Daniel Alves ainda era menino na Bahia quando se tornou torcedor do São Paulo. É tricolor “desde pequenininho”, segundo suas próprias palavras. Na época em que os são-paulinos conquistavam o bicampeonato mundial, durante o início da década de 1990, o garoto via aquele timaço na televisão e deixava que inspirasse os seus sonhos. Cafu era um exemplo óbvio a Daniel e virou um norte à carreira do futuro lateral direito. Raí, o craque daqueles tempos, certamente recebia a idolatria do baianinho. E todo esse passado se torna mais simbólico diante do anúncio desta quinta-feira, quando o Tricolor pôde encher a boca para dizer: aos 36 anos, Daniel Alves é o novo reforço do Morumbi. Vestirá a camisa 10.

O impacto do novo símbolo do São Paulo é imenso, independentemente de sua carreira já se encaminhar ao final. Mais do que um jogador vitoriosíssimo, com um currículo único de troféus erguidos, os tricolores também ganham um craque que segue em ótima forma. O desempenho excepcional na última Copa América, em que o capitão da seleção brasileira mereceu bastante o prêmio de melhor jogador, fatalmente impulsiona a empolgação dos são-paulinos. Dani chega para liderar e, esperam os torcedores, também para gastar a bola. Não deixa de ser uma ótima notícia ao próprio sentimento de grandeza do clube.

Daniel Alves, afinal, tem o lastro do negócio estelar que só acontece de tempos em tempos no futebol brasileiro. Que, talvez, não causasse tamanho impacto desde a vinda de Ronaldinho ao Flamengo ou de Seedorf ao Botafogo. Esta janela de transferências na Série A acaba marcada pelo retorno de laterais de sucesso na Europa. Adriano até namorou com o São Paulo, mas fechou com o Athletico Paranaense, pouco antes de Filipe Luís assinar com o Flamengo e se juntar a Rafinha. Com todo o respeito, nenhum deles compara-se ao alto nível e à trajetória que Dani construiu dentro das quatro linhas. E nenhum com perspectivas tão boas de emplacar como ídolo.

O São Paulo acerta múltiplas vezes com uma só contratação. A mais básica questão é por ocupar a lacuna existente na lateral direita, um problema da equipe há tempos. Seja pela idade ou mesmo pelo número 10, as expectativas são de que Daniel Alves avance ao meio com o passar dos meses, mas no momento Cuca ganha uma solução imediata. E os tricolores não terão um jogador qualquer no setor, sim aquele que pode influenciar todo o funcionamento da engrenagem. Verão um cara que poderá organizar o jogo a partir da defesa e que possui imensa capacidade no apoio, seja para criar jogadas de perigo ou mesmo para anotar gols. Ainda que não viesse de uma temporada tão reluzente com o Paris Saint-Germain, pelo que se viu durante a Copa América, o veterano está em forma para continuar voando no Brasileirão.

Mais do que isso, o São Paulo ganha um líder. E, em momentos tão tortuosos no Morumbi, de decepções recorrentes e derrotas em clássicos, talvez não houvesse um jogador brasileiro disponível que pudesse representar tanto uma mudança de mentalidade quanto Daniel Alves. É um vencedor em sua essência. É a referência que os são-paulinos não tinham em campo desde a aposentadoria de Rogério Ceni. Uma contratação desse calibre transforma-se em um sinal irrefutável da ambição tricolor.

Pode ser que Daniel Alves não cumpra tantas expectativas e que seu estilo extravagante não dê certo no Morumbi. Sempre há um risco, claro. Mas entre os riscos que o São Paulo poderia assumir, este é o melhor possível, porque o veterano tende muito mais a agregar. Em um clube que historicamente se valeu das grandes contratações para garantir o sucesso, algo que começa na própria ascensão com Leônidas da Silva, o lateral se candidata a uma galeria seleta de lendas. Dependerá dos efeitos que gerar. Todavia, entre sua qualidade técnica, sua maneira de encarar os objetivos e sua própria vontade em defender o clube de coração, os elementos conspirando a favor são mais numerosos.

O próprio contrato assinado por Daniel Alves traz um bom indício do que o lateral deseja no Morumbi. Aos 36 anos, o veterano assinou por três temporadas. Jogará no clube até 2022. Em outras partes do mundo, dificilmente receberia um vínculo tão longo. Três anos é justamente o tempo que falta à próxima Copa do Mundo, uma clara meta, sobretudo diante da maneira como o defensor acabou se ausentando em 2018, por conta de uma grave lesão. Pelo profissionalismo de Dani e por sua própria capacidade física, está longe de parecer um sonho impossível, inclusive pela maneira como o astro sobra entre os seus concorrentes na lateral direita canarinho. O São Paulo servirá de meio para que chegue até o Catar.

Durante os últimos meses, o nome de Daniel Alves chegou a ser especulado por vários clubes. Sem contrato com o PSG, virou um alvo atrativo a outras equipes fortes da Europa – incluindo Manchester City, Arsenal e Tottenham. Seu desejo manifesto era voltar ao Barcelona ou então à Juventus, o que não tinha tanta abertura. Ao mesmo tempo, o São Paulo se adiantou na mesa de negociações. Desde a preparação da Seleção à Copa América, feita no CT da Barra Funda, começou a apresentar um projeto ao seu torcedor ilustre e tentava convencê-lo de uma relação de longo prazo, que o mantivesse em ótima vitrine. Além do apelo ao coração tricolor, o fato de seus filhos morarem em Alphaville também contribuía. Além do mais, era o próprio diretor executivo Raí, o antigo ídolo que passava na TV da Bahia, quem se encarregava de convencer o herdeiro à camisa 10.

Até dava para imaginar que as tratativas se arrastariam rumo ao fim da janela europeia, levando em conta as possibilidades ainda existentes. O empresário de Daniel Alves estava na Europa, enquanto o jogador passava férias no Nordeste. Contudo, diante das cartas na mesa, o acerto final acabou concluído rapidamente a favor dos tricolores. O salário de Dani será altíssimo, estimado em mais de R$1 milhão por mês, e dependerá de parceiras com empresas para ser viabilizado. Mas não há dúvidas de que o leque de opções tinha outros atrativos ao atleta, seja para ganhar mais em mercados alternativos ou para seguir em ligas maiores na Europa. Assim, a opção pessoal na escolha pelo São Paulo valoriza o fato. O defensor preferiu o time de infância, e é isso que mais orgulha os são-paulinos.

Apesar do ônus nas finanças, o investimento pode se alavancar de diferentes maneiras, seja pela venda de produtos oficiais, seja pelo aumento de público no Morumbi, seja pela maior exposição internacional da marca. Acima de tudo, o negócio precisará ser bem amarrado pela diretoria com os tais parceiros, para que renda independentemente dos efeitos em campo. E o primeiro ganho do São Paulo é na própria auto-estima. Basta ver a reação da maioria dos tricolores após o anúncio. Reflete não apenas a adição de um gigante como Daniel Alves, como também o prestígio contido na decisão do lateral e o próprio gosto de se dizer acima dos demais clubes brasileiros com uma transferência desta magnitude.

Talvez seja apenas o início de um terremoto a mudar o horizonte são-paulino. É isso que os torcedores esperam, e a conquista de títulos se torna fundamental para referendar tal sucesso. Mesmo em um clube tão vencedor, a imagem de um jogador como Daniel Alves transcende. É justamente o que remete à tradição do clube, construída a partir de grandes ídolos. Alguns deles, que o baiano aprendeu a admirar ainda pequenininho e que influenciaram o anúncio soberano feito no Morumbi.