A mudança no regulamento da Copa do Rei representa um alívio maior aos clubes grandes, que veem seu calendário menos congestionado. Porém, a ideia de disputar apenas um jogo na casa do adversário da menor divisão, sem partida de volta, abre portas às zebras. Barcelona e Real Madrid temeram isso nesta quarta-feira, com vitórias suadas contra oponentes da terceirona. Já nesta quinta, o Atlético de Madrid não conseguiu se safar. A Cultural Leonesa, também da terceira divisão, eliminou os colchoneros nos 16-avos de final. Após arrancar o empate no fim do tempo normal, a equipe da casa celebrou a virada por 2 a 1 na prorrogação, sem se intimidar com o peso da camisa adversária. O resultado coloca mais pressão sobre Diego Simeone, após uma exibição desastrosa de seus comandados.

Fundada em 1923, a Cultural Leonesa é uma equipe tradicional da região de Castela e Leão. O clube disputou as primeiras edições das divisões de acesso no Campeonato Espanhol e até mesmo pintou na elite uma vez, em 1955/56, logo sofrendo o rebaixamento. Já em 2015, com muitos problemas financeiros, o time foi comprado pela Academia Aspire – projeto do governo do Catar para desenvolver jogadores. A Leonesa se voltou especialmente a jovens e melhorou seu desempenho, com direito a um acesso à segundona após 42 anos de hiato em 2017/18 – apesar do descenso na temporada seguinte.

Assim, o Atlético de Madrid estava ciente que poderia encontrar suas dificuldades. E, por mais que tenha poupado titulares, Diego Simeone escalou várias estrelas para o duelo em Leão. João Félix, Ángel Correa, Saúl Ñíguez e Héctor Herrera apareceram na escalação, mas não evitaram uma apresentação desconcentrada da equipe. Apesar do início superior, o Atleti não aproveitou as primeiras oportunidades e permitiu que a Cultural Leonesa crescesse com o passar dos minutos. Vitolo, em especial, não estava calibrado do lado rojiblanco.

O gol dos colchoneros só aconteceu aos 17 minutos do segundo tempo. João Félix ajeitou e Ángel Correa arrematou às redes. O problema é que o Atlético, sem saber muito como se portar, aceitou a pressão da Cultural Leonesa. Sob gritos de “sí, se puede!” da inflamada torcida nas arquibancadas, o empate saiu aos 38. Os anfitriões ameaçavam principalmente nas bolas paradas e assim chegaram ao tento, num chute forte de Julen Castañeda da entrada da área. Os colchoneros tentaram evitar a prorrogação, mas se agigantou o goleiro Lucas Giffard. O francês realizou defesas milagrosas, especialmente em sequência diante de Felipe e Thomas Partey.

Durante o prolongamento, até parecia que a Cultural Leonesa não teria físico suficiente. O Atleti buscava o segundo gol e novamente parava em Giffard. Além disso, sem medalhões no banco, a alternativa de Simeone era apostar nos mais jovens. Não deu certo. Aos três minutos do segundo tempo extra, o desastre colchonero se concretizou. Em um contragolpe, Gabriel Gudiño cruzou e Sergio Benito pegou na veia, mandando a bola no cantinho de Adán. Restavam mais 12 minutos para o Atlético buscar um novo empate, mas a Leonesa segurou heroicamente o placar favorável. Comemorou um resultado histórico.

É a quarta vez que o Atlético de Madrid foi eliminado por um adversário da terceirona na Copa do Rei. Antes disso, as duas primeiras ocorreram na década de 1930, enquanto o Albacete tinha sido o único a registrar a proeza desde então, em 2011. Anedoticamente, foi aquele fracasso que culminou na troca de Gregorio Manzano por Diego Simeone no comando dos colchoneros. Já a Cultura Leonesa não alcançava as oitavas de final da Copa do Rei desde 1959/60, quando perdeu de 9 a 0 no agregado contra o poderoso Real Madrid de Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás. É esse o tamanho da conquista.

Celta, Eibar e Betis também eliminados

A quinta-feira foi desastrosa aos times da primeira divisão na Copa do Rei. Celta e Eibar também sofreram indigestas surpresas e acabaram eliminados com bola rolando. Décimo colocado da segundona, o Mirandés possui sua história na Copa do Rei e chegou a ser semifinalista há oito anos. Desta vez, os Rojos despacharam o Celta no tempo extra. O brasileiro Matheus Barrozo abriu o placar, enquanto a equipe de Vigo descontou no segundo tempo, com Pione Sisto. Já na prorrogação, o Mirandés desperdiçou um pênalti, que rendeu a expulsão do brasileiro Rafinha, mas Antonio Sánchez definiu a vitória por 2 a 1 pouco depois. O Eibar, por sua vez, sucumbiu ao Badajoz. Quarto colocado em seu grupo na terceirona, o clube de Extremadura venceu por 3 a 1, com dois gols anotados nos primeiros 20 minutos.

O Betis, por sua vez, caiu nos pênaltis, mas tinha o desafio mais difícil de todos: encarou o Rayo Vallecano em Vallecas. Fazendo uma campanha mediana na segundona, o time de Madri abriu a conta com Catena e só no fim do segundo tempo é que Joaquín empatou aos visitantes. Loren até virou na prorrogação, só que Andrés Martín decretou o empate por 2 a 2. Na marca da cal, melhor ao Rayo, que venceu por 4 a 2. Joaquín e Cristian Tello isolaram duas cobranças andaluzes. O único representante da elite a avançar nesta quinta foi o Leganés, que superou o Ebro por 1 a 0. Jonathan Silva definiu a classificação contra o oponente da terceirona.