As comparações eram inevitáveis. Jason Denayer era um jovem belga, zagueiro, alto, bom físico, confortável com a bola nos pés. O novo Vincent Kompany e, quando chegou ao Manchester City, a expectativa era que seguisse os passos do compatriota, capitão do clube inglês. As circunstâncias, porém, exigiram uma correção de curso e, neste sábado, Denayer enfrentará o seu antigo empregador nas quartas de final da Champions League como líder do Lyon.

Denayer, 25 anos, foi vítima de uma política do Manchester City que contrata jovens talentos ao redor do mundo, empresta-os para ver o que acontece e raramente lhes dá chance no time principal. O Flamengo, por exemplo, recebeu Marlos Moreno e contratou Pablo Marí por causa dessa lógica. A lista segue com nomes como Gerónimo Rulli, goleiro da Real Sociedad, Patrick Roberts, e até Angeliño, que pelo menos teve uma breve experiência entre os adultos.

A trajetória de Denayer começou com um teste no Anderlecht, clube que revelou Kompany ao mundo, aos 11 anos. Contou ao Guardian que seus companheiros não lhe passavam a bola e preferiu não ficar. Doze meses depois, o Anderlecht o convenceu a mudar de ideia, mas, aos 13, ele se juntaria à Academia Jean-Marc Guillou, projeto do ex-jogador de Angers e Nice que forneceu alguns talentos a Arsène Wenger e é creditado como colaborador nos desenvolvimentos de jogadores como os irmãos Touré, Gervinho e Salomon Kalou.

“Um dos meus melhores amigos estava fazendo testes na academia. Ele me disse que eles jogavam futebol quatro horas por dia. Aquilo me fascinou”, contou, ao jornal inglês. No último dia de testes, cansado, foi quebrar um galho na defesa. Um dos treinadores perguntou se ele sonhava em ser profissional, e Denayer decidiu que seria melhor jogar na defesa porque não conseguiria igualar os pequenos e técnicos atacantes.

A academia obrigava os jovens a jogarem descalços para aperfeiçoar o toque na bola e tirou Denayer de uma situação de risco. Filho de pai belga e mãe congolesa, morava em um bairro menos favorecido de Bruxelas. Ficava muito tempo nas ruas. “Você tinha que tomar cuidado. Mesmo quando jogava futebol. Um contato tolo poderia causar um clima explosivo. Eu conheço garotos que eram mais talentosos que eu, mas nunca chegaram lá. Eles tomaram outras escolhas. Esse é o risco de crescer em um bairro difícil”, disse.

O Lierse, um dos parceiros da academia, queria contratá-lo com um contrato semi-profissional, mas Denayer preferiu tentar voos mais altos. Deu uma voltinha pela Inglaterra, fez testes no Liverpool, sem chegar a uma acordo, e depois foi para o Manchester City. “Demorou meses para o clube tomar uma decisão – o período mais longo da minha vida. Mas quando assinei, estava super-feliz. Tive minha chance no time de desenvolvimento e treinei com o principal”, afirmou.

Tinha 18 anos quando se mudou para um novo país. “Foi um pouco complicado no início”, afirmou ao site da Uefa, em maio. “Principalmente em termos de falar a língua, embora houvesse lá jogadores que falavam francês. Havia também outro jogador belga (Kompany), por isso foi muito fácil adaptar-se à nova vida. O principal problema era falar o idioma, mas tive aulas de inglês e foi tudo mais fácil. O meu pai estava comigo e ajudou bastante. Não foi fácil no começo, mas foi melhorando com o tempo”, contou.

Depois de um ano, Denayer começou o seu circuito de empréstimos. O primeiro foi para o Celtic. “Já tendo sido comparado com Vincent Kompany, o capitão do Manchester City e seu compatriota”, anunciou o clube escocês. Denayer já lamentava receber poucas chances no City. “Eu nunca realmente tive minha chance no primeiro time e queria sair por empréstimo”, disse. A primeira reação ao receber o contato do Celtic foi pensar que Glasgow “é aquela cidade em que o sol bate apenas uma semana por ano”, mas foi convencido por uma ligação do treinador Ronny Deila.

Foi uma experiência bem sucedida. Marcou em sua estreia pelo Celtic, contra o Dundee United, fez dupla de zaga com Virgil Van Dijk e conquistou os primeiros troféus da sua coleção – a liga escocesa e a Copa da Liga. Terminou eleito o melhor jovem do ano pela associação dos jogadores. Nem assim ganhou chance no City. Foi cedido ao Galatasaray, no qual teve o tempo de jogo limitado por lesões, mas conquistou a Copa da Turquia.

O próximo passo foi ganhar um pouco de experiência no futebol inglês. Fez 24 jogos de Premier League pelo Sunderland, sem conseguir evitar o rebaixamento em 2016/17. Hora de jogar no City? Não: hora de voltar ao Galatasaray e ser campeão turco. Em meados de 2018, a paciência para arrumar mala, desfazer mala e morar temporariamente em alguma cidade europeia a cada 12 meses acabou. Denayer queria algo mais permanente.

“Não é fácil ir para um lugar novo sem saber se estará lá no ano seguinte. Desta forma, não é possível se fixar em lugar nenhum. Por isso, quando o Lyon demonstrou interesse em me contratar, fiquei aliviado. Trouxe-me estabilidade e sabia que poderia me concentrar totalmente no futebol. Acho que foi a hora certa para mim”, disse, ao site da Uefa.

Não podemos dizer com certeza que o Manchester City se arrependeu da decisão. Havia reforçado sua defesa seis meses antes com Aymeric Laporte, que completava a zaga com John Stones, Nicolás Otamendi e Vincent Kompany. É capaz de jogar com os pés, como pede Guardiola. Segundo a Opta, em um jogo pelo Lyon, em agosto do ano passado, foi o primeiro jogador das cinco grandes ligas a conseguir completar 114 passes sem nenhum erro desde que a empresa começou a analisar essas competições em 2006/07. Poderia ter sido utilizado, com Otamendi já em agudo declínio e Kompany prestes a sair do clube ao fim daquela temporada.

O fato é que, na atual e longa campanha, o City poderia muito bem ter contado com os serviços de Denayer em meio a uma onda de lesões que em certo momento o deixou com apenas um zagueiro de ofício e obrigou Fernandinho a atuar improvisado várias vezes. “Sua principal qualidade é a velocidade”, afirmou Marc Wilmots, treinador responsável por sua estreia na seleção belga, em março de 2015, contra Israel, quando Denayer assinou com o Lyon. “Ele tem força e técnica e ainda pode melhorar seu jogo defensivo, mas não é ruim até agora. Ele tem um bom pulo, e ele não será Virgil Van Dijk, por causa do seu tamanho, mas de resto ele tem tudo. É o novo Kompany, sem o carisma”. Tem 13 jogos pela Bélgica, um deles na Eurocopa de 2016 – na eliminação para País de Gales.

Denayer custou apenas € 6,5 milhões ao Lyon e fez uma temporada dominante. Nabil Fekir saiu para o Betis, e Sylvinho chegou para contestar Wilmots. “Ele é um jogador com liderança natural e carisma, que se relaciona com os jovens e ex-jogadores do clube. Tem uma temporada aqui e acho que esta responsabilidade que lhe dei permitirá que cresça ainda mais”, disse o brasileiro, justificando a escolha do zagueiro como seu capitão.

Rudi Garcia, porém, substituiu Sylvinho e, depois de alguns meses, elevou Memphis Depay ao cargo, mas afirmou que todos que usaram a braçadeira no passado seriam os vice-capitães. Denayer foi capitão na maioria dos jogos das copas e teve algumas oportunidades também na Ligue 1, com a séria lesão de Depay no começo do ano, e no jogo de ida das oitavas de final da Champions League contra a Juventus.

“Não quero mudar minha personalidade. Quero permanecer fiel a quem sou. Ser mais calado não me impede de falar com as pessoas. Existem maneiras diferentes de dizer as coisas, mas, se tiver algo para dizer, bom ou ruim, vou fazê-lo. Tudo que faço é no melhor interesse da equipe”, disse, explicando seu estilo de liderança.

Quando chegou à Inglaterra como um jovem adulto, Denayer vislumbrou a possibilidade de seguir os passos de Vincent Kompany. Entrar no time do Manchester City, conquistar títulos, talvez até também virar um dos líderes de um dos principais clubes do momento. Não aconteceu assim, mas ele não se deu tão mal. Ser um dos capitães do Lyon também é um feito importante no futebol europeu e, neste sábado, ele terá a chance de mostrar ao seus antigos empregadores exatamente do que eles abriram mão.

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