Em 1572, os espanhóis assassinaram o último Sapa Inca. Túpac Amaru foi o último imperador da civilização que construiu o seu esplendor no coração dos Andes. Quando ele assumiu o poder, Cusco já havia sucumbido aos conquistadores e Vilcabamba se tornara o último foco da resistência indígena. O imperador fugiu durante a invasão da cidade e, capturado, morreu executado em praça pública. Sua linhagem, porém, seguiria escrevendo a história no continente. Mais de dois séculos depois, José Gabriel Condorcanqui Noguera adotou a alcunha de Túpac Amaru II. Era, de fato, descendente direto do último Sapa Inca, embora também miscigenado. Em 1780, liderou a chamada Grande Rebelião, um movimento anticolonial que mobilizou 100 mil homens nos atuais Peru e Bolívia. Túpac Amaru II não triunfou. Também teve seu sangue derramado pelos espanhóis. Ainda assim, passou a ser considerado como um precursor da independência nas Américas. Seu nome muitas vezes figura entre os chamados “libertadores”.

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Quando a Conmebol decide não realizar a final da Copa Libertadores na Argentina, ela admite a inoperância das instituições no país. Declara que não há capacidade para lidar com os barras, para contornar a violência, para oferecer o máximo àquela que vinha sendo taxada como a maior final de todos os tempos. A Conmebol, esta mesma entidade que não tem competência sequer para enviar um e-mail correto e que também possui sua enorme parcela de culpa pelo caos ocorrido em Buenos Aires.

Quando a Conmebol decide levar a final da Copa Libertadores a outro continente, por sua vez, indica que os sul-americanos não devem sequer usufruir de seu bem maior no futebol. Que não há condições para que a partida seja sediada em qualquer país vizinho. E, mesmo que não seja a pior das opções aventadas, a ironia maior é que a confederação que deveria proteger os interesses de clubes, jogadores e torcedores locais acaba cedendo seu tesouro à coroa espanhola. Ao estádio real. A superfinal da Libertadores se entrega adornada àqueles contra os quais os libertadores lutaram. A Conmebol anuncia sua falência como entidade responsável pelo futebol sul-americano, ao não se responsabilizar.

Se nos tempos de Túpac Amaru os colonizadores espanhóis estavam acostumados a levar as riquezas do continente ao outro lado do Atlântico, a analogia se torna óbvia mais de quatro séculos depois, ao ser relacionada ao futebol. O que normalmente se dilapida e se leva à Europa é o talento daqueles que, em campo, providenciam a alegria aos descendentes dos outrora usurpados de seu tesouro. A Libertadores vem, ano após ano, sendo empobrecida pelo talento que não se encontra mais aqui. Mas havia um quê de Túpac Amaru II nos últimos anos da competição. Um orgulho local, uma valorização da identidade. Uma noção de que, mesmo sem a grandeza do império destruído, resta o povo para valorizar estas terras e ainda construir o esplendor do torneio – seja através das torcidas, dos clubes, das tradições. Quando a Conmebol transporta a decisão ao Bernabéu, no entanto, aborta o embrião daquilo que alguns poderiam vislumbrar como a Grande Rebelião ante um futebol engessado pelo mercado.

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Porque, convenhamos, a Conmebol quase nunca quis saber do futebol sul-americano. A Conmebol sempre optou por privilegiar suas relações políticas e os próprios lucros. A Conmebol não faz parte dos conquistadores, mas sim é a entidade que delata as resistências e entrega as informações para que os de fora usufruam. É a podridão do falso que se corrompe. E se alguém imaginava que o Fifagate pudesse transformar algo na confederação, aí está, uma cartolagem que está ainda mais interessada nos meandros do poder, não no interesse de seus filiados.

Muita coisa errada aconteceu no sábado nefasto em Buenos Aires. Muita coisa errada, que se torna apenas um reflexo da sociedade que circunda o futebol. O futebol é um microcosmo exposto do universo ao seu redor. O problema está quando a Conmebol, um organismo incapaz, decreta a impotência ao restante da América do Sul e diz que tudo isso não tem solução. Não seria possível montar um esquema de segurança realmente eficaz para a final na Argentina, que fosse em outro estádio? Não seria possível que outro país abrigasse a final? Não seria possível que a Conmebol abrisse os seus cofres para bancar os aparatos necessários, reparando um espetáculo grotesco que ela mesma criou? De uma decisão para ser lembrada por todo o sempre, esta Libertadores termina como o torneio que todos querem esquecer. Ainda mais por esquecer suas próprias origens.

Entre as sedes comentadas pela imprensa ao longo dos últimos dias, raras se localizavam no subcontinente. Se a Conmebol tivesse um pingo de valor à sua gente, Medellín poderia ser a favorita. Um prêmio ao que ocorreu na mesma cidade há dois anos, depois de uma tragédia que também respinga sobre a confederação. Atanásio Girardot, curiosamente, é um dos tais “libertadores”, que lutou ao lado de Simón Bolívar pelas independências de Colômbia e Venezuela. Obviamente, a realização dependeria de um forte esquema de segurança do mesmo jeito, mas os colombianos se ofereceram para a ocasião. Todavia, raciocinar não é o primeiro passo à cartolagem sul-americana, diante da cegueira provocada pelas cifras. Doha e Miami se sugeriam bem mais convidativas. Até que Madri surgiu como o argumento perfeito à mesquinharia da Conmebol. “Aqueles que poderão dar uma lição na organização do evento”, enquanto a entidade ganha dinheiro sem o menor esforço. E continuará ganhando.

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Porque, se a final da Libertadores no Monumental denegriu o “produto”, ela denegriu muito mais a gente que faz a Libertadores ser o que é. Na visão que a mudança de sede propõe, o problema não está nos clubes omissos ou nas autoridades incompetentes. É da sociedade que precisará ver o desfecho de longe. Eles que se matem nas ruas, enquanto o circo se monta em uma freguesia mais abastada. E, na realidade, todos estes acontecimentos apenas adiantam um plano que a Conmebol já tinha: a Libertadores será vendida. A Libertadores da final única, que usaria Santiago como um trampolim para o outro lado do Canal do Panamá. A Libertadores que renderá milhões aos dirigentes, ao mesmo tempo que perde sua essência de canchas lotadas, e recebimientos, e trapos, e tudo mais que compõe a mística resistente que se reforçava nos últimos anos. O valor imaterial e incalculável. Vai tudo para uma embalagem asséptica.

Não é de se duvidar que o Santiago Bernabéu vá fazer o seu show. Que se empolgue com o jogo – como os espanhóis já estavam empolgados desde muito antes de redescobrirem a América. Que conte com um público de turistas argentinos para dizer que xeneizes e millonarios estarão presentes, ou mesmo os próprios barras bancados por suas relações escusas. O quanto disso será genuíno? Difícil dizer, em uma época na qual os próprios estádios da América do Sul vivem seus debates sobre a gentrificação. Aos torcedores mais simplórios, as miudezas. O estádio cheio para um treinamento, a despedida no aeroporto, a carreta a céu aberto. A paixão se manifesta pelo orgulho de ser, quanto a isso não há problemas. Mas o futebol, em si, se restringe. Empacota-se como um artigo de luxo, àqueles que se dão ao luxo.

Neste sentido, os maiores perdedores nesta história são os torcedores. Os torcedores condenados como boçais pela Conmebol, trocados pelos consumidores que cruzarão o oceano ou que já estarão do outro lado. E, pelo silêncio, os clubes se tornam cúmplices deste processo. Como se as arbitragens ruins não fossem suficientes, como se as sujeiras nos tribunais não fossem suficientes, como se as condições esdrúxulas não fossem suficientes, ainda mais essa. Tudo girando ao redor dos mesmos desmandos, dos mesmos erros, das mesmas negligências. Que eles também empurram com a barriga.

A solução à Libertadores? Talvez o levante dos clubes, o que já ensaiaram em outros tempos, mas agora não há muito indícios de reação. Se o dinheiro também pingar na mão deles, ao que parece, tudo bem. E são eles que também se afastam daquilo que os valoriza, com esse tipo de postura. Que renegam a sua gente. Assim, restam apenas os torcedores, os únicos a se rebelarem, em insatisfação ampla contra a final vendida. São eles os herdeiros de Túpac Amaru II? Mas de mãos atadas, precisando entregar os dedos e os anéis se quiserem recuperar o que é seu, o direito de ver nas arquibancadas o jogo mais importante do continente.

Uma parte fundamental da Libertadores se perde neste momento. Uma parte que faz a Libertadores ser a Libertadores. E a bem da verdade, a Conmebol já poderia repensar o nome do torneio, adotado em 1965. A homenagem perde o sentido quando a entidade sequer consegue valorizar a história da competição. Pior, quando a oferece aos colonizadores (que não serão apenas espanhóis, muito em breve), para derreter, para nunca mais voltar. E se voltar, já não saber mais quem era.

A imagem foi retirada do site “Tudo sim é história”. Em pé: Pedro I (BRA), O’ Higgins (CHI), Bolívar (VEN), San Martín (ARG), Artigas (URU) e Yegros (PAR). Agachados: Francisco de Miranda (técnico, VEN), Túpac Amaru II (PER), Espejo (EQU), Santa Cruz (BOL), Sucre (VEN) e Nariño (COL).