O futuro de Iker Casillas ainda não está completamente definido. Após sofrer um infarto no final da temporada passada, o goleiro se juntou à comissão técnica do Porto em julho, mas não se aposentou oficialmente do futebol. Existe a possibilidade de retornar aos gramados, enquanto agora realiza sua recuperação e também acompanha a batalha da esposa, Sara Carbonero, contra um câncer no ovário. Diante da lacuna, o Porto buscou um novo goleiro para assumir a meta. E faz uma aposta em Agustín Marchesín, em tardio reconhecimento do futebol europeu ao talento do argentino de 31 anos.

A verdade é que, durante boa parte de sua carreira, Marchesín permaneceu subestimado. O goleiro despontou no Lanús e passou sete anos na equipe principal grená, colocando-se como um dos melhores goleiros em atividade no futebol argentino. Virou um dos grandes ídolos do clube e foi essencial na campanha do título na Copa Sul-Americana em 2013. Mudou-se para o México em 2015, ao acertar sua transferência para o Santos Laguna. Pode ser considerado um fenômeno no país, pelos seguidos milagres que passou a operar. Em 2017, recebeu uma proposta do América e resolveu se mudar à capital. Manteve a forma excepcional, também adorado no Estádio Azteca. Conquistou um título da Liga MX por cada clube, além de levar a Luva de Ouro em duas das quatro temporadas em que ficou no país.

É até estranho que Marchesín não tenha uma sequência maior na seleção argentina, considerando o nível de muitos goleiros que passaram pela equipe nacional. Convocado pela primeira vez em 2010, por Sergio Batista, teve idas e vindas nas listas da Albiceleste. Era nome para ao menos figurar entre os reservas nas duas últimas Copas do Mundo. No máximo, esquentou banco nas Copas América de 2015 e 2019. Nestes nove anos, disputou somente quatro partidas pela seleção principal. Pouco à boa forma apresentada nesta década, independentemente do clube que defendesse.

A transferência à Europa talvez não fosse exatamente o caminho natural a Marchesín. O futebol mexicano oferece bons salários e tem sido destino de alguns dos principais goleiros da Argentina, com menções principais a Marcelo Barovero e Nahuel Guzmán. Por isso mesmo, a mudança pouco comum a Portugal ressalta o nível de excelência atingido pelo veterano. Não é exatamente um jogador para o futuro, mas ganha um contrato de quatro anos. E se um clube referendado por sua capacidade de observação resolveu pagar €7,5 milhões por um arqueiro de 31 anos, isso diz mais sobre a qualidade do camisa 1 do que sobre qualquer outra coisa.

O técnico Sérgio Conceição, responsável direto por pedir a vinda de Marchesín, tem hoje à sua disposição quatro goleiros. O outro nome experiente é o do brasileiro Vaná, antigo ídolo do ABC, que virou reserva de Casillas após uma boa temporada no Feirense. As outras duas apostas são Diogo Costa e Mouhamed Mbaye, jovens promovidos do Porto B. Ao que tudo indica, Marchesín vem para ser mesmo o substituto de Casillas e honrar o nome do goleiro neste período de incerteza. É uma chance de ouro, que já parecia distante ao argentino.

O mercado do Porto nesta temporada, aliás, foge um pouco dos padrões. E isso não quer dizer que deixa de agregar ótimos talentos. A compra mais cara foi de Shoya Nakajima, que retorna ao futebol português após uma rápida passagem pelo Catar, valorizado por sua participação na Copa América. Já da América do Sul, vem Luis Díaz, jovem meia que ascendeu com a camisa do Junior de Barranquilla, após ser descoberto em um torneio para povos indígenas em 2015. Além deles, também desembarcam o ponta Zé Luis (Spartak Moscou), o volante Mamadou Loum (Braga), o lateral Renzo Saravia (Racing) e o zagueiro Iván Marcano (Roma). Mesmo que os portistas tenham perdido força especialmente na defesa, com as vendas de Éder Militão e Felipe, um salto de qualidade parece possível.

A chegada de Marchesín ainda dependerá da adaptação imediata, algo fundamental após perder parte da pré-temporada. Vem já para participar das preliminares da Champions, na qual a equipe encara o Krasnodar. Nada garante que será um sucesso no Porto. Mas é uma contratação bastante válida e que, no fim das contas, acaba sendo essencial ao próprio veterano. Quem sabe assim pode ganhar um pouco mais de confiança entre os selecionáveis, mesmo que a meta esteja em boas mãos com Franco Armani. Outras partes do mundo poderão conhecer o paredão reverenciado no México e também por boa parte da Argentina.