Quando a reportagem se aproximou de Fred, após a conquista do Campeonato Mineiro, para conversar com o autor do gol do título do Cruzeiro, ele comemorava com dois funcionários do clube. Eram os massagistas, com quem o centroavante brincou, antes de elogiá-los publicamente. E, em suas palavras sobre o triunfo, o artilheiro não se esqueceu das dificuldades recentes. Lembrou-se dos obstáculos encarados em sua grave lesão no joelho, que o tirou dos gramados por seis meses em 2018. Recuperado, o veterano mostra que voltou ao seu melhor neste início de temporada. E a torcida cruzeirense agradece, ao comemorar justamente na casa dos rivais. Dentro do Independência, a Raposa se valeu da vantagem construída no Mineirão e buscou o empate por 1 a 1 contra o Atlético Mineiro, colocando a faixa no peito. O gol de pênalti foi anotado por Fred, personagem inescapável neste excelente início de ano celeste, agora coroado com o estadual.

Fred tinha suas motivações para a decisão do Mineiro. Uma delas é a própria identidade, ao garoto que nasceu no estado, cresceu acompanhando o campeonato e mantém firmes suas raízes por lá. Mais do que isso, havia um gosto especial por se reencontrar com o Galo em um momento decisivo. Acolhido de volta pelo Cruzeiro, o velho ídolo não reclama da vida que tem hoje em dia na Toca da Raposa. Mas acaba demonstrando certo ressentimento pela maneira como deixou o Atlético em 2017. Algo que também ressaltou depois da partida deste sábado, ao declarar que saiu “escorraçado” pelo presidente Sergio Sette Câmara. Algo que se juntava com a vontade de triunfar após as dúvidas que pairavam sobre suas condições físicas, aos 35 anos.

Ao longo de 2018, Fred se tornou um mero coadjuvante no elenco do Cruzeiro. A contusão grave no joelho direito, ocorrida quando voltava de um problema na panturrilha, atrapalhou sua sequência justamente no momento em que deveria pegar embalo na temporada. Retornou a tempo de disputar meia dúzia de jogos no Brasileirão, anotando os seus gols, e também de apoiar do banco a conquista na Copa do Brasil. De qualquer maneira, a boa notícia não era suficiente ao artilheiro. A quem sempre esteve acostumado com o estrelato, era preciso se empenhar para recobrar seu espaço e provar que poderia contribuir bastante à Raposa. Foi o que fez. Apesar do “receio” que sentia pela gravidade da lesão, trabalhou duro para voltar ao máximo de sua forma na pré-temporada. Algo que se nota a cada partida celeste.

O desempenho na Libertadores, obviamente, se torna mais preponderante. Fred anotou três gols no último jogo contra o Huracán e ajuda a equipe de Mano Menezes em sua campanha impecável na fase de grupos. No entanto, o centroavante também vinha empilhando gols no Campeonato Mineiro. Foram 11 até a decisão, incluindo quatro nas semifinais contra o América. De qualquer maneira, o Atlético representava algo a mais. E depois da vitória no primeiro duelo, em que deu o passe para Marquinhos Gabriel abrir o placar, assumiria a responsabilidade nesta tarde, dentro do Independência.

Não foi um jogo fácil para o Cruzeiro, apesar da crise vivida pelo Atlético Mineiro. Substituto de Levir Culpi, o interino Rodrigo Santana deixou o time mais organizado e reintegrou atletas importantes, colhendo frutos. Melhor no primeiro tempo, o Galo saiu em vantagem no placar. Elias balançou as redes, em bola que triscou a trave antes de entrar. Além disso, Fábio fez boas defesas e Ricardo Oliveira chegou a acertar a trave, embora quase os cruzeirenses tenham marcado do outro lado em bola que Igor Rabello quase mandou contra o próprio patrimônio.

A vitória parcial dava o título ao Atlético. O Cruzeiro precisava reagir no segundo tempo e se portou de maneira mais ofensiva. Outro jogador fundamental à conquista foi Pedro Rocha. O reforço recente saiu do banco e não demorou a incendiar a final. Criou uma jogada de perigo logo de cara e, aos 31 minutos, bagunçou a defesa atleticana pelo lado esquerdo. A bola bateu no braço de Leonardo Silva e, após revisão no vídeo (utilizado com letargia em diferentes momentos da noite, cabe dizer), o árbitro assinalou a penalidade. Fred encarava Victor, uma lenda justamente pelo que já protagonizou na marca da cal. Ainda assim, o centroavante demonstrou uma calma gigantesca. Caminhou a passos lentos, até perceber o lado ao qual o adversário cairia, e deslocou a bola para o outro. Apesar dos longos acréscimos, a Raposa segurou o empate, já suficiente à comemoração.

O gol, além do título e da artilharia, também transformou Fred no maior artilheiro do Cruzeiro neste século. São 75 bolas nas redes, igualando a marca de Wellington Paulista. Ninguém duvida que se isolará e talvez chegue até mesmo ao centenário. A vingança contra o Atlético se cumpriu. Após as polêmicas pela volta ao rival, a principal resposta acontece em campo. Segundo ele, até procurou Sette Câmara nas tribunas. Mas, acima disso, também é um sinal definitivo de como o veterano pode seguir rendendo por mais algum tempo. Da angústia e dos temores, o camisa 9 se transforma em um “reforço de peso” ao elenco de Mano Menezes nesta temporada. Ajuda a torná-lo mais competitivo para a Libertadores, o grande objetivo, assim como para o Brasileirão e a Copa do Brasil. O Mineiro é um aperitivo, diante da exigência maior que se criará.

“Feliz pelo título, pela artilharia e mais feliz ainda por tudo que está acontecendo depois da lesão no ano passado, essa volta por cima. O sentimento é de gratidão com minha família, Deus, comissão técnica. Agradecer todo departamento médico do Cruzeiro pelo apoio, que ficou comigo durante todo o tempo, prometendo que daria tudo certo. Só tenho a agradecer”, assinalou o ídolo, na saída de campo.

E, de todos os simbolismos, ainda há o que envolve o Fred centroavante. Em tempos de alternativas escassas na função, o cruzeirense honra a camisa 9. Seus números reforçam sua efetividade, colocando-o como um parâmetro dentro do futebol brasileiro. A Copa de 2014 foi custosa ao matador e de fato ele não rendeu no mais alto nível. Apesar disso, seus clubes o referendam. O Cruzeiro mais uma vez tem a possibilidade de se valer do poder de fogo do veterano. Já garantiu uma taça.