Boca Juniors e River Plate, River Plate e Boca Juniors. Imagine você, sendo torcedor de qualquer outro clube da Argentina, ao acompanhar o noticiário dessa semana pós-apocalíptica por conta da final que não aconteceu. Se aqui no Brasil o assunto já anda enchendo a paciência, ainda mais diante das patacoadas lideradas pela Conmebol, a irritação se nota bem mais entre os “neutros” argentinos. Criaram até um tal de “Bover”, uma fusão para representar o senso de injustiça que os ronda diante dos gigantes. Pois a vingança de todos os  outros tomou forma graças ao Gimnasia de La Plata, um clube tantas vezes considerado como o mais azarado do país, que não conquista um título expressivo desde o longínquo Campeonato Argentino de 1929. O Lobo arregaçou as mangas e se encarregou de despachar o River Plate da Copa Argentina, se classificando à final. Em uma semifinal eletrizante disputada em Mar del Plata, buscou o empate por 2 a 2 e conquistou a vitória nos pênaltis. O regozijo se compartilha além.

Antes de falar sobre o jogo, vale um parênteses para dimensionar o quão sofrido é o Gimnasia. Seu conquista em 1929 é representativa, claro. Mas não tanto assim, numa era anterior ao profissionalismo e em um campeonato tumultuado por conta da disputa da Copa América, no qual a federação precisou adaptar a fórmula da liga. Fato é que, mesmo quando contou com grandes times, o clube de La Plata derrapou na reta final do Campeonato Argentino – sobretudo a partir dos anos 1990. E isso vendo o rival Estudiantes se tornar um gigante continental, dono de quatro Libertadores. No máximo, a equipe faturou uma “Copa Centenário”, torneio organizado pela AFA em 1993, que só acaba sendo lembrado pelos gimnasistas – ou pelos rivais que desejam menosprezá-los. Entre as frustrações mais recentes, havia inclusive a queda nas semifinais da Copa Argentina de 2016 para o próprio River Plate.

Por isso mesmo, o jogo no Estádio José María Minella (nomeado em homenagem ao meio-campista que foi campeão tanto por Gimnasia quanto por River, coincidentemente) tinha um peso tão grande. E o Gimnasia não deixaria a oportunidade passar, ainda mais enfrentando um adversário com o psicológico em frangalhos. O River Plate pode ter se poupado do cansaço do jogo ou mesmo do peso emocional caso saísse derrotado. De qualquer maneira, o desgaste mental do time de Marcelo Gallardo deve ter sido grande ao longo dos últimos dias, entre esperas e idas inúteis ao Monumental. Agora, faria um jogo decisivo e que se configurava como a última oportunidade aos millonarios assegurarem a classificação à Libertadores 2019 através das competições domésticas.

Gallardo usou contra o Gimnasia justamente a escalação pensada para o duelo contra o Boca Juniors. Não deu o resultado esperado. Apesar do domínio do River, o clube pouco criou ocasiões. O primeiro gol saiu apenas aos 38 minutos, em uma cobrança de falta de Pity Martínez. Mas quatro minutos depois veio o empate, com Lorenzo Faravelli aproveitando o vacilo de Franco Armani na saída do gol. Lucas Pratto voltou a colocar os millonarios em vantagem no início do segundo tempo, até que a cabeçada do interminável Santiago Silva contasse com a benevolência de Armani para entrar aos 15 minutos. Entre o fim de uma etapa e o início da outra, Ezequiel Bonifacio e Javier Pinola foram expulsos em momentos diferentes, deixando ambas as equipes com dez.

Na marca da cal, melhor à precisão do Gimnasia. Santiago Silva fez o primeiro, enquanto Pratto carimbou o travessão. Todos iam acertando até Victor Hugo Ayala desperdiçar a quarta cobrança do Gimnasia, pega por Armani. A peleja seguiu às alternadas. E foi então que Germán Guiffrey converteu a cobrança que deu a vitória por 5 a 4 ao seu time, antes que Jonathan Maidana desperdiçasse para o River, mandando por cima da meta. Agora, os millonarios também precisarão ganhar do Boca Juniors (se o jogo acontecer) se quiserem estar presentes na Libertadores 2019. Sabor de vingança “aos outros” do futebol argentino, até pelos benefícios que circundam os gigantes.

Cabe ainda uma menção curiosa ao que aconteceu nas arquibancadas. Depois do imbróglio envolvendo ingressos desviados à superfinal e a prisão de um de seus líderes com uma fortuna em dinheiro, a barra brava do River Plate não compareceu às arquibancadas em Mar del Plata. De qualquer maneira, a maioria dos cânticos dos millonarios falavam sobre a final da Libertadores, seja para provocar o Boca, seja para chamar os rivais ao jogo. Só não deu muito certo quando o time não correspondeu em outro jogo importante que acontecia em campo.

O Gimnasia faz uma campanha gigantesca na Copa Argentina. Além do River Plate, também havia eliminado o Boca Juniors nas oitavas de final, com um gol aos 45 do segundo tempo. E a chance de ganhar seu título mais relevante em quase 90 anos virá contra o Rosario Central, atual tri-vice da competição nacional. A partida decisiva acontecerá em Mendoza. Certamente a chance de uma taça significativa a qualquer um dos clubes, podendo oferecer manchetes além do duopólio à imprensa local. É hora de olhar para frente.