Em 26 de junho de 1969, nascia uma bandeira da liberdade no Brasil em meio ao período mais duro da ditadura militar. O Pasquim surgiu como um folhetim de humor e contracultura, mas também uma maneira de se posicionar contra o regime, por mais que a censura fosse gigantesca na época. Jaguar, Ziraldo e Henfil estavam entre as cabeças por trás do semanário, ao lado de Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Paulo Francis, Millôr Fernandes e outros nomes importantes da imprensa brasileira na época. O trio de cartunistas, em especial, tinham os traços certos para dar voz aos protestos. E uma proximidade com o futebol para também incluí-lo na pauta da publicação.

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O momento, aliás, não poderia ser mais propício para tratar sobre o esporte e também entrar no combate à ditadura. Meses depois, o Brasil buscava o tricampeonato mundial na Copa de 1970. Então, O Pasquim passou a retratar as contradições entre a comoção causada com a campanha, e a própria forma como o timaço era explorado pelo regime, com a situação interna da política no país.

“Um país inteiro para por causa do futebol, mas não para resolver o problema da fome… Este sim é o verdadeiro ópio do povo! Faz esquecê-lo de que são explorados, subdesenvolvidos… Estou torcendo para o Brasil perder! Assim, o povo voltará a realidade e verá que a vida não é feita de gols, mas de injustiças… Nossa realidade não é tão infantil como uma jogada como esta de Pelé invadindo a grande área inglesa e… Pênalti! Pênalti! Juiz filho da mãe! Pênalti, seu safado!”

Texto de uma charge de Henfil, de 11 de junho de 1970

O episódio mais emblemático aconteceu na edição de 13 de agosto de 1970, cerca de dois meses depois da conquista sobre a Itália. Jaguar fez uma releitura de vários outros ícones da cultura brasileira. Desenhou uma família de miseráveis, que pode ser ligada ao livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e ao quadro Retirantes, de Cândido Portinari. Com um detalhe principal: a bandeira do Brasil e a placa “Avante Seleção”. Logo abaixo, reproduziu um trecho do poema “E agora, José?”, de Carlos Drummond de Andrade. Uma crítica clara sobre a festa passageira e a dura realidade de boa parcela da população.

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Pois as consequências daquela charge não pesaram sobre Jaguar. A censura caiu sobre Drummond. “Esta ilustração quase provocou a prisão do poeta. Tive um trabalho danado para convencer o general da censura que publiquei o desenho sem pedir a autorização do autor”, conta o cartunista, no livro ‘O Pasquim: antologia’. Na época, Drummond estava às vésperas de completar 68 anos de idade.

Quem acabou preso durante aquelas semanas foi o próprio Jaguar. Foram três meses na cadeia por causa das críticas à ditadura, solto em dezembro de 1970. Não foi aquele episódio, porém, que impediu o Pasquim de continuar empunhando a bandeira contra a repressão. Em 1991, o folhetim publicou sua última edição, já depois da redemocratização e das primeiras eleições diretas para presidente. Mas seu legado continua em pé, mesmo 46 anos depois de seu nascimento.