*Por Emmanuel do Valle e Leandro Stein

Athletico Paranaense e Internacional fazem uma prestigiada decisão da Copa do Brasil. A vaga na Libertadores e a gorda premiação são belíssimos bônus, mas os dois clubes querem mesmo a glória de um importante título nacional que enriquecerá a sala de troféus do ganhador. Nem sempre foi assim. Surgida sob desconfianças e interesses políticos, a Copa do Brasil não foi um sucesso imediato, mas deixou marcas importantes no futebol brasileiro desde sua primeira edição, realizada há 30 anos. Diante da nova final, aproveitamos para relembrar as origens do certame e também os detalhes de sua primeira temporada, que teve reconhecido o seu verdadeiro peso com o tempo.

Os antecedentes e os meandros da CBF

O rompimento dos principais clubes brasileiros com a CBF, que culminou na fundação do Clube dos Treze e na criação da Copa União, também originou (mais tarde e por linhas tortas) outro torneio que o tempo consagrou e hoje representa um troféu cobiçado pelo prestígio, assim como pelo dinheiro envolvido. A Copa do Brasil nasceu do caldeirão de conflitos políticos que borbulhava no futebol brasileiro naquela segunda metade dos anos 80.

Desde a criação do Campeonato Nacional com esta nomenclatura em 1971, o então único torneio nacional do país só fez inchar em tamanho ao longo da década de 1970. Chegou ao número absurdo de 94 equipes na edição de 1979, justamente em meses particularmente conturbados para o futebol brasileiro. Foi o ano em que a velha Confederação Brasileira de Desportos (CBD) deu lugar à atual Confederação Brasileira de Futebol, que prometia novos ares.

Eleito presidente da nova CBF no fim de 1979, o empresário Giulitte Coutinho (ex-mandatário do America carioca) pretendia reformular o torneio nacional, reduzindo o número de participantes e adotando critérios técnicos para aponta-los, pondo um fim aos convites a clubes por motivos notoriamente políticos, que havia sido prática recorrente durante as gestões João Havelange (até 1974) e Heleno Nunes (entre 1974 e 1979) na antiga CBD.

Outro objetivo de Giulitte era a criação definitiva de divisões no Campeonato Brasileiro. Assim, para 1980, foram criadas as chamadas Taça de Ouro e Taça de Prata, na prática a primeira e a segunda divisões do torneio nacional, cada qual com cerca de 40 cubes, número bem inferior aos já citados 94 da caótica edição anterior. E esses 40 seriam apontados com base na classificação final dos estaduais, com cada um tendo número proporcional de clubes.

O modelo ainda estava um tanto distante do ideal – havia soluções um tanto esdrúxulas como o acesso de um certo número de equipes da Taça de Prata à Taça de Ouro em pleno andamento dos dois torneios – mas já parecia ser algo mais racional, em contraponto à aleatoriedade de anos anteriores. E nos primeiros anos até que funcionou: o torcedor foi cativado, e as médias de público voltaram a números altos que não eram registrados desde o início dos anos 70.

No meio do caminho, porém, Giulitte viu a seleção brasileira, para a qual trabalhara com afinco, perder a Copa do Mundo de 1982 e se desiludiu. A segunda metade de sua gestão foi marcada pela repetição de erros de gestões anteriores. Até os convites reapareceram no Brasileirão: se antes os clubes grandes que não obtinham vaga na Taça de Ouro por critério técnico eram mesmo obrigados a disputar a de Prata, agora havia um certo relaxamento.

A fórmula do torneio, com várias fases de grupos antes de uma reta final em mata-mata, também começou a se desgastar. O último ano completo de sua gestão, 1985, assistiu a outro Brasileiro um tanto confuso, mas no qual já se esboçava algo que aconteceria dentro de alguns anos: na primeira fase, os 44 clubes foram divididos em quatro chaves e, em duas delas (A e B), ficaram as 20 melhores equipes do ranking nacional.

Ainda que fosse apenas uma das várias etapas daquele extenso torneio, era um embrião de um “campeonato dos grandes”, já naquele momento ambicionado pelas principais equipes do país, que se ressentiam das viagens cansativas e dos jogos deficitários contra equipes menores – resquício dos torneios dos anos 70 que o modelo de então não havia eliminado por completo. Giulitte então encerrou seu ciclo, e a CBF mudou de mãos no início de 1986.

Dois grupos disputavam a chefia da entidade sem um favorito destacado. Havia a chapa da situação, encabeçada pelo industrial João Maria Medrado Dias, e a de oposição, que trazia como candidato à presidência o vice da Federação Paulista de Futebol, Nabi Abi Chedid, e, como vice, o ex-presidente da Federação Carioca, Otávio Pinto Guimarães. No decorrer da campanha, esta composição acabou invertida, temendo um certo artigo dos estatutos.

Dizia o artigo que, em caso de empate, o candidato mais velho seria o escolhido. Otávio, 63 anos, era não só mais velho que Nabi como também um ano mais idoso que Medrado Dias. Mas esta não seria a única artimanha da oposição. Na época, a votação era feita somente entre os presidentes de federações. E o presidente da entidade do Acre, Antoniquinho Antunes, pretendia votar em Medrado, com quem tomou café no dia do pleito.

À tarde, Antoniquinho acabou “sequestrado” pela oposição para um jantar, recebeu um cheque de Cr$ 400 mil para o pagamento de obras em sua federação e mudou de ideia. Quando apareceu na CBF para votar, escolheu a oposição e foi decisivo: com a abstenção da federação amazonense, a chapa de Otávio e Nabi foi eleita por 13 votos a 12. No grupo de Medrado Dias, derrotado, um dos líderes da campanha havia sido um certo Ricardo Teixeira.

O triênio em que a CBF esteve comandada pela dupla Otávio-Nabi (1986/87/88) foi intenso e caótico. Homens de trajetórias, personalidades e ambições radicalmente diferentes unidos por força das circunstâncias, o presidente da entidade e seu vice não apenas não se entendiam como muitas vezes se contrariavam. Para piorar, o Brasileirão de 1986 havia sido tumultuado até não poder mais. E financeiramente, a confederação não andava bem.

Disto se aproveitou o grupo que criou o Clube dos Treze para se insurgir contra a CBF e assumir a organização do Brasileirão, lançando a Copa União, cuja gênese já foi contada e recontada diversas vezes graças à eterna discussão sobre o desfecho da temporada de 1987 do futebol brasileiro. E, por outro viés, disto também se aproveitou Ricardo Teixeira, o cabo eleitoral derrotado com Medrado Dias em 1986, para fazer seu nome entre a cartolagem.

O trunfo de Ricardo Teixeira

Ainda em 1986, Ricardo Teixeira deu seu ambicioso primeiro passo rumo ao poder máximo do futebol brasileiro: reuniu os presidentes de federações que haviam apoiado Medrado e os convidou a viajarem com ele, Teixeira, ao México para acompanhar a Copa do Mundo. Comenta-se que ficaram hospedados em hotéis melhores que os da delegação oficial da CBF. Dois anos depois, em junho de 1988, o empresário lançaria oficialmente sua candidatura.

No lançamento, realizado num evento em Belo Horizonte, Teixeira recebeu manifesto de apoio de 21 dos 26 presidentes de federações estaduais. Aos poucos foi costurando o apoio das demais ao ponto de chegar praticamente eleito antes da votação propriamente dita. Otávio e Nabi, que concorriam separadamente, retiraram suas candidaturas às vésperas do pleito. Sem adversários, Teixeira foi empossado em 16 de janeiro de 1989.

Desde a criação da Copa União e o enxugamento no número de participantes do Brasileirão, as federações dos estados de menor expressão ficaram descontentes por terem sido desalojadas da elite nacional. Dentro deste jogo político, Ricardo Teixeira também soube capitalizar em cima desta insatisfação, acenando com a criação de um novo torneio nacional, que voltaria a colocar frente a frente equipes de todos os estados do país.

Na manhã seguinte a sua posse, ele já se reunia com presidentes de federações para esboçar a competição, pensada como um torneio todo disputado no sistema mata-mata pelos 22 campeões estaduais (Acre e Rondônia ainda não tinham campeonato profissional, Amapá e Roraima eram territórios até o ano anterior e Tocantins havia acabado de ser desmembrado de Goiás), mais os vices dos dez estaduais com melhor média de renda.

Dias depois, quando Ricardo Teixeira anunciou o calendário brasileiro para as temporadas 1989 e 1990 ao lado do novo diretor de futebol da CBF, Eurico Miranda, lá estava a competição, batizada Copa do Brasil e que valeria ainda uma das duas vagas às quais o Brasil tinha direito na Taça Libertadores da América. Segundo Teixeira, a intenção do novo torneio era democratizar o futebol. Mas se algum clube decidisse não participar, seria severamente punido.

O calendário e a primeira fase

O calendário previa uma competição de tiro curto, toda realizada dentro de exatos 46 dias: seu início estava marcado para 19 de julho (três dias depois da decisão da Copa América, que seria disputada no país) e o encerramento para 2 de setembro (véspera do último jogo da Seleção pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1990, contra o Chile, no Maracanã. O torneio teria partidas não só nos meios de semana, mas também aos sábados e domingos.

Os dez estados que teriam também seus vices na Copa do Brasil seriam Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Santa Catarina, Pernambuco, Ceará e Goiás. Embora a inspiração declarada fosse as copas europeias, o formato não era novidade no futebol brasileiro, já que a Taça Brasil, disputada entre 1959 e 1968, também era basicamente um torneio entre campeões estaduais jogando partidas eliminatórias em ida e volta.

Meses depois, em 24 de maio, a tabela da primeira fase seria anunciada. Todas as 16 partidas de ida da etapa inicial da Copa do Brasil estavam marcadas para a noite de quarta-feira, 19 de julho, enquanto os de volta seriam realizados na tarde do sábado seguinte, dia 22. O duelo mais equilibrado seria entre Náutico e Atlético Paranaense, o único que colocava frente a frente duas equipes que disputariam a primeira divisão nacional naquele ano de 1989.

Antecipado para a tarde de quarta-feira, o jogo entre Flamengo e Paysandu no estádio da Gávea foi o primeiro da história da competição. Os rubro-negros venceram por 2 a 0 com gols de Alcindo e do centroavante Nando. À noite, a surpresa ficou por conta do Rio Negro-AM, que marcou um gol no Vasco com apenas 30 segundos, mas o jogo terminou 1 a 1. Na volta, em São Januário, os cruzmaltinos venceram por 2 a 1 e avançaram às oitavas.

Outra novidade que a Copa do Brasil apresentou aos torcedores daqui foi o critério de desempate pelos gols marcados como visitante. E curiosamente, os beneficiados pelo gol qualificado naquela primeira fase do torneio foram dois clubes grandes para avançarem em disputas nas quais eram francos favoritos, mas que se mostraram apertadas: o Corinthians, campeão paulista, diante do Sampaio Correa e o Cruzeiro contra o Botafogo-PB. Enquanto os cruzeirenses avançaram graças ao empate por 1 a 1 na Paraíba, após o 0 a 0 em Minas, os corintianos foram derrotados por 3 a 2 no Maranhão, mas passaram pelo 1 a 0 em São Paulo.

Alguns tumultos nas oitavas

As oitavas de final teriam outros episódios peculiares. O Grêmio sequer precisou disputar o jogo de volta com o Mixto. Após o triunfo por 5 a 0 em Cuiabá, o Tricolor ganhou o segundo jogo por W.O., já que os mato-grossenses perderam o voo rumo a Porto Alegre – com uma parcela de culpa da CBF. A partida teve dois adiamentos e às vésperas do novo embarque é que a entidade enviou as passagens, sem que o time conseguisse viajar a tempo. Cogitou-se até mesmo o fretamento de um avião, o que não aconteceu. Além da derrota, o Mixto perdeu a cota relativa ao jogo. A CBF, entretanto, preferiu não punir o clube ao alegar “motivo de força maior”.

Então técnico do Flamengo, Telê Santana vociferou contra os constantes deslocamentos e as desgastantes viagens em poucos dias. E o problema não foi exclusivo do Mixto. Na fase anterior, o jogo entre Corinthians e Sampaio Corrêa em São Paulo teve seu pontapé inicial adiado em um dia, depois que o desembarque dos maranhenses em São Paulo atrasou. O presidente corintiano Vicente Matheus chegou a ameaçar o boicote de seu clube à competição, diante do impasse na remarcação, mas chegou-se a um denominador comum.

Bahia e Vitória encararam outro tipo de entrave. O gramado da Fonte Nova estava em péssimo estado após a realização da Copa América e os dois times precisaram solicitar com urgência que os compromissos contra Cruzeiro e Vasco, respectivamente, fossem transferidos a Feira de Santana. A CBF acatou, apesar das ameaças de interdição da Fonte Nova feitas por Eurico Miranda, então diretor de futebol da entidade nacional – em postura que também servia de represália às vaias direcionadas à Seleção na cidade durante a Copa América. Mesmo longe de casa, os baianos se deram bem. O Vitória empatou como mandante, mas buscou a classificação sobre os vascaínos no Rio de Janeiro. Já o Bahia conseguiu reverter o revés em Belo Horizonte e despachou os cruzeirenses com o triunfo por 2 a 0.

A maioria dos favoritos se impôs nas oitavas. O Corinthians atropelou o Tiradentes-DF por 5 a 0, apesar da derrota por 1 a 0 na volta; o Flamengo venceu as duas contra o Blumenau por 3 a 1; o Sport superou o Guarani e o Atlético Mineiro despachou o Náutico. A grande surpresa ficou por conta do Goiás, que segurou o empate sem gols no Beira-Rio e goleou por 4 a 0 no reencontro dentro do Serra Dourada. Túlio e Uidemar balançaram as redes naquela ocasião pelos esmeraldinos – curiosamente, treinados por Gainete, antigo ídolo colorado. O resultado provocou uma crise no Inter e a diretoria colocou cinco jogadores a venda, inclusive Luis Carlos Winck, acusando-os de corpo mole. O lateral acabaria pouco depois no Vasco.

O primeiro grande clássico nacional

As quartas de final proporcionaram o primeiro jogo de projeção nacional daquela Copa do Brasil: Flamengo e Corinthians disputavam uma vaga na próxima fase. Mas engana-se quem pensa que o encontro entre as duas maiores torcidas do país foi suficiente para esquentar a competição. Os compromissos da Seleção nas Eliminatórias provocaram desfalques, sobretudo no Fla – em tempos tumultuados também pela saída de Bebeto ao Vasco. Além do mais, apenas 10 mil pagantes compareceram ao Maracanã na noite de quarta, para a ida. Os rubro-negros venceram por 2 a 0, gols de Zico e Nando.

O baixo público gerou críticas de diferentes partes. João Saldanha foi duro em suas palavras na coluna publicada pelo Jornal do Brasil: “A noite estava bonita, o preço inflacionado, mas acessível. Dez mil é pouca gente. Por que? Penso que a principal causa está na inoportunidade do jogo. Em segundo lugar vem que ninguém está dando bola para esta competição, que apenas paga compromissos eleitorais do futebol. Como se vê, estão brincando com coisa muito séria, e no país que leva 150 mil pessoas num jogo há apenas duas semanas, no mesmo Maracanã”.

“Nosso futebol, o mais rico do mundo, é uma esculhambação organizada. Tais competições fazem parte de uma política clientelista, tráfico de regabofes, viagens caras, estádios vazios, onde só lucram o dono do hotel, o dono do avião e a cartolagem que troca figurinhas promocionais. Daí, o Maracanã dez mil”, concluía Saldanha, no final de seu artigo. Não estava sozinho. Publicamente, Zico chamou o torneio de “caça-níquel”. A CBF estudou suspender o craque por suas palavras.

Na volta do Corinthians x Flamengo, o público paulista correspondeu melhor à ocasião. Mais de 36 mil torcedores foram ao Pacaembu, num jogo que também marcou o retorno de Júnior ao Fla. O Maestro seria importante. Apesar da derrota por 4 a 2, os rubro-negros avançaram graças aos gols anotados fora de casa. Neto chegou a balançar as redes duas vezes, incluindo um gol olímpico, e os corintianos tinham a classificação nas mãos até os 42 do segundo tempo. Foi justamente Júnior quem marcou para garantir a festa rubro-negra.

Outro jogo de peso aconteceu entre Grêmio e Bahia. O primeiro duelo também foi cogitado em Feira de Santana, não só pelas condições ainda ruins do gramado na Fonte Nova, mas também por uma greve de ônibus que paralisou Salvador. A ida terminou por acontecer na própria capital e os gaúchos se deram melhor. Cuca e Kita fizeram os gols na vitória por 2 a 0. A classificação foi consumada no Olímpico, com o triunfo por 1 a 0, tento de Edinho.

Já na chave oposta, Sport e Goiás surgiram como desafiantes. Os esmeraldinos provaram sua força ao eliminar também o Atlético Mineiro. Túlio outra vez foi decisivo na vitória por 3 a 0 no Serra Dourada, suficiente apesar dos 2 a 0 aplicados pelo Galo em Belo Horizonte. O Vitória, por sua vez, até venceu a ida contra o Sport por 1 a 0. Os pernambucanos conseguiram reverter a situação na Ilha do Retiro com o triunfo por 2 a 0, gols de Rogério e Barbosa.

Uma goleada histórica nas semifinais

Goiás e Sport fizeram uma semifinal parelha. Os esmeraldinos venceram a partida de ida por 2 a 1. Túlio Maravilha estava impossível e abriu o placar. Os rubro-negros empataram ainda no primeiro tempo, a partir de um chute desviado de Joécio. Mas o herói da noite seria o atacante Valdo, que saiu do banco no lugar de Túlio e concluiu o placar. O gol fora de casa, porém, se provaria valiosíssimo ao Leão da Ilha. Com arquibancadas cheias na Ilha do Retiro, o Leão foi melhor e garantiu a vitória por 1 a 0 no segundo tempo. Aírton marcou de cabeça o gol decisivo, que botou os pernambucanos na final.

Bem mais movimentados seriam os confrontos entre Grêmio e Flamengo. A primeira partida aconteceu no Maracanã e os rubro-negros desperdiçaram uma chance de ouro. No primeiro jogo de Zico e Júnior juntos neste retorno do Maestro, o Fla abriu dois gols de vantagem com apenas 15 minutos. Nando e Sérgio Araújo balançaram as redes. Como se não bastasse, Zico ainda carimbou o travessão. O problema é que os erros sucessivos da defesa permitiram o empate gremista. Paulo Egídio descontou no primeiro tempo e Luís Eduardo determinou o empate por 2 a 2, que deixava os gremistas vivíssimos.

O que não se esperava era o massacre aplicado pelo Grêmio no Olímpico: 6 a 1. Zico era desfalque, o que não serve para explicar a derrota acachapante do Flamengo. Cuca abriu o placar no primeiro tempo. Nos cinco minutos iniciais da etapa complementar, Paulo Egídio e Almir ampliaram. Já o show ficou para a sequência. Cuca anotou um golaço por cobertura aos 28 e, aos 31, Paulo Egídio destruiu a defesa adversária ao arrancar desde o meio-campo. Renato Carioca até descontou ao Fla, mas Assis concluiu o triunfo gremista. O irmão do Ronaldinho, aliás, teve atuação espetacular naquela tarde. O garoto de 18 anos infernizou a defesa adversária com seus dribles e deu três assistências. Telê deixou a Gávea um mês depois.

Apesar da goleada sobre o Flamengo, o Grêmio mantinha os pés no chão. O técnico Cláudio Duarte esperava partidas duras contra o Sport na decisão. “É um time bem preparado, que certamente nos dará muito trabalho. Os times crescem quando chega o salve-se quem puder. Todo mundo quer ganhar o título”, avaliou o comandante. Do outro lado, o técnico Nereu Pinheiro prometia uma atuação destemida do Leão. “O Grêmio é um grande time, mas não me assusta. Nas conversas que tenho com meus jogadores, procuro mostrar-lhes que o futebol brasileiro está nivelado, não dá para temer um jogo contra A ou B”, analisou. A primeira partida da decisão, na Ilha do Retiro, aconteceu uma semana depois da volta das semifinais.

A primeira decisão da Copa do Brasil

Técnico no pentacampeonato gaúcho em junho, Cláudio Duarte treinava um Grêmio equilibrado. A defesa, liderada pelo ídolo Mazarópi, tinha bastante experiência. O veterano Edinho chegara do Fluminense meses antes e portava a braçadeira de capitão. Era acompanhado por Luís Eduardo no miolo da zaga, enquanto Alfinete e Hélcio ocupavam as laterais. No meio, Jandir e Lino davam a sustentação, enquanto Cuca se responsabilizava pela ligação, para que Assis tivesse liberdade para voar na ponta. Já na frente, Paulo Egídio vivia grande fase técnica, após chegar do futebol português. Acompanhava o rodado Kita, que se lesionou às vésperas da decisão e foi suplantado por Nando – com passado na Ilha do Retiro.

O Sport, por outro lado, possuía bem menos badalação ao seu redor. Os rubro-negros não haviam alcançado as finais do Campeonato Pernambucano e carregavam uma natural desconfiança. O técnico Nereu Pinheiro começou a campanha na Copa do Brasil como interino, até ser efetivado durante a competição. Entre as referências da equipe estavam o goleiro Rafael Camarota, campeão brasileiro com o Coritiba em 1985; o lateral Betão, que chegou à Seleção, antes de desembarcar em Recife em 1985; o zagueiro Aílton, que seria Bola de Prata no Brasileirão de 1992; o volante Rogério, um dos raros remanescentes do Brasileiro de 1987; e o atacante Marcus Vinícius, que surgiu bem com a camisa do Atlético Mineiro.

Na partida de ida, o Grêmio precisou lidar com a pressão na Ilha do Retiro. Mais de 36 mil torcedores encheram as arquibancadas para empurrar o Sport. O Tricolor, no entanto, cumpriu os seus planos ao segurar o empate por 0 a 0 fora de casa. O Leão pressionou mais, sem aproveitar as jogadas pelas pontas. Do outro lado, quando Nando teve a chance, parou em Rafael Camarota. Já no segundo tempo, o abafa pernambucano se intensificou. Edson carimbou o travessão de Mazarópi, enquanto Marcus Vinicius mandou uma bicicleta por cima. Os gremistas só responderiam no final, quando o volante André bateu e Rafael espalmou. O volante Lino, com muita entrega na cabeça de área gremista, terminou como o melhor em campo.

O Olímpico recebeu 62 mil torcedores para a segunda partida, na semana seguinte. O Grêmio contava com o retorno de Jandir no meio-campo, após ser substituído por André, enquanto o apoiador Joécio, que precisou ser substituído em Recife por machucar o olho, estava mantido na escalação titular do Sport. E, saindo mais para o ataque, os tricolores provaram o seu favoritismo. Apesar do empate com gols pender aos rubro-negros, o time da casa buscou a vitória por 2 a 1 e o capitão Edinho pôde erguer a inédita taça.

O Grêmio abriu o placar aos nove minutos. Grande destaque naquela campanha, Assis aproveitou uma sobra de bola na entrada da área e chutou forte, tirando do alcance de Rafael. O gol de empate saiu aos 31 minutos. Após escanteio cobrado por Aírton pela direita, Mazarópi falhou feio e socou o cruzamento fechado contra a própria meta. Apesar do erro clamoroso do veterano, a torcida gremista ofereceu todo o seu apoio e gritou o nome de Mazarópi. Deu confiança para que os tricolores, melhores até então, pudessem se reerguer.

O gol do título saiu aos seis minutos do segundo tempo. O zagueiro Luís Eduardo avançou pelo meio e fez o lançamento. Lino não conseguiu completar, mas a bola sobrou limpa para Cuca encher o pé. O meia era dúvida antes do jogo, por problemas estomacais, e terminou como herói do título. Paulo Egídio poderia ter feito o terceiro, ao tentar encobrir Rafael, mas o veterano realizou uma defesaça, em bola que ainda tocou no travessão. Já no final, o sufoco imposto pelo Sport não deu resultado. Precisando de um gol, o Leão parou em Mazarópi. Betão ainda foi expulso nos acréscimos, ao reclamar de um pênalti.

Aquela conquista, por mais que tivesse uma dimensão contida ao restante do país, ignorada inclusive por parte da imprensa de outros estados, seria mais valorizada com o tempo. O Grêmio, além de se classificar à Copa Libertadores de 1990, começou a construir sua dinastia na Copa do Brasil. Paulatinamente, o torneio recebeu a merecida consideração e um interesse maior. Os problemas de organização se reduziram e, de fato, a Copa do Brasil se sustenta como o certame mais plural do país. A aposta feita há 30 anos, apesar de toda a politicagem envolvida, alcançou o sucesso.