O Liverpool colecionava bons resultados, sem apresentar um grande futebol. Eram vitórias econômicas, mais baseadas na defesa do que no ataque que tanto encantou na campanha anterior. Era o bastante para um começo de temporada, mas eventualmente o nível precisaria subir, à medida em que os desafios ficassem mais difíceis. Ainda não subiu, e a conta chegou: nesta terça-feira, o Estrela Vermelha deixou tudo que podia no gramado do Marakana e derrotou o atual vice-campeão europeu por 2 a 0.

O Estrela Vermelha tem todos os méritos. Entrou em campo para fazer a partida da sua vida, porque uma derrota o eliminaria da Champions League para a qual tanto brigou para retornar, enquanto o Liverpool poupou alguns jogadores importantes e parecia longe da intensidade máxima. Quando notou, Milan Pavkov havia marcado duas vezes e, na atmosfera assustadora do estádio sérvio, os visitantes não conseguiram reagir.

Curiosamente, uma das melhores atuações do Liverpool nesta temporada havia sido em Anfield, contra o Estrela Vermelha. Outra também viera na Champions League, contra o Paris Saint-Germain. No geral, porém, os Reds têm derrotado equipes menores da Premier League, alternando placares mínimos com eventuais goleadas, e feito partidas travadas contra os grandes. Empatou com Chelsea, Manchester City e Arsenal.

O Estrela Vermelha decidiu jogar como o grande que sua camisa e sua história lembram que é. Desde o início da partida, exercia pressão incessante na saída de bola vermelha e chegava com perigo, dentro das suas limitações técnicas. A história poderia ter sido diferente se Sturridge não tivesse perdido um gol feito: Lallana furou o cruzamento da esquerda, e a bola sobrou limpinha para o atacante inglês completar. Por cima.

Em um escanteio, Pavkov subiu em cima de Sturridge para abrir o placar, de cabeça. O próprio, na sequência, ganhou de Wijnaldum com constrangedora facilidade para sair livre na intermediária e acertar um petardo de perna direita. Alisson quase alcançou, mas não conseguiu fazer a defesa. A primeira meia hora da partida terminou com o Estrela Vermelha vencendo por 2 a 0.

Seria razoável esperar que o susto tirasse o Liverpool da inércia e que, pela diferença de qualidade técnica e investimento, a virada fosse uma possibilidade real. No entanto, o Estrela Vermelha continuou correndo, brigando, bloqueando, desarmando, dando carrinho e vibrando a cada tentativa dos adversários, que demonstraram muita dificuldade na criação.

Essa não é uma falha nova. Desde a saída de Coutinho, o Liverpool não tem um meia criativo em seu elenco, e os quebra-galhos, desta vez, não funcionaram. Adam Lallana Wijnaldum fizeram jogos muito ruins, Naby Keita ainda não entregou o que prometia e nem saiu do banco de reservas e, por questões políticas, Xherdan Shaqiri, que vinha sendo improvisado no setor, nem viajou à Sérvia.

Restou para Firmino, colocado em campo no intervalo, fazer a armação a partir da intermediária, mas, com a entrada da área adversária totalmente congestionada, a maioria dos passes do brasileiro buscou as laterais. E, cruzamento após cruzamento, o Liverpool pouco conseguiu criar. Salah exigiu algumas defesas de Milan Borjan e colocou uma bola na trave. Mas dos 23 chutes vermelhos, apenas quatro atingiram o alvo. E nove foram bloqueados.

Não houve espaço. O Estrela Vermelha se certificou disso. E o Liverpool, novamente, não soube criá-los. Apenas a intensidade e a pressão organizada que já funcionou tão bem não funcionam mais porque os adversários já aprenderam a lidar com elas, porque os atacantes dos ingleses não estão em sintonia e porque o meio-campo ainda sofre para encontrar sua formação ideal.

E, agora, com duas vitórias em casa e duas derrotas fora, o Liverpool precisará buscar alguma coisa no Parque dos Príncipes contra o Paris Saint-Germain. E o Estrela Vermelha, contra todos os prognósticos, ganhou a sua primeira partida neste retorno à Champions League e se permitiu sonhar.

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