Não havia uma alma viva no Estádio Atanásio Girardot que não tivesse a respiração ofegante. Ou o coração acelerado. Ou as mãos trêmulas, por nervosismo e vibração. Enquanto isso, em milhares de lares das Américas, o que prevaleceu foi a incredulidade. O que aconteceu em Medellín nesta quinta é para ficar para sempre gravado na história do continente. Para sempre ser lembrado como uma verdadeira noite de Libertadores. Atlético Nacional e Rosario Central fizeram um duelo de alto nível como poucos nos últimos anos do torneio. No entanto, apenas um sobreviveria. E coube a honra aos colombianos, que tiveram raça e técnica. Que não desacreditaram por nenhum instante. Aos 50 do segundo tempo, saiu o gol da vitória por 3 a 1. O gol que recoloca os Verdolagas nas semifinais após 21 anos.

Nacional e Central já haviam brindado as Américas com uma grande partida na ida. Os argentinos se impuseram no Gigante de Arroyito, em noite na qual os colombianos não deixaram de buscar o ataque, embora o goleiro Armani tenha evitado um saldo pior do que a derrota por 1 a 0. Resultado que mantinha o confronto totalmente aberto para o reencontro em Medellín, ainda mais diante da qualidade dos adversários. E a torcida deu mostras da vontade paisa com um belíssimo recebimento em verde e branco.

O Rosario Central, contudo, teve a ajuda do juiz para sair em vantagem. Graças a um pênalti bastante questionável, Marco Rubén abriu o placar aos nove minutos. Um placar que botava o Atlético Nacional contra a parede: os Verdolagas precisariam de três gols para a classificação. Tarefa complicadíssima, e não pela capacidade do ataque dos colombianos, mas sim para quebrar a sólida defesa canalla e ainda manter-se a salvo dos perigosos contra-ataques da equipe visitante.

Sabendo de suas necessidades, o Nacional começou a partir para cima. Mesmo com o Rosario Central fechado na defesa, a ótima movimentação da equipe de Reinaldo Rueda criava espaços. O problema vinha na finalização, com o excesso de erros dos colombianos. E não demorou para que o treinador colocasse o seu time ainda mais para frente. Aos 34 minutos, Rueda optou por tirar o volante Sebastián Pérez, um dos melhores do time e titular da seleção colombiana, para a entrada do atacante Orlando Berrío. Ousadia que seria decisiva.

Berrío entrou colocando fogo na partida. E, em excelente jogada, cruzou para Macnelly Torres buscar o empate nos acréscimos do primeiro tempo. O gol daria novo ânimo para os Verdolagas, que voltaram para a segunda etapa com outra troca: Andrés Ibargüen na vaga de Jonathan Copete. E, aos cinco minutos, saiu o segundo tento. Donatti falhou no domínio e a bola sobrou limpa para Marlos Moreno. A maior revelação da Libertadores cruzou para Guerra, e o maestro venezuelano não perdoou diante de Sosa.

girardot

A partir de então, o grande adversário do Atlético Nacional era o relógio. O Rosario Central se apequenou, todo recuado. E os Verdolagas ditavam o ritmo da artilharia pesada, ora parando em Sosa, ora pecando pela própria falta de pontaria. Mesmo com pressa, não perdiam a qualidade para trabalhar as jogadas. Ainda assim, os nervos se expunham com faltas duras e desentendimentos entre as duas equipes. Rueda colocou o time para frente de vez com a entrada de seu quarto atacante, Juan Castañeda. Já aos 45, o cartão vermelho para Burgos deixaria os argentinos com um jogador a menos.

Nos acréscimos, porém, os torcedores do Nacional reviveram o roteiro sádico da eliminação para o Defensor na Libertadores de 2014. Naquela ocasião, os paisas bombardearam a meta uruguaia e perderam gols incríveis, mas amargaram a eliminação com o gol de Oliveira nos minutos finais. Como daquela vez, Marco Rubén partiu sozinho no contra-ataque, cara a cara com Armani. Mas preferiu passar para Cervi. Perdeu o gol da classificação do Rosario Central. Desta vez, o desastre não se repetiria no Atanásio Girardot.

O árbitro deu seis minutos adicionais. E no penúltimo deles, Ibargüen chamou a responsabilidade. Fez grande jogada individual, costurando a defesa adversária, até chegar à linha de fundo. Cruzou. Medellín inteira parecia ocupar a área. Mas quem subiu mais alto foi Henríquez, ajeitando de cabeça. E, de frente para o gol, Berrío fuzilou. Gol heroico, inacreditável, sensacional. Ao extravasar na comemoração, o atacante resolveu provocar o goleiro Sosa. Arrumou confusão e foi expulso. Por conta disso, o jogo seguiu até os 56. Teria tempo para Lo Celso ser expulso por agressão e Rubén proporcionar o último suspiro do Rosario Central. Entretanto, foi o Atlético Nacional quem seguiu respirando.

O apito final desencadeou uma confusão generalizada em campo. Já nas beiradas, a torcida não continha a euforia e tentava invadir. A festa era colombiana. O coração das Américas pulsava em Medellín naquele momento. E, de dono da melhor campanha na primeira fase, o Atlético Nacional agora desponta com pecha de favorito. Pega um rival duro como o São Paulo, mas credenciado pelo épico e pelo bom futebol. Enfim, o clube é premiado como um dos quatro melhores do continente, depois de tantos anos de bom trabalho no Estádio Atanásio Girardot. Se Juan Carlos Osório começou a construir uma grande equipe, Rueda o aprimorou. E a alma, que tanto se pede na Libertadores, não deixará mais a camisa Verdolaga depois de tudo o que aconteceu nesta quinta.