Em 2012, sentia-se pelo ar quando era dia de jogo do Corinthians na Libertadores. A atmosfera da cidade de São Paulo parecia diferente. Hora ou outra, o grito de “vai, Corinthians” se rompia pelas ruas e ganhava eco durante alguns segundos. Parecia a ansiedade por, enfim, encerrar o tabu que tanto afligia os alvinegros, com a confiança de que a excelente fase do time traria o almejado título. Uma pulsação que aumentava conforme o clube avançava e que chegou a níveis absurdos antes do segundo jogo da decisão.

Neste ano, a energia era diferente. Era normal que as partidas da fase de grupos não empolgassem tanto. Porém, nas oitavas, o Boca Juniors era o mesmo atropelado no Pacaembu meses antes. E não existia mais aquele ambiente. Os corintianos estavam mais seguros, sem o aquele desespero pela conquista da América. A classificação não veio. E o maior sinal de compromisso da torcida aconteceu não antes do jogo, como a paixão ansiosa de 2012, mas sim depois, reconhecendo a vontade, uma prova do amor consolidado com a Libertadores.

Dentro de campo, a confiança excessiva pareceu atrapalhar o Corinthians. O Boca era presa, não tinha dado trabalho na decisão passada e caiu um pouco mais desde então, fazendo a pior campanha de sua história no Campeonato Argentino. Os alvinegros, que respeitaram demais a camisa na Bombonera, demoraram 45 minutos para entrar no jogo do Pacaembu. Sucumbiram diante da inteligência dos xeneizes, agora sob o comando de Carlos Bianchi, uma diferença decisiva. Só passaram a vibrar como precisavam na volta do intervalo, o que não foi suficiente.

Dos quatro tempos de disputados entre os times, o terceiro foi o que realmente selou o resultado. O Boca não tomou gols em casa e sabia que, se balançasse as redes rapidamente em São Paulo, se aproximaria bastante da classificação. Exatamente quando Bianchi concentrou os esforços de seus jogadores. Sem a bola, os xeneizes faziam ótimo trabalho de compactação e não permitiam a sequência de passes do Corinthians. Paulinho e Danilo, os motores do time, eram sufocados pela marcação.

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Já com a bola, o Boca mantinha a posse no campo de ataque e aguardava o momento decisivo. Que veio dos pés do genial Juan Román Riquelme, em um lance que, como ele próprio admitiu, foi de pura sorte. Os nervos do Corinthians se afloravam e a falta de criatividade era evidente. Para piorar, nos únicos lances em que o time se aproximou do gol, acabou tendo a comemoração barrada pela arbitragem.

A partir do intervalo, enfim, os alvinegros tiveram a atitude que precisavam. Os jogadores voltaram dos vestiários um pouco antes, para sentir as arquibancadas. A vontade demonstrava que aquele era o momento da vitória, ou só no próximo ano. O Boca se encurralava dentro da própria área. E Paulinho foi o imbuído de portar o espírito de luta, não apenas por marcar o gol, mas por protagonizar a maioria dos lances importantes de seu time.

Todavia, era tarde demais para qualquer reação. Enquanto deveria jogar com velocidade, o Corinthians confundia a pressa. Como resultado, o excesso de jogadas erradas – por Alexandre Pato, Cássio, Emerson e qualquer outro – demonstrava a afobação. A equipe montada tão bem por Tite era monotemática, apostando unicamente nas bolas alçadas à área. A falta de repertório pesou e a soma dos fatores acabou com a festa do Boca Juniors.

Ao fim do jogo, o empenho foi aplaudido pela torcida. Evidentemente, também ficou a revolta com a arbitragem. Carlos Amarilla anulou dois gols do Corinthians e não anotou dois pênaltis. Lances de difícil percepção, mas que pesam pelo conjunto da obra. Porque, tanto quanto com os erros, o árbitro também incomodou os alvinegros pela falta de critério na condução do confronto. Distribuiu cartões nos primeiros minutos e, disciplinarmente, não tratou os times de maneira igual. De certa forma, contribuiu para a pouca concentração dos brasileiros no primeiro tempo.

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Agora a eliminação já é consumada. Mais do que indignados, os torcedores parecem orgulhosos do papel do Corinthians. Nesta eliminação, a ânsia pelo título inalcançável não existiu mais. O sentimento é de que a América pode ser conquistada outra vez, ainda que a maior culpa pela queda tenha sido dos próprios alvinegros, que não jogaram tudo o que precisavam.

O Boca avança com a mística de quem já levou seis Libertadores e também com a consciência de que isso não basta para que o sétimo título venha. Diante das limitações técnicas evidentes, a postura dentro de campo foi fundamental – e deverá continuar sendo também nas quartas, onde os xeneizes enfrentam outro adversário superior tecnicamente, o Newell’s Old Boys. Uma entrega necessária a qualquer time que queira triunfar na competição sul-americana e que, desta vez, só veio tardiamente ao Corinthians.