Após duas semanas intensas de jogos, a primeira fase da Copa do Brasil praticamente chegou ao final nesta quinta-feira. Restam apenas mais três partidas para definir todos os times que estarão na segunda fase. E foi impressionante a quantidade de grandes clubes brasileiros que se safaram graças ao regulamento proposto pela CBF, contra adversários de orçamento bastante inferior. Na última semana, o Botafogo respirou aliviado por sobreviver ao Caxias. Já nesta semana, enquanto Vasco e Atlético Mineiro pareciam cômodos pela igualdade contra Altos e Campinense, o Cruzeiro suou para sair com o 2 a 2 diante do São Raimundo de Roraima.

Considerando o sobrecarregado calendário brasileiro, a CBF tem sua parcela de acerto ao mudar o regulamento da Copa do Brasil nas fases iniciais, em relação ao que era feito anteriormente. Adotar o esquema de jogo único diminui o desgaste aos times das principais divisões e até permite absorver mais participantes de rincões diferentes do Brasil. Porém, dizer que a mudança foi positiva não significa que tudo está perfeito atualmente. Há outros entraves que os concorrentes de menor ranking acabam pagando.

Não é todo mundo que acha injusta a vantagem do empate ao time visitante nesta primeira fase da Copa do Brasil. Mas por que apenas na primeira fase? Por que não dar a possibilidade de que a classificação se resolva com uma prorrogação ou então com pênaltis? Por que não definir em campo, e não com um ranking que apenas reforça a condição de algumas equipes? Difícil encontrar algum torneio de primeiro nível ao redor do mundo que trate uma “não-vitória” em jogo único como vitória. Descaracteriza a premissa da própria competição, a vitória.

O time de menor ranking precisa jogar em casa neste esquema de partida única, não há discussão. Um dos grandes baratos da Copa do Brasil está justamente em levar clubes maiores para diferentes cantos do país – e isso até poderia ser estendido às fases seguintes. Há o engajamento ao redor do time menor, o clima especial nas arquibancadas, a mobilização da região. Mas será mesmo que jogar em casa gera uma vantagem em campo tão grande assim a São Raimundo, Picos, Campinense ou Caxias, a ponto de garantir o empate a clubes que possuem vantagens históricas, orçamentárias e até mesmo políticas dentro da CBF?

Ao menos a mim, este esquema da Copa do Brasil soa como um privilégio ao status quo. E não premia o momento, o campo, a maneira como cada equipe sente aquele jogo. É um anticlímax ver clubes mais poderosos conduzindo os compromissos com a barriga, quando podem se dar por satisfeitos com o empate. Ou então, correndo atrás do resultado apenas quando o calo aperta, caso dos eliminados Sport ou Coritiba nesta quarta-feira. O empate em jogo único é um tanto quanto vazio, como se não resolvesse exatamente o verdadeiro intuito do embate.

Ao todo, 14 classificados nesta primeira fase da Copa do Brasil se valeram do empate – com dez triunfos dos mandantes e outros 11 dos visitantes que não se acomodaram. Mais de um terço dos 37 confrontos resolvidos até o momento se valeram do regulamento questionável. É muita coisa, e já um recorde desde a adoção do sistema em 2017. As surpresas poderiam ser ainda mais recorrentes e aumentar a competitividade em diferentes regiões do país. Histórias como as de Manaus, River, Vitória-ES ou Brusque são menos numerosas.

Obviamente, nem todo mundo é Cruzeiro contra São Raimundo de Roraima. Há emparelhamentos mais igualados, como Brasiliense x Paysandu ou Santo André x Criciúma, em que alguma vantagem ao visitante pode não ser um disparate tão grande. Ainda assim, é suficiente para punir o esforço de Davi’s contra Golias’? Não é melhor definir em campo? Não é melhor ver o time favorito se esforçando pela vitória do que assisti-lo cozinhando um empate?

Porque, afinal, a questão não é exatamente apenas o gosto de se classificar à segunda fase da Copa do Brasil. A conquista esportiva, claro, serve como um orgulho ao clube menor e uma história a ser contada por décadas. Mas há o fator financeiro, tão lembrado na competição. E, neste ponto, parece bem mais injusto pensar que o Cruzeiro terá R$650 mil para diminuir o seu rombo, e não o São Raimundo de Roraima, que se esfolou durante 90 minutos, mas não verá um dinheiro que poderia salvar o seu ano. O empate que permitiu aos roraimenses caírem em pé não pagará conta nenhuma. O “quase” poderia ser muito bem determinado nas quatro linhas – mesmo que os pênaltis não sejam um grande exemplo de justiça no esporte.

Não existirá nenhuma solução completamente perfeita, mas a CBF precisa repensar o regulamento da Copa do Brasil em alguns sentidos. A vantagem do empate é um ponto primordial, porque não permite ao jogo ficar circunscrito aos seus 90 minutos.

Um caminho seria adotar a prorrogação, como na Copa da Alemanha, onde os grandes participam desde a primeira fase – e admitir que o fator campo não é uma vantagem tão grande quanto o empate ao favorito. Ainda assim, os poréns permanecem em outros sentidos ao Brasil. O calendário sufocante não dá margens de manobra. Trinta minutos a mais de jogo pesam na somatória aos clubes grandes. Além disso, a teórica preparação física superior dos clubes mais estruturados também não é verdade absoluta, considerando que boa parte deles ainda está em ritmo de pré-temporada, contra pequenos se preparando especificamente à Copa do Brasil.

Outro caminho seria repensar a entrada de parte dos times desde a primeira fase. Em torneios como a Copa da Inglaterra, a adição dos participantes conforme sua divisão é gradual. Isso evitaria, por exemplo, que equipes como o Atlético Mineiro e o Atlético Acreano fossem colocados no mesmo balaio durante o sorteio da primeira fase da Copa do Brasil. Se o empate fora de casa já parecia difícil aos acreanos, que tomaram de 3 a 0 na visita ao Afogados da Ingazeira, isso não se aplica em mesmo grau aos mineiros em seu embate contra o Campinense.

Caso essa mudança de estrutura ocorresse, determinar o mando de campo conforme a divisão nacional é até uma ideia mais interessante do que se valer apenas do Ranking da CBF – no qual um Red Bull Bragantino aparece abaixo de vários oponentes das Série B ou C, assim como a recém-rebaixada Chapecoense levará tempo para ser ultrapassada por componentes da Série A. Aos times sem divisão, uma organização conforme o estado de origem e sua respectiva representatividade nas séries nacionais seria ideal.

Além do mais, reorganizar a entrada das equipes na Copa do Brasil com base nas divisões do Brasileirão até mexeria com a máquina de moer carne que existe na fase final atualmente. Os cinco sobreviventes dos 80 participantes iniciais acabam jogados aos leões a partir das oitavas, sobretudo com a entrada dos presentes na Copa Libertadores. Ver jogos grandes é legal, claro, mas o privilégio não precisa ser tão esmagador. Tal funil também prejudica a imprevisibilidade da Copa do Brasil e torna bem menos possível a escalada aos menores.

No fim das contas, a resposta é a de sempre: o interesse financeiro e o jogo político da CBF sempre pesam. Na atual estrutura, a Copa do Brasil se torna um “produto” bastante rentável para a televisão, não só por facilitar o caminho dos favoritos que entram na primeira fase, como também por assegurar as camisas mais pesadas na reta final. A competitividade e a democracia do torneio se perdem no meio disso. Se os pontos corridos do Brasileirão forçam uma estabilidade aos times que desejam uma escalada, a Copa do Brasil poderia prover o reconhecimento a outros tipos de mérito que não são contemplados pelo Ranking da CBF.

Dividir um pouco mais o bolo de dinheiro com os pequenos ou permitir que o fato de jogar em casa não se torne ônus, contudo, pode provocar impacto nos interesses gerais da CBF pelo atual esquema. Talvez por isso, o mínimo de “não tratar empate como vitória” não seja feito pela entidade. Poder desafiar um dos grandes na fase inicial, o que é comemorado em diversas copas ao redor do mundo, é bem menos bem-vindo na Copa do Brasil.

* Agradecimento ao leitor Gabriel Andrade, que nos escreveu, e aos demais leitores que contribuíram com a discussão na caixa de comentários durante os últimos dias.