O Atlético Mineiro não precisou esperar muito tempo para anunciar o seu novo treinador à sequência da temporada, após demitir Rafael Dudamel na última semana. O Galo fechou com Jorge Sampaoli, um sonho de consumo antigo, que estava disponível no mercado. Neste domingo, os atleticanos divulgaram o acordo com o argentino, que deverá assumir a equipe depois do clássico contra o Cruzeiro. O novo comandante ganhará contrato até dezembro de 2021 e recebeu a promessa de que reforços virão, para tornar o elenco mais competitivo rumo ao Campeonato Brasileiro – a principal competição que resta aos mineiros, após as quedas precoces na Copa Sul-Americana e na Copa do Brasil.

Sem dúvidas, o Atlético Mineiro ganha um treinador para elevar o nível competitivo de seu time. O que Sampaoli fez à frente do Santos fica marcado e serviu de motivação à aposta do Galo. Indo além das eliminações, Dudamel também encontrou dificuldades para exibir um padrão de jogo e isso contribuiu à sua demissão precoce. Sampaoli é um técnico de carreira bem mais consolidada e ideias mais claras. Terá agora que reerguer a equipe, que já acumula decepções neste início de 2020.

As maiores dúvidas não se concentram na capacidade de Sampaoli em si, mas naquilo que o circunda. Primeiro, pela própria personalidade do treinador. O Atlético Mineiro, neste momento, parece surgir como uma alternativa a quem não fez o negócio que realmente desejava. Entre o interesse do Santos em renovar o vínculo de seu treinador e a oferta para se mudar ao Palmeiras, o argentino realizou pedidas irreais para ambos os clubes cobrirem. Havia uma indisposição com a diretoria do Peixe, assim como Sampaoli também não se indicava tão empolgado para trabalhar no Allianz Parque. Jogou o sarrafo lá em cima, sem que ninguém o contratasse para o início da temporada. O próprio Galo tentou entrar na jogada, igualmente sem sucesso nas negociações.

Dois meses depois, o Atlético ainda não parece o cenário dos sonhos a Sampaoli. O clube já encerrou sua participação em duas competições importantes e seu elenco possui diversas lacunas a resolver. Nem todos os reforços contratados até o momento estrearam, e isso pesou contra Dudamel. Porém, não se sugere que o Galo dará um salto de desempenho tão grande assim, mesmo se todos os jogadores confirmados estiverem à disposição. Nas tratativas, a diretoria concordou em trazer cinco novos atletas para deixar os atleticanos em condições de “tentar competir com o Flamengo”. Mas, agora, o abismo não é simples de se resolver.

Até porque a própria direção do Atlético Mineiro contribui a tal instabilidade do clube. A gestão de Sérgio Sette Câmara tem sido bastante criticada por suas escolhas e a demissão de Dudamel, ao lado do diretor de futebol e do gerente de futebol, parecia um escudo à falta de perspectiva mais ampla. O comando do Galo gasta a sua “bala de prata” com a vinda de Sampaoli. Mas, para tanto, precisará atender suas demandas e abrir alas para que o trabalho à beira do campo seja realizado sem grandes interferências.

E será importante ao Atlético Mineiro ter consciência de que este não é o momento de cometer loucuras para salvar a lavoura. Por mais que a chegada de Sampaoli represente uma oportunidade e que o elenco necessite de reforços, o Galo também precisa ter suas finanças sob controle. O que aconteceu ao lado, com o rival Cruzeiro, é mais do que uma lição. Segundo o jornalista Paulo Vinícius Coelho, em seu blog no Globo Esporte, os atleticanos contaram com a ajuda de investidores para arcar com os custos de Sampaoli e sua comissão técnica. Caberá à direção e ao próprio treinador buscarem a sustentabilidade do projeto, sem que a tentativa de melhorar o presente não comprometa o futuro.

Sampaoli já tinha conversado com o Atlético antes da contratação de Dudamel, mas o negócio não vingou. Desta vez, o aperto de mãos acontece com direito a uma cláusula “anti-demissão”, importante dentro de um clube que não demonstra muita paciência com os seus últimos treinadores. Ao menos, as maiores pressões já passaram e há tempo para que o argentino desenvolva seu trabalho visando uma boa campanha no Campeonato Brasileiro. Desta maneira, ele também se protege das intempéries costumeiras no futebol brasileiro, blindado das maiores cobranças – que já recaíram sobre Dudamel.

É normal questionar a falta de paciência do Galo com Dudamel. Em apenas dois meses, o venezuelano foi de grande aposta a um treinador demitido sem muitas cerimônias. A eliminação contra um adversário da quarta divisão, que participa pela primeira vez da Copa do Brasil, explica a decisão da diretoria. E, ante a falta de consistência que ainda não apresentava perspectivas de evolução, escolher Dudamel como bode expiatório era um passo mais do que óbvio. Sobretudo quando o verdadeiro treinador pretendido seguia ao alcance.

Se alguns torcedores atleticanos já temiam um cenário caótico no Brasileirão, após as péssimas atuações contra Afogados da Ingazeira e Unión Santa Fe, a contratação de Sampaoli resgata um pouco mais a esperança. Contar com um treinador do calibre do argentino é praticamente uma garantia de segurança ao time. Todavia, o Galo também precisa ter consciência de que nem tudo se resolve num passe de mágica. A colaboração geral neste momento será essencial, após tantos problemas recorrentes nos últimos meses.