O Internacional atravessa um momento primoroso. Classificado na Libertadores com autoridade, vê o time de Odair Hellmann ascender e ainda conta com a fase inspirada de diferentes jogadores. O Cruzeiro, por outro lado, encara uma conjuntura completamente oposta. Sucumbiu no torneio continental, vive a ameaça do rebaixamento no Brasileirão e praticamente tudo ao seu redor dá errado – inclusive fora de campo. A equipe de Mano Menezes não rende e, pior, sequer consegue marcar gols. Assim, o primeiro confronto pelas semifinais da Copa do Brasil tinha um favorito lógico, mesmo que não houvesse um cenário definido. O Mineirão poderia ser a chance de redenção à Raposa. Mas só na teoria. Porque, ao final, os mineiros se afundaram um pouco mais e viram o tricampeonato ficar distante. O Inter, que não costuma render tão bem fora, fez uma partida segura e encontrou o gol nos últimos minutos para se aproximar da decisão. O triunfo por 1 a 0 abre o caminho à classificação colorada no Beira-Rio.

Durante os primeiros minutos, a cobrança pesou sobre o Cruzeiro. O time de Mano Menezes precisava de atitude e teve que adotar uma postura diferente do que se notou contra o River Plate. Saiu ao campo de ataque, na tentativa de propor o jogo. Não quer dizer que os mineiros tenham feito um bom primeiro tempo, longe disso. Mais cauteloso, o Inter encaixou-se muito bem na defesa e controlava os adversários, bloqueando os espaços. Foi uma primeira etapa travada, em que os cruzeirenses buscavam as ligações diretas e não conseguiam dar continuidade às jogadas. No geral, era uma partida pobre.

Tentando escapar em velocidade, o Inter arremataria primeiro. Rafael Sóbis bateu de fora da área, mas Fábio não teve problemas para defender, enquanto Nico López quis surpreender o goleiro do meio-campo e errou por muito. O mínimo de emoção ficou restrito aos dez minutos anteriores ao intervalo. O Cruzeiro tinha um pouco mais de repertório com Sassá, que acertava o pivô, embora falhasse demais nas finalizações. Já a melhor jogada do primeiro tempo veio do outro lado, com o carimbo de Guerrero. O centroavante deu um lindo passe para Uendel e permitiu que o lateral chegasse à linha de fundo. Dodô salvou o cruzamento na pequena área, em bola que chegaria limpa a Edenílson. Mas foi só.

Com o Inter reinando na intermediária, o Cruzeiro voltou ao segundo tempo de maneira mais agressiva. E isso já foi suficiente para esquentar a gelada semifinal. Robinho comandava as ações do time, mas não via os companheiros corresponderem, sobretudo Thiago Neves – péssimo em quase tudo o que fazia. Mesmo pressionada, a defesa colorada seguia se dando melhor. Cuesta aparecia para desarmar os adversários, enquanto Marcelo Lomba só realizou sua primeira defesa aos 13 minutos, em chute de Henrique que o arqueiro segurou com tranquilidade. Apesar da insistência, os celestes eram lentos na conclusão das jogadas e erravam demais em suas decisões.

O Inter mudou com a entrada de Wellington Silva no lugar de Nico López. E o substituto ajudaria os colorados a crescerem, a partir dos 20 minutos. Quando apertaram mais, os visitantes perceberam que a vitória era possível. Fábio realizou o primeiro de seus milagres aos 25, quando Edenílson passou de calcanhar e Wellington Silva mandou uma bomba, espalmada pelo goleiro. Logo depois, outra chance clara dos gaúchos, em roubada de bola de Patrick que Guerrero chutou já na pequena área, para que o ídolo cruzeirense salvasse à queima-roupa. O gol amadurecia e, nas cordas, o Cruzeiro cedeu o placar aos 30.

Rafael Sóbis sofreu falta na entrada da área e permitiu que Guerrero executasse uma de suas especialidades. A batida do peruano saiu com força e, bem colocada, exigiu uma ótima defesa de Fábio. No entanto, o rebote pingou dentro da área e a defesa cruzeirense bobeou na hora de se proteger. Edenílson estava muito mais atento e invadiu a área sozinho, pronto para resolver. Prêmio à ótima partida que o volante fazia e também complemento à sua fase imparável no meio-campo colorado, oferecendo uma intensidade impressionante. Graças a ele, os visitantes ficaram com o jogo nas mãos.

Edenílson sentiu lesão muscular pouco depois e precisou ser substituído. Nonato entrou com vontade em seu lugar e ajudou os colorados a segurarem o resultado. Já o Cruzeiro até piorou com as trocas. Fred suplantou Sassá e foi nulo na linha de frente, enquanto Marquinhos Gabriel também empobreceu o time. Se o problema da Raposa é justamente marcar gols, não foi desta vez que conseguiria romper a zaga do Internacional. O desespero cruzeirense no final não deu em nada. No máximo, Pedro Rocha tentou uma jogada pela esquerda e sua conclusão cruzada saiu pela linha de fundo. A tensão no Mineirão se sentia no ar. Rendeu vaias e outros xingamentos a Mano Menezes, respondidas com um irônico sinal de positivo. Depois do jogo, o treinador pediu demissão – assunto que trataremos em outro texto aqui na Trivela.

O Internacional se prontifica a voltar à final da Copa do Brasil pela primeira vez em dez anos, buscando o título que não conquista desde 1992. O time é consciente de sua identidade e se vale da inspiração de Guerrero, Edenílson, Cuesta e outros ótimos jogadores. Como se não bastasse a vitória em Belo Horizonte, o rendimento no Beira-Rio aumenta a expectativa de uma classificação segura. O Cruzeiro, afinal, precisará se revolucionar pela enésima vez nas últimas semanas. O triunfo sobre o Atlético Mineiro na ida das quartas de final, cada vez mais, se afirma como um ponto fora da curva, em que tudo deu certo aos celestes. E essa não é a tendência atual, com as várias atuações insatisfatórias do time. Tentará agora com um novo técnico.

Diante do que se viu nesta quarta, a impressão é de que o Inter poderia ter construído o resultado até antes, se fosse um pouco mais ousado. Ainda assim, a vitória está no bolso e exige uma competência que o Cruzeiro não anda muito disposto a apresentar. É ver como as próximas semanas incidem sobre os times, com o Flamengo pintando no caminho dos colorados pela Libertadores e os cruzeirenses tentando se livrar do calvário no Brasileirão. Mesmo que uma reviravolta aconteça aos dois clubes, nem isso parece capaz de abalar o favoritismo dos gaúchos dentro de sua casa para a volta da semifinal.