O que a Conmebol mais temia, de fato, aconteceu. O Tigre, rebaixado à segunda divisão do Campeonato Argentino, conquistou a classificação às competições continentais para 2020. Mais do que isso, estará na Libertadores, ao protagonizar um milagre: semanas após o descenso, conquistou o primeiro título de sua história. Rebaixado por causa do promédio, apesar da boa campanha na liga nacional, o clube foi impedido de se classificar à Sul-Americana por conta das regras locais. Tudo bem, haveria outra chance na recém-criada Copa da Superliga. E o sucesso do Matador no novo torneio levou a Conmebol, arbitrariamente, a mudar seu regulamento para barrar os argentinos. A medida sem fundamento acabou revertida, após enorme pressão. Tudo para que, em campo, o time confirmasse o seu direito. A vitória por 2 a 0 sobre o Boca Juniors neste domingo deu a Copa da Superliga à equipe, bem como mandou um ‘chupa’ à Conmebol.

O Tigre é mais um daqueles casos que fomentam a discussão sobre a validade do promédio. O time fez campanhas ruins em anos anteriores e era grande candidato ao rebaixamento no Campeonato Argentino. Porém, seu desempenho em 2018/19 superou as expectativas. Até pelos riscos, a equipe emendou uma sequência de bons resultados a partir de fevereiro e ficou na parte de cima da tabela. Com cinco vitórias e três empates nas últimas oito rodadas, o Matador arranjou um honroso nono lugar, o que em teoria valeria uma vaga na Copa Sul-Americana. Em teoria, porque as regras da Superliga determinam que uma agremiação rebaixada não pode se classificar às competições continentais, e a fase positiva não foi suficiente para livrá-lo do descenso na somatória de pontos. O promédio seria fatal e, por conta disso, a Sul-Americana de 2020 não se consumou.

Com o regulamento previamente acordado, o Tigre não tinha reclamações sobre sua situação. Mas poderia se reerguer na Copa da Superliga, torneio criado para ocupar o calendário do país enquanto a federação desincha o Campeonato Argentino. O embalo visto no final da competição nacional se manteve nos mata-matas. O Matador eliminou Colón, Unión Santa Fe e chegou ao seu ápice quando despachou o campeão Racing nas quartas de final. Contra os dois santafesinos, arrancou viradas dramáticas, enquanto a eliminação dos racinguistas se deu com um gol aos 45 do segundo tempo em Avellaneda. Estava claro que se candidatava ao título. Já nas semifinais, contra o Atlético Tucumán, a goleada por 5 a 0 deixou o Matador a um triz da decisão. Foi quando a situação virou.

O regulamento da Copa da Superliga diz que o campeão se classifica à Libertadores e o vice teria direito a uma vaga na Sul-Americana. Mesmo na segundona, o Tigre poderia se inserir na elite continental. Então, sem a menor cerimônia, a Conmebol baixou uma regra impedindo que times das divisões de acesso participassem das suas competições. Com os campeonatos nacionais rolando, a interferência era direta, e absurda. A insatisfação veio de todos os lados, especialmente das federações. A Superliga Argentina protesto, já que a mudança na regra interferia no regulamento previamente referendado pela Conmebol. Só aí que a entidade cedeu. Teve que engolir o Tigre.

Nesta reta final da Copa da Superliga, o Tigre teve um motivo a mais para jogar. Consolidou a classificação contra o Atlético Tucumán com mais uma vitória. Já neste domingo, aconteceu a decisão em partida única contra o Boca Juniors. Até pela superioridade de seu elenco e pelo ano sem títulos, era de se imaginar que os xeneizes viriam sedentos em Córdoba. No entanto, os pequeninos bateram de frente com os gigantes. Após Darío Benedetto acertar a trave, Federico González abriu o placar aos 24 minutos, ajudado pelo frangaço de Esteban Andrada. E o placar já se definiu aos 32, em pênalti cobrado por Lucas Janson, que Andrada também aceitou. A pressão boquense se intensificou bastante no segundo tempo, mas Benedetto estava em uma noite infeliz e perdeu mais gols, com direito a outra bola no travessão. A ocasião seria mesmo histórica, confirmando o milagre.

O grande responsável pela virada do Tigre é o técnico Néstor Gorosito. Jogador da seleção em seus tempos como meio-campista, o veterano chegou ao Matador em fevereiro e possibilitou a guinada desde o Campeonato Argentino. Mais do que conquistar as vitórias, ele ainda produziu um estilo de jogo atrativo, com trocas de passes e jogadas em progressão. Pipo possui um elenco bastante tarimbado à sua disposição, no qual se sobressai Walter Montillo. Após desistir da aposentadoria, o meia faz um bom trabalho no clube. Teve participação decisiva nesta Copa da Superliga, principalmente por seu gol no primeiro duelo contra o Racing. Nicolás Colazo, Gerardo Alcoba, Néstor Moraigh, Sebastián Prediger, Federico González e Carlos Luna são outras figurinhas carimbadas.

“A mim não varia a importância do título. Estou muito contente pelo clube, pelas pessoas, mas não sou outro porque ganhei. O reconhecimento é dos jogadores, isso me contenta mais que uma medalha. Não sou um treinador melhor por ser campeão. O mais importante é que temos um ótimo material humano. Quando chegamos, dissemos que tínhamos um timaço. Que não éramos menos que ninguém. Que só dois ou três podiam ganhar da gente”, declarou Gorosito, exultante pela conquista.

Este é o primeiro título da história do Tigre em uma competição de elite. No máximo, havia chegado à decisão da Copa Sul-Americana, encerrada de maneira lamentável contra o São Paulo. Além disso, será a segunda participação do Matador na Copa Libertadores. Enquanto milita na segundona, já despontando como um fortíssimo candidato ao acesso, entrará diretamente na fase de grupos. É a sétima vez que um time de segunda divisão se classifica à principal competição sul-americana – após Criciúma, Santo André, Paulista, Jorge Wilstermann, Palmeiras e Santiago Wanderers. Mas a primeira que a Conmebol tenta interferir e acaba tendo que admitir a classificação.