Há duas semanas, pela 13ª rodada do Campeonato Holandês, o Twente foi a Roterdã, para enfrentar o Feyenoord. Só a goleada que levou (5 a 0) seria um símbolo dos tempos nebulosos que vive o clube de Enschede. Mas houve outro evento mais simbólico ainda, no mesmo jogo. Aos 29 minutos do segundo tempo, com o placar já em 4 a 0, o atacante Tim Hölscher entrou no lugar do volante Jelle van der Heyden. Após 49 segundos, Hölscher já não estava mais em campo. Dera um carrinho no lateral direito Rick Karsdorp, do Feyenoord, e recebera o cartão vermelho direto. Não foi a expulsão mais rápida da história da Eredivisie, mas foi um fecho para o vexame.

VEJA TAMBÉM: O médico e o monstro: PSV sofre de dupla personalidade na temporada

Parecia que a crise não podia ficar pior, nem mais séria. Mas ficou. Na terça-feira, 24 de novembro, a história da decadência veloz dos Tukkers ganhou mais um capítulo. O site Football Leaks vazou um contrato entre a agremiação e a Doyen Sports Investments, fundo de investimentos com sede em Malta. O acordo fechado em fevereiro de 2014 (que você pode ler aqui na íntegra, em inglês) diz que a Doyen teria, e tem, direito à comissão na venda de alguns jogadores do elenco dos Tukkers. Dois deles se transferiram ainda em 2014: Quincy Promes e Dusan Tadic. Mais três foram vendidos na última janela: Luc Castaignos, Bilal Ould-Chikh e Younes Mokhtar.

O problema está nos dois que seguem sob contrato com o Twente: os volantes Shadrach Eghan e Kyle Ebecilio. Caso não sejam vendidos, o clube teria de pagar à Doyen uma multa por cada um: Ebecilio, atualmente emprestado ao Nottingham Forest, valeria 780 mil euros ao grupo de investimentos, enquanto Eghan, reserva na equipe holandesa, custaria 650 mil euros ao Tukkers. Porém, o regulamento da FIFA para transferências é claro: um fundo de investimentos não pode ter direitos sobre jogador algum.

Resultado: a comissão de licenciamento da KNVB, a federação holandesa, já advertiu que investigará os procedimentos surgidos do contrato. Dependendo das conclusões, em caso de punição, o Twente pode perder pontos no campeonato atual, no mínimo. Ou pode até ter cassada a licença profissional para disputar competições, no máximo. O vazamento do contrato com a Doyen foi tão destrutivo para a diretoria do clube que Aldo van der Laan, presidente interino, renunciou ao cargo na mesma terça da revelação.

VEJA TAMBÉM: Ajax decidiu seguir caminho diferente. E agora?

A história mal explicada com a Doyen é mais um capítulo numa história que começou a eclodir ainda em 2014. Ela já foi abordada por esta coluna neste ano, duas vezes, em 6 de março e 11 de setembro. A via-crúcis seguiu na 14ª rodada, sábado passado, a torcida dos Tukkers lotou o estádio para o jogo contra o Willem II, após pedido do diretor financeiro, Gerard van der Belt, que foi definitivo em nota divulgada no site oficial do clube: “O Twente se encontra na fase mais difícil de seus cinquenta anos de história”.

De nada adiantou. Por pior que também seja sua situação – era o 16º colocado -, o Willem II mostrou mais segurança. E num ótimo dia, o atacante Lucas Andersen fez os três gols que decretaram a vitória dos Tricolores por 3 a 1, em pleno Grolsch Veste. E o triunfo dos visitantes provocou a troca de posições. Ou seja, em 16º, o Twente entrou na zona de repescagem/rebaixamento do Holandês. E neste século, nunca fizera uma campanha tão ruim, após 14 rodadas, como esta: tem apenas nove pontos, inferior até aos 15 que tinha na pior ocasião anterior, na Eredivisie da temporada 2001/02.

Mesmo prestigiado no clube por seu trabalho na base, o técnico René Hake (interino logo efetivado, após a demissão de Alfred Schreuder) não apresentou grandes evoluções. A defesa tem jogadores com certo talento técnico, mas eles cometem erros primários, pela inexperiência. Como o goleiro Joël Drommel: convocado para a seleção holandesa sub-21, ele mostra atuações irregulares. Ora impressiona bem, como na estreia, contra o Ajax, na quinta rodada. Ora comete erros primários, como na derrota para o Utrecht (4 a 2, na 11ª rodada).

VEJA TAMBÉM: Oranje mergulha no limbo tentando recomeçar

Há ainda a linha de quatro marcadores: nela, por várias vezes as bolas cruzadas na área são um suplício. Pelo alto, como contra o PSV (derrota por 3 a 1, na 10ª rodada): tanto o zagueiro Peet Bijen como o lateral esquerdo Jeroen van der Lely eram superados facilmente pela antecipação dos atacantes dos Eindhovenaren. E também por baixo, como nos 5 a 0 do Feyenoord: com toques rápidos, o quarteto Simon Gustafson-Dirk Kuyt-Michiel Kramer-Eljero Elia demoliu a defesa dos Tukkers.

No ataque, há pouca confiança. O ganense Thomas Agyepong, emprestado pelo Manchester City, tem rapidez pela ponta esquerda; e Jari Oosterwijk, mais finalizador, é uma esperança para o futuro. Ainda assim, não mostram cacife para segurar a responsabilidade de uma fase tão má. Quem tem feito isso é Hakim Ziyech: o meio-campista marroquino (chegou a ser convocado para treinar com a seleção holandesa, mas escolheu defender os magrebinos) é o destaque absoluto do Twente na temporada. Dos 14 gols da equipe na temporada da Eredivisie, esteve envolvido em 11 – marcou sete, e fez a assistência em quatro.

O camisa 10 mostra mais importância para o time até do que o chileno Felipe Gutiérrez, mais experiente, de presença constante nas convocações da Roja, com Copa do Mundo e o título da Copa América no currículo. Todavia, o meia marroquino repetiu a sua vontade à FOX Sports holandesa: “Estou aberto [a ofertas]. Se surgir uma oferta para a qual o clube não diga não, eu saio”. Como qualquer dinheiro para o clube está sendo muito bem vindo, talvez isso já ocorra em janeiro, quando a janela de transferências se reabrir.

Nesta semana de folga no futebol holandês, restou ao Twente começar a se preparar. Presidente e dono do clube entre 2003 e 2014, apontado como artífice da subida que levou o Twente até à Liga dos Campeões, Joop Munsterman já se defendeu em relação às acusações envolvendo o contrato com a Doyen. Autor do livro dos 50 anos do clube, o jornalista Matty Verkamman (que mantém contato com o afastado Munsterman via e-mails) informou à emissora local de tevê RTV Oost: “Via sua esposa, ele disse que não conhecia a cláusula do contrato, nem Aldo van der Laan, nem o Twente. É uma falsificação”.

Enquanto isso, quem ficou para consertar o barco vai tentando um jeito. Nessa semana, o Twente anunciou novo acordo de sociedade no estádio Grolsch Veste com a prefeitura de Enschede, que assumirá a parte da dívida do clube relativa à manutenção – precisamente, 17 milhões de euros -, mas cobrará a devolução do dinheiro. O diretor de futebol profissional da federação, Bert van Oostveen, relembrou: o clube está sob investigação, e caso não prove que o contrato é falso, ou terá de pagar uma multa, ou perderá sua licença profissional. Sem contar a perda de pontos na atual temporada, que pode definir a queda.

O que se sabe é que, justamente no ano de seu 50º aniversário, a conta dos anos de glória chegou ao Twente. E chegou dolorosa.