Liderança se conquista. E a braçadeira de capitão não está no braço de Hugo Lloris por motivos vazios. Em um elenco que se fortaleceu principalmente depois da repescagem para a Copa de 2014, o goleiro ascendeu como uma referência. Firmeza e serenidade necessárias em uma seleção que, historicamente, viu bons times desmoronarem por conta dos problemas internos. Entretanto, a importância de Lloris para os Bleus vai além. Mesmo sem tanta badalação, o francês se coloca entre os melhores arqueiros do mundo há alguns anos. Algo que se evidenciou contra a Alemanha. Se no ataque Griezmann fez toda a diferença, o camisa 1 segurou as pontas diante da pressão dos rivais. Também teve grande peso na classificação à final.

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Lloris moldou o seu caráter na seleção desde as categorias de base. Chegou à equipe principal da França em 2008, aos 21 anos, quando ainda defendia o Nice. Depois disso, ganhou notoriedade no Lyon e assumiu a posição às vésperas da Copa de 2010. Enquanto o toque de mão de Henry é mais lembrado, o camisa 1 teve atuações monumentais para assegurar a classificação na repescagem contra a Irlanda. Ganhou a braçadeira antes da Euro 2012, depois da qual seguiu ao Tottenham. Absoluto no gol dos Bleus desde então, o goleiro é o jogador do atual elenco com mais partidas pela seleção: 80, apenas sete a menos que Fabien Barthez, recordista na posição.

A maturidade de Lloris, porém, se explica além de sua carreira. Filho de um banqueiro e de uma advogada, o prodígio construiu o seu sucesso no futebol através do próprio esforço. Abandonou uma carreira promissora no tênis para seguir nos gramados. E, mesmo assim, não deixou de focar os estudos: tinha uma permissão especial do Nice para não frequentar a escola do clube, e sim um colégio público onde obteve bacharelado em ciências. Já como profissional, aos 21 anos, precisou lidar com a morte de sua mãe e, mesmo assim, entrou em campo dois dias depois, recebendo as homenagens da torcida do Nice. Além disso, é o próprio goleiro quem gere sua carreira, dispensando o agente que o acompanhou na adolescência. Personalidade que se complementa com as virtudes sob as traves, especialmente pela envergadura e nas saídas do gol.

O fato de ser um grande goleiro, de qualquer forma, não exime Lloris das falhas. Algumas vezes, o camisa 1 vive atuações irregulares. Nesta Eurocopa, entretanto, o capitão vem sendo ótimo. Tomou quatro gols, dois de pênalti e os dois diante da Islândia. Em uma defesa que nem sempre oferece a firmeza necessária, o arqueiro precisa garantir a segurança. E, por mais que seus companheiros tenham ajudado bastante nesta quinta, o capitão salvou quando sua presença foi necessária.

Durante o primeiro tempo, a Alemanha só não saiu em vantagem graças a Lloris. Primeiro, voou no canto para buscar o chute colocado de Emre Can. Pouco depois, saltou para desviar para escanteio o arremate de Schweinsteiger. Além disso, se mantinha impecável nas saídas pelo alto, com as bolas alçadas na área. Já no segundo tempo, levou alguns sustos, embora não tivesse culpa. E quando a classificação estava encaminhada, o goleiro operou o seu maior milagre para evitar o gol de honra do Nationalelf, espalmando uma cabeçada à queima-roupa de Kimmich. Séria candidata a defesa mais difícil da Euro.

Contra Portugal, na decisão, Lloris deverá permanecer como protagonista. Portugal é o quarto time que mais finaliza na Eurocopa. Além disso, precisará orientar muito bem a sua linha defensiva contra um ataque que tem Cristiano Ronaldo. É a liderança que poderá acabar premiada como a taça. Terá a chance de repetir o gesto de Casillas, único goleiro a  erguer o troféu europeu como capitão. Seguir os passos de Michel Platini e Didier Deschamps no tricampeonato continental.