Durou apenas uma edição a iniciativa da CAF de transferir a Copa Africana de Nações para o meio do ano e, por consequência, não prejudicar diversos clubes (sobretudo europeus) durante a temporada. Nesta quarta, a federação camaronesa confirmou que a próxima edição da competição será realizada entre janeiro e fevereiro. O país, que deveria sediar a CAN em 2019, assumiu a organização rumo a 2021. Segundo os dirigentes, “as condições climáticas do país entre junho e julho são desfavoráveis” – embora outras razões pareçam existir nos bastidores.

Durante esta semana, dirigentes da CAF estiveram presentes para vistoriar os estádios de Camarões e bater o martelo sobre a CAN 2021. O país havia perdido o direito de receber a competição em novembro de 2018 por conta do atraso nas obras e também por movimentos separatistas que geravam o temor quanto à segurança. No entanto, não existia nenhuma conversa sobre problemas climáticos quanto à realização, a sete meses de seu pontapé inicial.

“Alteramos o período da competição, conforme requisitado pela federação camaronesa, por causa das condições climáticas desfavoráveis durante o período inicialmente previsto. Depois de ouvir vários argumentos e pontos de vista, em particular das autoridades meteorológicas de Camarões, de treinadores e de jogadores, os representantes do comitê de organização atenderam ao pedido. Um relatório detalhado deve ser apresentado aos membros do Comitê Executivo durante a próxima sessão”, declarou Tony Baffoe, vice-secretário geral da CAF.

O ponto primordial quanto a Copa Africana em junho e julho se concentra sobre a temporada de chuvas em Camarões. Algumas regiões camaronesas chegam a registrar médias de 20 dias de chuvas ao longo destes meses, com as tempestades atrapalhando o andamento das partidas e as condições dos gramados. Assim, a CAF viu o argumento como suficiente para justificar o remanejamento do torneio.

Todavia, há chances razoáveis de que um conflito de interesses tenha ocorrido nos bastidores. A Fifa marcou o primeiro Mundial de Clubes com 24 equipes também para junho e julho de 2021. A competição acontecerá na China e corria o risco de gerar uma queda de braço pela liberação dos jogadores, sobretudo dos clubes africanos. A CAF antecipa-se da enrascada, ao reagendar a CAN para o início do mesmo ano. E o detalhe é que, até o próximo mês de fevereiro, a confederação africana está sob intervenção direta da Fifa. Talvez por isso a federação camaronesa tenha se encarregado da notícia, para indicar certa “independência” da organização.

Em contrapartida, há outras partes que deverão ser prejudicadas – em especial, os times europeus, que questionam o novo Mundial de Clubes. Ao longo das últimas décadas, a CAN desfalcou diferentes equipes da Europa em suas edições bienais, sobretudo franceses e ingleses. O assunto voltará à tona no início de 2021, e de maneira ainda mais agressiva, já que o torneio continental expandiu seu número de participantes para 24 na última edição. Em 2019, foram 317 atletas cedidos por clubes europeus, sendo 178 em atividade nas ligas de França, Inglaterra, Espanha, Alemanha ou Itália. O Rennes chegou a liberar sete atletas, recorde entre os europeus. As diretorias terão que considerar mais uma vez este fator em seus planejamentos.