Não seria exagero dizer que Ajax e Juventus formam uma rivalidade continental. Ao menos assim aconteceu na metade final da década de 1990, quando os dois esquadrões precisavam se encarar frequentemente no topo da Liga dos Campeões. A decisão de 1996 e as semifinais de 1997, de certa maneira, impediram que os Godenzonen ganhassem mais taças para respaldar o futebol deslumbrante praticado no período. Em compensação, permitiram que a Velha Senhora entregasse as glórias a uma porção de ídolos históricos. Contudo, cabe lembrar que outros dois timaços de Ajax e Juve já tinham duelado pela Champions décadas antes. Em 1973, os papéis estavam invertidos. Enquanto a “seleção” liderada por Johan Cruyff se eternizou com o tricampeonato europeu, os bianconeri viram uma equipe marcante ficar a uma vitória de ser bem mais reconhecida além das fronteiras.

Treinado pelo romeno Stefan Kovács desde a temporada anterior, substituindo de Rinus Michels, o Ajax ainda era o time a ser batido na Copa dos Campeões. Afinal, a base excepcional que tomara a Europa de assalto nas duas edições anteriores da Champions permanecia intacta e começava a apresentar seu potencial também com a camisa da Holanda. Por lá seguiam Ruud Krol, Johan Neeskens, Arie Haan, Johnny Rep, Piet Keizer e outras feras. Sobretudo Cruyff, em seus últimos meses antes de trocar Amsterdã por Barcelona. Seria o passo final para se eternizar como lenda pelos Ajacieden.

Não havia adversário páreo ao Ajax e isso ficou claro ao longo das fases classificatórias. Base da seleção búlgara, o CSKA Sofia tomou de 6 a 1 no agregado. Nas quartas de final, o massacre aconteceu contra o Bayern de Munique, com direito aos 4 a 0 no Estádio Olímpico de Amsterdã – em noite considerada por muitos como a melhor atuação daquele esquadrão. Por fim, não menos simbólicos e dominantes foram os triunfos sobre o Real Madrid nas semifinais, botando os merengues na roda em ambos os encontros. Era a melhor campanha de um time que já não tinha mais nada a provar. Restava o desejo de emendar a maior sequência de títulos desde o Real Madrid pentacampeão nos anos 1950, levando em definitivo a taça da Champions.

Do outro lado estava a Juventus comandada pelo tchecoslovaco Čestmír Vycpálek, ex-jogador do clube nos anos 1940 e promovido ao comando da equipe principal após passar pela base. Se Milan e Internazionale já eram bicampeões da Champions desde a década de 1960, o torneio se tornava uma exigência à Velha Senhora. Mas, antes de pensar alto, o clube restabelecia sua força na Serie A. Depois de um jejum de cinco anos, faturou o Scudetto em 1972 e encaminhou o bicampeonato na temporada seguinte. Ao mesmo tempo, era um oponente duro no cenário continental, com um cartel respeitável na caminhada à decisão. As classificações anteriores referendaram os italianos.

Os primeiros desafios foram contra Olympique de Marseille e Magdeburg, superando os adversários tarimbados. Depois, os dois empates contra o Újpesti foram suficientes para alcançar as semifinais, graças aos gols fora, já igualando a melhor campanha do clube no torneio – as semifinais de 1968, perdidas contra o Benfica. Por fim, os juventinos despacharam o Derby County de Brian Clough, com o determinante triunfo por 3 a 1 em Turim. Os riscos em na Inglaterra foram imensos, mas o empate valeu a festa pela inédita decisão. Mesmo “virgem” além das fronteiras, a Juve contava com uma porção de jogadores experimentados internacionalmente com a seleção (a exemplo de Dino Zoff, Sandro Salvadore e Pietro Anastasi) e também estrangeiros, como José Altafini ‘Mazzola’ e Helmut Haller. Além do mais, havia uma geração mais jovem que se preparava a passos maiores, encabeçada por Franco Causio, Fabio Capello e Roberto Bettega.

Cruyff arrisca contra a Juventus, na decisão de 1973

A decisão levou quase 90 mil pessoas ao Marakana, em Belgrado. O favoritismo pendia ao lado do Ajax, embora a Juventus já houvesse sinalizado o seu potencial ao longo daquela Champions. De qualquer maneira, os italianos precisaram enfrentar uma controvérsia nos bastidores antes do jogo derradeiro. Árbitro da semifinal contra o Derby County, Francisco Lobo afirmou que um homem chamado Dezso Solti tentou suborná-lo para favorecer os bianconeri na Inglaterra. A Uefa realizou uma investigação e baniu Solti do futebol – durante a década de 1960, o húngaro havia trabalhado como agente para a Internazionale. No entanto, a comissão formada pela entidade não encontrou conexões com a Velha Senhora e decidiu não impor sanções à agremiação. Independentemente da absolvição, permanecia uma sombra.

Após iniciar com grande antecedência sua preparação ao jogo, o técnico Čestmír Vycpálek buscava reafirmar a vocação de sua equipe, com talentos individuais e capacidade na marcação. Não deu muitos frutos, apesar do quarteto ofensivo composto por Causio, Bettega, Anastasi e Mazzola. O Ajax, por sua vez, manteve a liberdade de movimentação e de ideias aos seus jogadores. Sem tantas cobranças internas, o time entrou em campo mais leve e não demorou a realizar o seu trabalho no Marakana. Mesmo que tenha sido a final mais apertada dos Godenzonen no triênio, cinco minutos bastaram para que Johnny Rep abrisse o placar, determinando o triunfo por 1 a 0. Aos 21 anos, o camisa 16 apenas dava seus primeiros passos no time titular e aquele gol serviu bastante à sua afirmação.

O tento precoce contou com o oportunismo de Rep, ponta direita no tridente formado ao lado de Cruyff e Keizer. Com extrema liberdade para avançar, o zagueiro Horst Blankenburg aproveitou o espaço excessivo na intermediária e fez o cruzamento. Mesmo com a Juve toda recuada, conseguiu conectar com o camisa 16. Então, o jovem atacante subiu mais que a marcação para cabecear alto e encobrir Dino Zoff. Seria a chave para que o Futebol Total dos Ajacieden se mantivesse no controle da situação durante o restante do tempo, mesmo sem que o time pudesse ampliar a margem.

Na sequência do primeiro tempo, o jogo de passes do Ajax prevaleceu. O problema foi conseguir atravessar o ferrolho formado pelos italianos. Nas poucas investidas com sucesso, sobretudo em chutes de longe, Zoff segurou as pontas. A Juventus se limitava aos contra-ataques e só no segundo tempo incomodou um pouco mais, explorando os espaços pelos lados. Nada suficiente para arrancar o empate. Cruyff passou em branco, mas bagunçou a marcação especial com sua movimentação e criou boas oportunidades que os companheiros não aproveitaram. Já no final, Barry Hulshoff quase ampliou, em cabeçada que estalou o travessão após uma saída errada de Zoff. Não fez falta aos tricampeões.

Rep, todavia, ainda afirma que a tensão o tomou em campo ao longo do embate no Marakana: “Para ser honesto, foi um jogo dramático. Não acho que foi divertido de se assistir. Esse gol caiu do céu no quarto minuto. Horst fez um cruzamento alto e longo, então eu tive um bom tempo de bola. Cabecei por cima de Zoff com uma pequena parábola. Não era o pior goleiro do mundo, vocês devem saber. Depois disso, eles não conseguiram se recuperar”, lembrou, ao site do Ajax. “Não achava que os outros jogadores do Ajax estavam tão felizes, não tão malucos quanto eu. Eles pareciam mais contentes contra o Panathinaikos e a Inter, mas eu não tinha jogado as duas partidas, apenas havia permanecido no banco contra os nerazzurri. Por isso, senti como se aquela vitória sobre a Juventus tivesse me dado o primeiro título, como se fosse meu prêmio”.

Aquele seria também o canto do cisne para o Ajax. Após a saída de Cruyff na temporada seguinte, o time não conseguiu defender o tetra na Copa dos Campeões. Perdeu logo nas oitavas de final em 1973/74, eliminado pelo CSKA Sofia. A Juventus, por sua vez, se manteve competitiva no cenário doméstico. Voltou a dominar a Serie A durante a década de 1970 e conquistou a Copa da Uefa em 1977. Contudo, precisou aguardar até 1985 para faturar a Champions pela primeira vez. Descaminhos que levariam à rivalidade entre os gigantes nos anos 1990.