Em junho de 1965, o Brasil disputou uma sequência de amistosos no Maracanã, preparando-se para a Copa do Mundo do ano seguinte. No dia 6, os bicampeões do mundo receberam a Alemanha Ocidental. E contaram com a presença de um torcedor especial nas arquibancadas: Mario Vargas Llosa. O escritor peruano estava em lua de mel no Rio de Janeiro. Convenceu sua esposa a passar o primeiro dia de núpcias no gigante de concreto, tão fã que era de Pelé. Acabou recompensado. O Rei definiu a vitória por 2 a 0 sobre os alemães, em duelo que teve o placar aberto por Flávio Minuano. “Pelé é o futebolista mais extraordinário que já vi. Um mito e uma realidade”, declararia o literato, durante entrevista concedida em 2008.

O episódio ajuda a dimensionar a paixão de Vargas Llosa pelo futebol. Uma relação que começou ainda na infância, em Lima. Influenciado por seu tio, o garoto passou a frequentar os jogos do Universitario. Tornou-se um torcedor crema fanático, a ponto até mesmo de tentar carreira nas categorias de base do clube. Contudo, a estadia do meio-campista nas canteras foi rápida. E o gosto pelo Universitario se moldou mesmo nos arredores do campo. Permaneceu como um frequentador assíduo das arquibancadas, a ponto de ser homenageado como sócio vitalício em 2011 – um ano depois de receber o Nobel de Literatura.

Pois, ao longo de sua trajetória, Vargas Llosa também emprestou a sua sublime pena ao futebol. Tratou o jogo como parte de sua literatura e produziu alguns textos, em especial em 1982. Naquela ocasião, atuou como cronista esportivo durante a Copa do Mundo, nas páginas do jornal espanhol ABC. Aproveitando a decisão da Copa América, separamos um trecho do texto “O futebol como fantasia”, em que o mais célebre escritor peruano exalta o futebol brasileiro. O artigo original, escrito logo após a vitória do Brasil sobre a Argentina naquele Mundial, pode ser conferido através deste link.

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Os povos se expressam de maneiras inesperadas e diferentes. A criatividade dos peruanos, por exemplo, se nota extraordinariamente na cozinha – os nossos pratos, ensopados, molhos, temperos e ingredientes revelam uma fantasia e uma audácia especulativa surpreendente, porque somos um país pobre, onde muitas pessoas comem mal e algumas não comem. Mas mesmo nas aldeias mais insignificantes da costa, nas serras ou nas florestas do Peru, os vizinhos maravilharão o forasteiro com um orgulho culinário próprio, feito de pequenas invenções, às vezes sutilíssimas variantes locais de pratos nacionais.

O que ocorre no Peru com a comida, também acontece no Brasil com o futebol. Neste esporte se expressa de maneira privilegiada a aptidão criativa dos brasileiros, a alegria, a picardia, o ritmo, a sensualidade e a graça – essas virtudes que estão, também, tão vivas e atuantes em sua música. Sempre fui um admirador fervoroso do futebol brasileiro, porque é um futebol que tem um tanto de espetáculo e de ritual, de festas e de dança, como tem de esporte. E, ainda que nesta tarde os discípulos de Telê Santana não tenham jogado a melhor partida deste campeonato (creio que foi melhor seu segundo tempo contra a União Soviética), o público teve a ocasião de ver a formidável plasticidade com que este time se move pelo campo, a um ritmo que parece programado por uma partitura, e essa combinação tão equilibrada que permite ao futebol brasileiro ser eficaz e preciosista ao mesmo tempo.

Inventaram os brasileiros essa expressão de ‘toque’ de bola? Em todo caso, é o jogador brasileiro a quem se aplica com mais justiça. ‘Tocar’ a bola se emprega, no jargão do futebol, em dois sentidos. Em um, quer dizer receber e passar instantaneamente, sem demorar nem um segundo com ela, utilizar o pé apenas para desviá-la a uma direção que seja aproveitada. Em outro sentido, o verbo designa uma maneira diferente de conduzir a bola com os pés, não chutando-a e sim ‘tocando-a’ – ou seja, uma maneira muito mais leve, suave, afetuosa, flexível que (em aparência) podem fazer com os pés.

Pois bem, o jogador brasileiro ‘toca’ a bola de um modo inconfundível, ao extremo de que não seria difícil identificar a um jogador deste país, entre outros muitos, pela maneira de avançar com a bola. É uma curiosa, estranha, fascinante relação a que parece se estabelecer entre a bola e esses pés hábeis: uma cumplicidade saltitante, uma paquera rítmica, um entendimento mágico. Esse ‘toque’ de bola foi uma das genialidades de Pelé e, agora, é de Zico.

* Parte deste texto foi publicado originalmente em 2016