Quando os times entraram em campo e o hino nacional começou a tocar, a realidade se concretizava com força, ao som e fúria de Libertadores. Pouco mais de três meses não foram suficientes para cicatrizar o sentimento de perda, sobretudo em familiares e amigos. Ainda assim, serviram para que a Chapecoense refizesse seus prumos e voltasse a caminhar, a passos largos, em uma competição continental. Não dá para negar que os primeiros minutos causaram estranhamento. Uma sensação de vazio, pela continuação da história sem a presença física dos heróis que partiram. No entanto, continua ali o espírito aguerrido, da equipe valente que peitou tantos gigantes nas duas últimas edições da Copa Sul-Americana. Desta vez, para vencer os desafios enormes impostos pela emoção e pelo peso da responsabilidade. Para bater o Zulia por 2 a 1, na Venezuela, e estrear com vitória na Copa Libertadores.

Vágner Mancini escalou a nova Chape com meio-campo reforçado. Apostou em três volantes, para ganhar solidez em Maracaibo. O Zulia, também novato na competição continental, contou com um caloroso recebimento de seus torcedores. Mas acabou dominado pelo jogo proposto pelos catarinenses. Exceção feita a uma cobrança de falta no início, o Verdão do Oeste era bem melhor. Especialmente pelos lados do campo, os visitantes incomodavam a defesa venezuelana. Niltinho chegou a reclamar de um pênalti, enquanto Andrei Girotto obrigou um milagre do goleiro Renny Vega – veterano da seleção venezuelana, famoso por ter levado o primeiro gol de Ronaldinho pelo Brasil.

chape liberta

Aos 32 minutos, veio a merecida vantagem da Chapecoense. Em cobrança de falta na linha de fundo, Reinaldo bateu na bola com efeito e conseguiu mandar para dentro da meta. Na comemoração, muita emoção, com dedos apontados aos céus. Os dias na Arena Condá continuam carregados de lembranças. E um gol como este tem inúmeros significados, especialmente para impulsionar o reinício dos catarinenses. Na sequência da primeira etapa, o time de Vágner Mancini seguiu soberano. O combate oferecido nas divididas era a grande virtude.

O Zulia se soltou mais na volta do intervalo, buscando o campo de ataque. A Chapecoense se segurava, esperando a chance de garantir o resultado. E ela veio aos 23 minutos, premiando um dos melhores em campo. Após bela trama pela direita, o promissor João Pedro passou para Luiz Antônio bater de primeira, da entrada da área, no canto de Vega. A partir de então, a tônica do jogo se voltou aos anfitriões. O Zulia apostava principalmente no jogo aéreo, enquanto Vágner Mancini reforçava a marcação.

chape libre

Os venezuelanos descontaram aos 31. Após cobrança de escanteio, a Chape falhou na marcação e o lendário Juan Arango apareceu na área para desviar às redes. A pressão era do Zulia, mas os catarinenses também poderiam ter feito o terceiro. A entrada de Apodi foi vital para os contra-ataques, deixando o time da casa em apuros. O camisa 22 chegou a carimbar o travessão, além de criar outras oportunidades para os companheiros. Já o Zulia só não empatou por uma grande defesa de Artur Moraes, salvando o chutaço de Arango. O excesso de cruzamentos aceleraram os batimentos cardíacos dos brasileiros nos acréscimos. Para que, enfim, a alegria tomasse conta ao apito final, com a vitória valiosíssima dos atuais campeões da Copa Sul-Americana.

A Chapecoense celebrou o resultado feito um título. Merecidamente, diante da tragédia que tenta superar a cada dia. Jogadores e outros membros do clube dedicaram o triunfo não apenas àqueles que se foram, mas também aos que seguem acolhendo e manifestando a solidariedade. O recomeço ainda tem um caminho longo pela frente e a sequência na Libertadores não será simples, com Lanús e Nacional de Montevidéu na mesma chave. De qualquer maneira, a tabela ou os três pontos importam pouco neste momento. O valor do que foi conquistado em Maracaibo é imensurável. Só se tem noção quando se olha para trás e se pensa nos três meses que passaram – uma eternidade em si, que para sempre acompanhará a Chape.