A década de ouro do Nice, quatro vezes campeão nacional e potência europeia

Principal rival do Stade de Reims pelas taças, o Nice chegou a desbancar o Real Madrid pentacampeão europeu em plena Champions

Neste sábado, o Nice protagoniza o jogo mais importante da rodada na Ligue 1. Vai até o principado fazer o clássico contra o Monaco, empatados com o mesmo número de pontos no topo da tabela, para decidir quem assumirá a liderança. A temporada dos rubro-negros, aliás, vem sendo sensacional. O time se tornou ainda mais forte sob as ordens de Lucien Favre e sonha em reconquistar a taça depois de quase seis décadas. Apenas os idosos se lembram dos tempos em que o Nice dominava a França. Anos em que era o único capaz de desafiar o timaço do Stade de Reims. Anos em que faturou seis troféus nacionais, sendo quatro títulos da Ligue 1 e dois da Copa da França. Anos em que eles conseguiram até mesmo de vencer o lendário Real Madrid de Puskás e Di Stéfano.

A ascensão do grande Nice começa depois da Segunda Guerra Mundial. Em 1948, o clube retorna à primeira divisão do Campeonato Francês, botando a faixa da segundona no peito. Mas a escalada prometia muito mais. Na temporada seguinte ao acesso, terminaram a Ligue 1 na sétima colocação. Um ano depois, deram outro passo à frente, com o quinto lugar. Moldavam um time multinacional, com jogadores sul-americanos, árabes e de outros países europeus. Um elenco que conquistou o título inédito em 1950/51, de maneira emocionante.

O Nice não era exatamente o mais cotado para terminar no topo da tabela. Aliás, longe disso, diante do que acontecia no campeonato. Os rubro-negros eram lanternas depois de seis rodadas, sem uma vitória sequer. Melhoraram aos poucos, mas, a 13 rodadas do fim, ainda ocupavam a nona colocação. Até a ascensão marcante na reta final. A competição era bastante parelha e, a dois meses do fim, os 10 primeiros colocados estavam separados apenas por quatro pontos. Pouco a pouco, um ou outro ficou pelo caminho. Ainda assim, quatro times chegaram à rodada decisiva com chances de título: Nice, Lille, Le Havre e Nîmes.

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Visitando Paris, o Nice engoliu o Stade Français por 4 a 0 no jogo final. Nos outros duelos, Le Havre e Nîmes tropeçaram, enquanto apenas o Lille se impôs, batendo o Saint-Étienne. Na tabela final, justamente Nice e Lille terminaram empatados, com os mesmos 41 pontos. E imagine a alegria dos torcedores rubro-negros por terem erguido a taça apenas no ‘gol average’ (a divisão dos gols marcados pelos sofridos), o principal critério de desempate na época. Donas do melhor ataque da competição, as Águias preponderaram.

Dirigido na reta final por Numa Andoire, ex-jogador que disputou a Copa de 1930 pela seleção francesa, o Nice contou com a fome de gols de Jean Courteaux, atacante prolífico naquele início dos anos 50. Em sua linha de frente, também se destacavam os suecos Pär Bengtsson (campeão olímpico com a Suécia, em 1948) e Ake Hjalmarsson, ambos trazidos do Grande Torino que se reconstruía. O meio-campista argelino Abdelaziz Ben Tifour, descoberto no futebol tunisiano, era outro notável desde a campanha de retorno à elite, ao lado do capitão Désir Carré e de Antoine Bonifaci, titular da seleção francesa. Já a estrela da companhia, na categoria e também na marra, era o brasileiro Yeso Amalfi.

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Boêmio inveterado, Amalfi foi contratado junto ao Peñarol. Em seu primeiro amistoso, que serviria para ratificar o negócio, o atacante jogou virado depois de uma festa. A rebeldia não tinha vez com o técnico Élie Rous e foi preciso que Yeso marcasse um gol espetacular no treino, driblando o time titular inteiro e concluindo de letra, para ganhar a posição – inclusive, celebrou a pintura botando a bola sob o braço e jogando a camisa na cara do comandante. Com o brasileiro, as Águias ascenderam na tabela. E, graças a um motim do craque intempestivo, Rous foi demitido para a contratação de Andoire.

O grande jogo de Amalfi também foi seu último na campanha: o craque foi ovacionado no Stade du Ray, ao comandar a goleada por 4 a 1 justamente sobre o Lille. No terceiro tento, ele driblou nada menos que cinco adversários, antes de estufar as redes. Entretanto, uma entrada criminosa o tirou do restante do campeonato. Quando o Nice confirmou a conquista contra o Stade Français, a população da cidade carregou pelas ruas o brasileiro, que não havia viajado com a delegação. A estrela ganhou o apelido de ‘Senhor 20 minutos’, por passar o restante do tempo apagado e resolver quando queria. Anotou seis gols em 17 partidas da campanha. Reza a lenda que até Pablo Picasso, que morou na Costa Azul, foi ao estádio assistir ao espetáculo.

O título do Campeonato Francês deu ao Nice o direito de disputar a primeira edição da Copa Rio. Os rubro-negros substituíram o Barcelona, que recusou o convite. E, com Yeso Amalfi assumindo especialmente a braçadeira de, puderam se medir contra algumas das melhores equipes do mundo. Em suas duas primeiras partidas, acabaram derrotados por Palmeiras e Juventus, que fariam a decisão do torneio. Venceram seu último compromisso no Maracanã, superando o bom time do Estrela Vermelha por 2 a 1. A viagem, ao menos, serviu para os franceses incorporarem ao seu elenco dois de seus jogadores mais simbólicos: o zagueiro argentino Pancho González, que permaneceu na equipe até o fim da década e se tornaria capitão, além do atacante Luis Carniglia, ídolo do Boca Juniors e que se tornaria técnico na Costa Azul – antes de fazer história no Real Madrid, erguendo a Champions em 1958 e 1959.

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Se não brilhou na América do Sul, o Nice voltaria à França para viver a sua temporada mais imponente. As Águias conquistaram o bicampeonato francês, um feito inédito no país desde o estabelecimento do profissionalismo, e também a Copa da França. A conquista da Ligue 1, daquela vez, aconteceu de maneira igualmente apertada, mas sem tantos riscos. O clube do sul do país assumiu a liderança em fevereiro e, apesar da perseguição do Bordeaux, terminou um ponto à frente. Os girondinos, aliás, também foram os adversários na decisão da copa – considerada, por muitos, a melhor já vista no país.

Foi uma final de tirar o fôlego no Estádio Olímpico de Colombes. Entre os 10 e os 12 minutos do primeiro tempo, saíram três gols, com o Nice em vantagem por 2 a 1. Fizeram o terceiro, antes que o Bordeaux descontasse no final do primeiro tempo e empatasse na volta do intervalo. Entretanto, os rubro-negros não se entregaram, balançando as redes mais duas vezes, para assegurar a emocionante vitória por 5 a 3. Aquela foi a primeira partida de futebol transmitida ao vivo pela televisão francesa. Sorte do público, que pôde ver tamanho jogaço. Em junho, as Águias ainda disputaram a Copa Latina, torneio embrião da Copa dos Campeões, no qual entravam os vencedores das ligas de Espanha, Itália, França e Portugal. Eliminaram o Sporting, mas perderam na final para o Barcelona de Kubala, Basora, Ramallets e César Rodríguez, autor do único gol no Parque dos Príncipes.

Em relação à temporada anterior, o time de Numa Andoire passou por mudanças importantes. Perdeu os suecos de seu ataque, assim como Yeso Amalfi. Classificado pelo jornalista Gabriel Hanot (o homem que idealizou a Champions e a Bola de Ouro) como “o jogador mais técnico que já atuou na França”, o brasileiro se despediu da cidade em carreata. Apesar dos pedidos para que ficasse, acabou se transferindo ao Torino. Em contrapartida, chegaram também outros jogadores notáveis. Além dos supracitados Pancho González e Luis Carniglia, outro grande acréscimo foi o de Victor Nuremberg, segundo maior artilheiro da história do clube e considerado um dos melhores jogadores nascidos em Luxemburgo.

Depois do bicampeonato, o Nice atravessou um período de renovação. Passou três temporadas consecutivas no meio da tabela da Ligue 1, enquanto o Lille finalmente vivia a sua glória e o Stade de Reims se estabelecia como a outra potência, duas vezes campeão. Neste intervalo, as Águias ao menos faturaram a Copa da França, em 1954. Voltaram ao Estádio Olímpico de Colombes para derrotar o forte Olympique de Marseille, estrelado por Larbi Ben Barek e Gunnar Andersson. Victor Nuremberg e Luis Carniglia anotaram os gols na vitória por 2 a 1. No elenco, alguns novatos importantes, como Antoine Cuissard, Joseph Ujlaki e Abderrahman Mahjoub, símbolos de um time multicultural e todos convocados à seleção francesa. O grande talento recrutado, contudo, se tornaria um craque mundial: Just Fontaine.

Filho de um funcionário estatal da indústria de tabaco, Fontaine não tinha no futebol uma chance de vida, como tantos outros jogadores. O talento, ainda assim, preponderou. O marroquino de etnia francesa foi descoberto nos gramados de Casablanca, observado pelo treinador Mario Zatelli. Justo naquele dia, balançou as redes duas vezes. O Nice não teve dúvidas em contratar o novato. Fontaine desembarcou na Costa Azul em 1953, antes mesmo de completar 20 anos, e logo ganhou espaço entre os titulares, faturando a Copa da França meses depois.

O retorno triunfal do Nice ao topo do pódio da Ligue 1 aconteceu em 1955/56. Luis Carniglia pendurou as chuteiras e logo assumiu o posto de técnico dos rubro-negros. Comandou uma temporada dominante das Águias, que lideraram em 30 das 34 rodadas, embora tenham sido acompanhados de perto pelo Lens. Principal rival na época, o Reims de Raymond Kopa não conseguiu ser tão competitivo, terminando na décima colocação. Compensou chegando à final da primeira edição da Copa dos Campeões, derrotados pelo Real Madrid. E os revezes fizeram o esquadrão se reforçar: acabaram levando Fontaine, depois de 51 gols em três anos no Stade du Ray.

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Sem o jovem artilheiro, o Nice fez uma campanha razoável em sua estreia na Champions, em 1956/57. Eliminou os dinamarqueses do AGF Aarhus e os escoceses do Rangers, mas não resistiram ao Real Madrid nas quartas de final. Os merengues venceram os dois jogos, com Alfredo Di Stéfano brilhando na visita ao sul da França, anotando dois gols nos 3 a 2 de sua equipe. Na sequência, o Nice entrou em uma entressafra, com duas temporadas consecutivas terminado no 13° lugar. Viu, de longe, os triunfos do Saint-Étienne de Rachid Mekloufi e outra vez do Stade de Reims. Tudo para se reerguer em 1958/59, com seu título mais dominante.

Apesar da permanência de veteranos como Victor Nuremberg e Pancho González, aquele Nice havia passado por mais modificações. No banco de reservas, o técnico era Jean Luciano, um dos comandantes mais marcantes da história dos rubro-negros. A conexão argentina continuava, com a contratação de Alberto Muro, grande acréscimo pela qualidade técnica. Entre os franceses, destaque para o goleiro Georges Lamia, o defensor André Chorda e o artilheiro Jacques Foix. Já no ataque, outra grande descoberta das Águias além do Mediterrâneo foi o atacante Papa Barrou, trazido de Mali. Com 24 vitórias em 38 rodadas, o time do sul da França arrancou principalmente no segundo turno. Pela quarta (e última, até o momento) vez, o clube se sagrava campeão.

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O ponto final daqueles anos gloriosos do Nice acontece em março de 1960. Em sua segunda participação na Copa dos Campeões, a equipe eliminou Shamrock Rovers e Fenerbahçe. Novamente, cruzou com o poderoso Real Madrid nas quartas de final. E, desta vez, para intimidar os merengues em sua campanha no pentacampeonato continental. As Águias venceram o jogo de ida por 3 a 2. Os espanhóis abriram dois gols de vantagem no Stade du Ray, com tentos de Herrera e Rial. Todavia, os franceses voltaram com a faca entre os dentes para o segundo tempo. Victor Nuremberg se confirmou como lenda rubro-negra, ao completar uma tripleta num intervalo de 18 minutos. A potência estava derrotada. O Nice só não aguentou a revanche em Chamartín. Vitória estrondosa dos madridistas, diante de 100 mil espectadores nas arquibancadas: Di Stéfano, Puskás, Gento e Pepillo balançaram as redes na goleada por 4 a 0.

A partir de então, o Nice se transformou em mero coadjuvante. O Stade de Reims permaneceu como potência, enquanto o rival Monaco conquistou seus primeiros títulos nacionais no início dos anos 1960. Em 1963/64, as Águias amargaram a lanterna da Ligue 1, retornando à segunda divisão depois de 15 anos. Em 1967/68, o clube voltou a sonhar com a taça na elite, mas terminou na segunda colocação. Até 1976, os rubro-negros foram vice-campeões mais duas vezes. Desde então, sequer voltaram ao pódio, se contentando com a Copa da França em 1997 e a Copa da Liga em 2006. A oportunidade de reescrever a história grandiosa volta à Costa Azul em 2017.