Dentre a série de problemas que a escolha pelo Catar como sede da Copa do Mundo de 2022 implica, a possível corrupção durante o processo é o que mais capítulos rende em torno de si. E foi com a motivação de descobrir novas informações sobre a irregularidade na eleição da sede que equipes das emissoras públicas alemãs ADR e WDR foram para o país. O que não esperavam é que seriam recebidas com a prisão de seus jornalistas durante as filmagens do documentário que produziam.

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Os profissionais foram detidos pelo governo catariano enquanto gravavam o documentário “A Venda do Futebol – Sepp Blatter e o Poder da Fifa”. Segundo Florian Bauer, da ADR e um dos detidos, todo o conteúdo que haviam conseguido no país foi apagado pelas autoridades. “Agora é público. Fomos presos no Catar, interrogados pela polícia e pelo serviço de inteligência. Não pudemos deixar o país por dias. Catar-2022 enfrentará novas críticas. Fui preso no Catar, tive todo meu material apagado, o equipamento destruído. O que a Fifa dirá sobre isso?”, questionou em sua conta no Twitter.

Com o material que lhe restou, a emissora exibiu o documentário nesta segunda-feira. A produção denunciava a já conhecida situação degradante dos operários imigrantes na construção dos estádios, e na reportagem um membro do comitê-executivo da Fifa chega a reconhecer que houve um acordo entre a entidade e algumas empreiteiras no período da escolha de Rússia e Catar como sedes das próximas Copas do Mundo.

A resposta do Catar veio um dia depois da situação ter se tornado pública. Nesta terça-feira, autoridades catarianas afirmaram que os jornalistas alemães foram presos porque não tinham permissão para executar as filmagens. Já os alemães disseram que insistiram na tentativa de conseguir tal permissão, mas que não obtiveram resposta. O fato de que essa burocracia tenha motivado a prisão dos profissionais é revoltante, mas esse é o preço que você se dispõe a pagar quando entrega a realização de um evento como a Copa do Mundo para um país de democracia frágil.

Que o Catar não é o mais democrático dos países, já sabíamos, e é em cima disso que se baseiam muitas das críticas à escolha pelo país como sede da Copa de 2022. Mas a prisão de dois jornalistas estrangeiros e a destruição de seu material são de um absurdo tão enorme que a reação natural deveria ser de completa pressão contra o país, sobretudo contra sua continuidade como sede. Uma das funções primordiais da imprensa é a de informar e municiar seus leitores e espectadores de argumentos e conhecimento para que possam se contrapor a posições oficiais de instituições que afetam sua vida, mas em que não têm voz ativa. E diante de algo tão controverso como a Copa de 2022, isso é ainda mais vital. O que mais assusta é pensar que talvez essa não seja nem de perto a pior coisa que ouviremos sobre o Mundial no Catar. Até onde vai a conivência da Fifa?

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