Começo de ano, muitas especulações sobre transferências e, no meio de muitas idas e vindas, a China está contratando jogadores a rodo no Brasil. Depois de levar Jadson, um dos melhores do último Campeonato Brasileiro, e de Luís Fabiano, sem clube depois do seu contrato com o São Paulo ter acabado, está em cima de outros dois jogadores campeões brasileiros: Elias e Renato Augusto. Claro, nem todos vão para o mesmo time. Os dois meio-campistas, que estiveram nas últimas convocações para a Seleção Brasileira, estão sendo sondados com propostas tão altas que até os líderes da lista de homens mais ricos do mundo da Forbes balançariam.

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Em meio a tudo isso, uma polêmica: jornalistas e torcedores podem ou não podem criticar um jogador que escolhe receber um bilhete de loteria por mês para jogar em uma liga fraca tecnicamente e sumir do mapa, possivelmente abrindo mão de estar na Seleção Brasileira também? Bom, vou ser direto aqui: o jogador tem todo direito de fazer a escolha profissional, como qualquer um, de trabalhar onde o pagarem melhor. E pode ser criticado por isso também. E veja, reforçando: ele pode fazer essa escolha, é direito dele. Os torcedores podem criticá-lo por fazer essa escolha, assim como jornalistas. Não há isso de “não pode criticar”.

Há um caminhão de dinheiro envolvido que poucas pessoas no mundo poderão ter a chance de ver na vida. Sim, os jogadores ganham tanto dinheiro na China que não dá nem para pensar. É plenamente compreensível que essa dinheirama toda faça a cabeça de muitos dos melhores jogadores do Brasil no momento. Todo mundo fica mexido, na área que for, quando recebe uma proposta para ganhar três, quatro ou cinco vezes mais. É normal aceitar. Como em qualquer área, as opções implicam em um rumo na carreira. E, no caso de ir para a China, significa abrir mão de alguns aspectos esportivos. Inevitavelmente.

Vai de cada um pesar o quanto cada coisa é importante. A questão é que ir jogar na China é abrir mão de um campeonato competitivo. Não dá nem para discutir isso. Claro que é possível jogar na China, disputar a Liga dos Campeões da Ásia, eventualmente até o Mundial, como fez o Guangzhou Evergrande, que tem Ricardo Goulart, a principal estrela, mas também tem Paulinho, ex-Corinthians e Tottenham. Mas também é fato que jogam uma liga de nível técnico bastante ruim, muito pior do que as criticadas ligas da Ucrânia ou Estados Unidos. Ganham um dinheiro que não ganhariam em nenhum outro lugar do mundo. E também abrem mão das conquistas que sonharam quando iniciaram a carreira, ainda meninos, correndo com a bola. Ser campeão por um grande clube do Brasil, ser campeão, vestir a camisa da Seleção, jogar uma Copa do Mundo. Tudo isso fica muito difícil, pra não dizer realmente impossível, jogando na China.

Mesmo jogando em um clube como o Guangzhou Evergrande (o mais forte atualmente), o campeonato na China está muito abaixo do nível técnico de qualquer das grandes ligas do mundo, o Brasileirão incluído. Ir para lá é ter que abrir mão da chance de ter glórias esportivas no Brasil e praticamente dar adeus à Seleção Brasileira. É uma escolha e certamente os jogadores sabem disso. Claro que há muitos fatores envolvidos: alguns jogadores não querem apostar cegamente na chance de ficar na seleção, sabem que há sempre o risco de lesão, além da bagunça de sempre que é o futebol brasileiro. Ninguém quer apostar muito em ficar.

Tem ainda o fator cultural. No Brasil, os jogadores carregam a família inteira (e às vezes os amigos também) nas costas, sustentando núcleos inteiros, às vezes de 30 pessoas. As razões para isso são caso para estudo sociológico, o que não é o caso aqui. O objetivo de trazer esta informação é que este é um fator que os jogadores também consideram quando abrem mão de uma vida confortável no Brasil para uma aventura de milhões de dólares na China.

O que é preciso lembrar também é que o real, moeda brasileira, está muito desvalorizado. Com o dólar a R$ 4, as propostas do exterior ficam ainda mais atraentes e, em alguns casos, tornaram-se realmente bilhetes de loteria. A Caixa Econômica anunciou um prêmio estimado de R$ 2,5 milhões para esta quarta na Mega Sena. Há jogador indo ganhar R$ 2 milhões POR MÊS. Sim, não tem muito jeito de competir. Então, a única competição possível é a esportiva. O que o jogador quer? O que o clube brasileiro pode oferecer a ele para que ele não queira só o dinheiro dos clubes chineses (como já foi de outros lugares)? Um campeonato mais organizado, clubes mais organizados e tudo isso que ainda não temos. Mas não quer dizer que os jogadores ganhem mal. Ao menos não estes que vão para a China.

A opção esportiva continua sendo ruim, mesmo com todo esse caminhão de dinheiro. Não quer dizer que ele não deva ir. O jogador pode optar por ganhar esse dinheiro, que talvez nunca mais apareça nessa mesma quantidade de novo. Mas o futebol dele perde. Ficará em um nível menor e provavelmente perde a chance de subir de nível, jogar em campeonatos melhores. Jogar em ligas mais fracas pelo dinheiro não é novo e já vimos muito isso acontecer. E os jogadores sabem disso, de maneira geral. Sabem do que estão abrindo mão. Preferem a garantia, pensam na carreira curta, nas dezenas de pessoas que sustentam. E os sonhos vão ficando para trás.

É uma opção que fazem. Uma opção válida e justa, mas também passível de crítica. Um jogador como Renato Augusto pode fazer história no Corinthians, se tornar ídolo, enfileirar títulos. Mas a grana é pesada, sem dúvida. É difícil dizer não. Mas Renato Augusto, que foi tão bem na Seleção nos últimos jogos, provavelmente acabará esquecido em alguns meses, quando estiver disputando o Chinesão e o Brasil estiver se preparando para a Copa América do Centenário, em junho. Vale o mesmo para Ricardo Goulart, que poderia estar na Seleção Brasileira, mas está na China, sendo eleito o melhor jogador, disputando Mundial de Clubes, mas fora da Seleção e longe dos grandes campeonatos do mundo. É uma questão de opção. O sonhos esportivos vão ficando pelo caminho em busca dos sonhos financeiros, de sustentar e dar à família o que ela nunca teve.

Os clubes brasileiros pagam também pela própria falta de organização, de não ter aqui uma liga melhor, mais rica, mais atraente. Com a crise financeira e o Real em baixa, todos os problemas do futebol brasileiros ficam ainda mais aflorados diante de uma montanha de dinheiro que o jogador jamais viu igual. E a rota para a China, que parecia tão inóspita, vai ficando cada vez mais sedutora. O futebol daqui perde. Os torcedores lamentam. E os jogadores, que estavam em alto nível, provavelmente jogarão em um nível abaixo. Para quem tem ambições esportivas altas, dificilmente a China é atraente nesse nível. Para quem tem tantas incertezas como geralmente os jogadores daqui têm, as propostas soam como um canto da sereia. Mesmo que digam que a sereia não irá dar o amor que ele imagina.

O jogador tem o direito de ir para a China, tanto quanto os torcedores e jornalistas podem criticar, esportivamente, esta decisão. E vida que segue.