem admira o trabalho mais minucioso da posição, merece ser emoldurada pela imensa qualidade. O impossível, no caso, foi executar o movimento impecável.

Alisson é um goleiro essencialmente técnico. Sim, ele opera as suas defesas mais explosivas, como a torcida do Liverpool bem se lembra no duelo contra o Napoli. Ainda assim, suas maiores virtudes na posição são outras. O posicionamento do brasileiro costuma ser ótimo, assim como a sua leitura das jogadas. Sabe facilitar o que poderia ser um lance difícil, mantendo sua meta incólume. É o que o aproxima de Taffarel, por exemplo, outro arqueiro de características parecidas. E a intervenção ante Messi é um manual sobre o talento do camisa 1.

“Acredito que é uma característica minha. Gosto de simplificar as defesas que posso simplificar. Quando tem que saltar eu salto, quando não tenho que saltar não salto, quando tenho que espalmar eu espalmo. Procuro transmitir também a segurança. São momentos que transmitem segurança. Hoje foi a prova que uma defesa simples fica até mais bonita do que um voo. Foi o que eu tinha que fazer naquele momento. Estava bem posicionado. Fui favorecido pelo ângulo. O Messi não estava tão favorecido por isso. Mesmo assim, ele conseguiu colocar a bola na gaveta. Isso também mostra o trabalho que temos de força e velocidade, e o trabalho deu resultado nesta noite”, declarou Alisson, após o jogo, à Trivela.

Em qualquer circunstância, o óbvio seria esperar que Alisson rebatesse aquela bola com um salto diagonal – e isso se chegasse, em uma cobrança de falta tão bem colocada, claro. O tiro de Messi não veio tão forte, mas passou por cima da barreira (o que atrasa a visão do goleiro) e vinha alto, rumo ao ângulo. O arqueiro, no entanto, foi perfeito na intervenção. Primeiro, pelo posicionamento. Depois, por aguardar o chute, sem se antecipar ao que poderia surgir no outro canto. O tempo de reação se uniu ao grande impulso, facilitado pela colocação. E o grand finale veio com o ato firme, com as duas mãos, sem nem dar rebote.

Quando um goleiro espalma uma bola assim, geralmente é por uma questão de evitar riscos. Precisa ter uma confiança gigantesca para fazer o que Alisson conseguiu. E, como ressaltado, isso se conquista com prática, com o aprimoramento do talento. No fim das contas, a defesa no Mineirão até pareceu um ato de treino. Porém, praticado na pressão de uma semifinal contra a Argentina, em lance que poderia valer o empate aos rivais. Alisson ficou com a bola e caiu em pé na aterrissagem, irrepreensível em seu movimento. Se fosse em uma avaliação como a da ginástica artística, o camisa 1 mereceria nota máxima pela execução irretocável.

A defesa da seleção brasileira providencia poucos testes a Alisson. É algo claro há tempos, e que gerou críticas indevidas durante a Copa do Mundo. Um goleiro que não intervém não é necessariamente um goleiro que está mal. O importante é a maneira como o camisa 1 corresponde quando exigido. E seu aproveitamento sob os paus permanece alto. Nesta Copa América, quando o Brasil precisou, lá estava ele para manter sua meta invicta – mesmo que a sorte tenha ajudado duas vezes no Mineirão. São cinco partidas no torneio sem ser vazado, e isso sem somar a sequência que já sustentava no Liverpool. Isso transmite uma mensagem. E a bola de Messi é uma proclamação de seu momento. Com uma sequência cada vez maior em alto nível, a consistência de Alisson sobressai. Só ressalta como, por sua técnica, ele se coloca entre os melhores do mundo.

* Colaborou Bruno Bonsanti, do Mineirão