A decisão de Coudet mergulha o Inter em uma inesperada instabilidade e deixa uma escolha difícil a se fazer

Em poucas horas, o Internacional entrou em uma crise que não se imaginava. Os colorados vinham se sustentando na liderança do Brasileirão, mesmo com os tropeços recentes, numa edição do campeonato em que ninguém indica forças para deslanchar. Seguia vivo na Libertadores e também na Copa do Brasil, com um duelo acessível para alcançar as semifinais do torneio nacional. Porém, a saída de Eduardo Coudet demarca uma instabilidade inesperada no Beira-Rio e uma incerteza sobre a capacidade do clube para manter a toada. O treinador era um dos responsáveis pelo sucesso recente, mas, sem uma boa relação com a diretoria, preferiu aceitar uma oferta do Celta de Vigo e se mudar à Europa.

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O trabalho de Coudet no Internacional não era perfeito, mas satisfazia bastante pelos resultados alcançados e pelo nível competitivo. Por vezes o jogo dos colorados se viu limitado em recursos, com a insistência sobre alguns nomes execrados, e a defesa teve problemas sobretudo no jogo aéreo, enquanto o jejum nos clássicos contra o Grêmio também incomodou. De qualquer maneira, a equipe tinha um padrão bem definido e conquistou resultados expressivos. A postura agressiva marcou os meses de Chacho no Beira-Rio, com a marcação-pressão, a participação intensa dos meio-campistas e o estilo mais propositivo com a bola. A ascensão de alguns jogadores, em especial de Thiago Galhardo, e o espaço a jogadores da base também correspondem ao momento positivo.

Todavia, a relação de Coudet não era das melhores internamente. O técnico se mostrou insatisfeito com a falta de reforços e, num momento em que os principais concorrentes ao título indicam ter um elenco mais diverso, a rusga aumentou. Na queda de braço com Rodrigo Caetano por novos jogadores em posições carentes, o treinador perdeu. A falta de peças atrapalhou os colorados em alguns momentos nos últimos meses e poderia se tornar ainda mais preponderante nesta reta final da temporada, considerando a maratona de jogos nas três competições que terá pela frente. Coudet, então, preferiu fazer suas malas.

Por mais que tenha jogado no Celta em 2002, Coudet não passou mais do que alguns meses no clube. A escolha parece mais pautada em perspectivas à sua carreira e à sua vida pessoal do que propriamente por uma ligação forte com os galegos. Retorna a uma cidade na qual já viveu e num momento de crise que vai além dos gramados. Paralelamente, os celestes se tornam uma porta de entrada ao argentino no futebol europeu, ainda que sua missão seja ingrata. Tentará salvar uma equipe que flertou com o rebaixamento algumas vezes nos últimos anos e, atualmente, ocupa o modesto 17° lugar em La Liga.

Coudet poderia fazer história no Internacional. Tinha três possibilidades de título e os meses de resultados satisfatórios indicavam pelo menos consistência para brigar em alguma das competições. O argentino preferiu não reiterar seu compromisso. Num futebol instável como o brasileiro, no qual sua demissão já tinha sido cogitada pela imprensa por causa das dificuldades contra o Grêmio, o comandante sai sem grandes justificativas. Devem pesar as expectativas para que Chacho sustentasse o alto nível nos próximos meses, sem condições que o agradassem. Por fim, o embate com os dirigentes acabou por se tornar a gota d’água – sem que promessas de reforços fossem cumpridas, com cobranças públicas sobre os seus objetivos e também com disputas políticas ao redor, às vésperas das eleições no clube. Apesar de tudo, a diretoria indicou surpresa com a escolha do funcionário.

A saída de Coudet gera questionamentos além, sobre a própria maneira como os clubes brasileiros lidam com suas crises. É certo que o momento de pandemia se faz excepcional e o treinador deveria entender as limitações que o Inter enfrenta para investir em reforços, embora os dirigentes não devessem ter prometido o que não puderam cumprir. De qualquer forma, num país onde um punhado de resultados é mais determinante que a continuidade de um trabalho, Chacho também tomou sua decisão para não se expor aos riscos. Que o Celta esteja longe de oferecer as melhores condições, na avaliação do argentino elas parecem mais estáveis do que viveria no Brasil.

Há uma base formada no Internacional e um padrão de jogo que pode ser desfrutado pelo novo treinador. Mesmo assim, a decisão de Coudet traz mais penumbra do que luz ao futuro. O elenco precisará lidar com uma mudança de comando e dificilmente o novo técnico conseguirá reproduzir a intensidade de Coudet nas suas relações, ou mesmo preservar em suas ideias de jogo. Os atletas precisarão mostrar que não tinham seu alto desempenho limitado ao argentino, da mesma maneira como não poderão se limitar o que transmitirá seu sucessor.

Até porque, no momento, parece muito difícil que o Inter encontre um novo técnico com as perspectivas de Coudet ou com sua qualidade. O primeiro nome levantado pela mídia é o de Abel Braga, que inegavelmente possui uma belíssima história com os colorados, mas que se mostrou perdido no tempo em seus últimos trabalhos e sem a mesma capacidade de garantir uma equipe consistente. Além do mais, a filosofia de jogo seria bastante distinta. Fica difícil pensar em um nome que ocupe a lacuna de Chacho.

O mercado brasileiro, hoje, se vê restrito a poucos nomes e a maioria absoluta não inspira confiança. A solução recorrente é olhar para fora, mas desta vez os dirigentes colorados não terão tempo para serem criativos e buscarem um escolhido tão qualificado como Coudet. O calendário já não permite condições favoráveis para se trabalhar, com os jogos encavalados, e ainda mais para se iniciar um novo período. Mesmo que a situação do Inter nas competições favoreça, está longe de ser simples, e nem dá para esperar que o novo técnico mantenha o aproveitamento que se via com o argentino.

A torcida do Internacional tem seu direito em se incomodar com Coudet, quando o técnico poderia fazer ainda mais pelo time. A decisão pegou o clube desprevenido e sem qualquer plano num momento decisivo da temporada. De qualquer maneira, também dá para entender sua postura, tendo em vista os problemas nos bastidores e também o que a mudança à Europa significa. Certo é que os colorados perdem um dos melhores treinadores do Brasileirão e, a se notar o que se especula, a diretoria tende a tomar uma de suas piores decisões entre diferentes equívocos recentes. Apesar das críticas pontuais ao trabalho, Chacho correspondia às expectativas e obtinha um desempenho acima das condições que lhe eram oferecidas. O Inter perde um ótimo treinador e não tem tempo hábil para conseguir substituí-lo a altura.