As últimas Copas do Mundo sempre pareceram um ponto de chegada a gerações marcadas pela frustração. Em 2014, a Alemanha vinha talhada pelo empenho do trio encabeçado por Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger e Miroslav Klose. Quatro anos antes, a Espanha conseguiu o selo que superava a fama de falhar nos momentos decisivos do Mundial, passo muito maior após a Euro 2008. A Itália de 2006 viveu o reconhecimento merecido de uma geração de feitos por clubes, mas que devia com a camisa azzurra. Mesmo o Brasil de 2002, ainda que tivesse os seus campeões de 1994, parecia querer redimir o trauma de 1998. A França bicampeã em 2018, porém, cria uma noção diferente ao redor de si. E que permite alimentar expectativas a mais.

Os Bleus tinham o seu revés anterior para usar como motivação à superação. Perder a Eurocopa dentro de casa é um baque para qualquer equipe. Ainda assim, não foi uma geração tão moldada pelas dores. Exceção feita a Hugo Lloris, este elenco passou imune à bagunça e às confusões vividas na Copa do Mundo de 2010. Outros jogadores atuais foram adicionados ao grupo para a Euro 2012, mas eram meros coadjuvantes diante dos novos casos de indisciplina daquela competição.

A construção do time bicampeão do mundo começa, de fato, rumo à Copa de 2014, também um momento de reconstrução à seleção francesa após tantos problemas internos. Conquistar a classificação na repescagem, após momentos ruins, foi algo significativo para unir os jogadores. De qualquer forma, a eliminação para a Alemanha nas quartas de final, encerrando uma campanha digna, esteve distante das conotações mais dramáticas. Da mesma forma como a derrota para Portugal gerou uma decepção, mas não uma catástrofe, até pela maneira como os franceses deixaram uma impressão positiva no torneio – sobretudo pela revanche contra os alemães na semifinal, de quem são fregueses históricos nas competições internacionais.

Os acréscimos recentes ao grupo, o crescimento de alguns jogadores e a baixa média de idade transmitiam a imagem de que, mesmo que contasse com um ótimo elenco, a França ainda era um time em construção. Não estava no ponto de “é agora ou agora” como outros campeões recentes do Mundial. Mesmo assim, os Bleus encontraram um sistema de jogo funcional. Acumularam partidas que, se não foram brilhantes, eram corretas e valiam a classificação fase a fase. Até que na decisão tenha pesado a precaução, relembrando um pouco da Euro 2016, percebendo que a Croácia fazia o jogo de sua vida. Taça nas mãos, a conquista se indica apenas parte do caminho percorrido, não o final de uma era. Até pela maneira como atuou na Rússia, talvez o máximo não tenha chegado.

Obviamente, toda a seleção campeã do mundo parece contar com uma base capaz de buscar o sucesso na Copa seguinte. Foi o caso da Alemanha, por exemplo, mas a perda dos veteranos e o momento ruim dos medalhões resultou em um desastre. A renovação de um grupo vencedor é difícil para toda seleção – e os desempenhos de Itália em 2010, de Espanha em 2014 ou outros casos servem para ampliar a teoria. A princípio, isso não deve ser problema à França. Nada impede os Bleus de se acomodarem, claro. No entanto, mais do que um próximo Mundial, a coluna vertebral dos Bleus pode ter até mais duas edições do torneio pela frente.

Hugo Lloris, Blaise Matuidi e Olivier Giroud são os únicos titulares acima dos 30 anos. Antoine Griezmann e N’Golo Kanté têm 27. O restante da equipe principal não passa dos 25 anos, com Kylian Mbappé puxando a fila da juventude, às vésperas de completar 20. Não deve acontecer nenhuma perda significativa. E há uma noção de que muitos destes atletas, se mantiverem a toada, podem render mais uma Euro à França. Se não o título, ao menos mais uma boa campanha em Copas do Mundo. Em partes, até se aproxima daquela seleção francesa de 1998, que arrebentou na Euro 2000 e, mantendo certos nomes campeões, faria história ainda na Copa de 2006.

Algo que também permite imaginar esta caminhada mais longa vai além dos 23 chamados à Copa. A França foi a seleção que mais abriu mão de jogadores capazes de integrar este elenco, justamente porque faltava espaço. Atletas como Anthony Martial, Alexandre Lacazette, Adrien Rabiot e Aymeric Laporte merecem continuar no radar da equipe nacional, assim como há reservas que podem crescer no próximo ciclo, a exemplo de Ousmane Dembélé, Thomas Lemar, Corentin Tolisso e Benjamin Mendy. Há material humano, até porque a Ligue 1 se consagra como uma competição fornecedora de “pé-de-obra” a campeonatos mais robustos. Possivelmente, mais nomes surgirão e serão exportados à Premier League ou outras ligas.

Um ciclo de quatro anos pode ser transformador e a própria França é o exemplo, entre o que se viu em 2010 e o que se passou em 2014. E, neste cenário, manter a toada parece muito mais fácil que renovar. O caminho está posto, a partir do amadurecimento de jogadores importantes que já se sagram campeões. Protagonistas que têm tempo para se cruzar mais vezes com a história.


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